The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Discussões Públicas

Acabou o caso de censura na revista Análise Social 212 com a sua distribuição tal e qual (com ensaio e tudo) por deliberação do conselho científico do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

(A dita deliberação é o texto típico que costuma sair dos conselhos científicos. Um compromisso muito bem comprometido. Anula a decisão do director do Instituto procurando com que ele não perca demasiado a cara no processo. Por isso mesmo, houve quem dissesse, lá para as bandas do José Manuel Fernandes, que quem tinha perdido a cara era a direcção da revista, etc. Pois. Claro. Hã hã.)

A polémica vista daqui do lado das artes é curiosa na medida em que os argumentos pró e contra eram praticamente iguais. Muitos dos que defenderam o ensaio visual argumentavam que não pretendia ser científico. Que era uma secção à parte, não sujeita à revisão dos pares, etc. Quem o atacou disse quase a mesma coisa: que não não era científico e portanto não tinha nada que estar ali.

Dentro da produção científica na área das artes é bastante comum apanhar teses de mestrado e doutoramento com uma componente prática que consiste precisamente na elaboração de ensaios visuais. É também comum a discussão se isso pode ou não ser produção científica. Pessoalmente, acho que não devia ser. Não acho que um ensaio visual fique a ganhar ou ganhe mais legitimidade ao ser considerado científico. Da mesma maneira que não acho que algo perca legitimidade ao ser simplesmente “arte”, “design” ou “cinema”.

Assentar a legitimidade da pedagogia e da investigação nas artes numa espécie de equivalência entre estas e a ciência tem sido a norma mais ou menos inquestionada. O resultado: uma perda estúpida de tempo e recursos em tentativas de fazer uma espécie de google translate entre arte e ciência tenho como única consequência as artes serem vistas (na melhor das hipóteses) como uma ciência de segunda, sem qualquer tipo de especificidade própria.

Na hora H, quando se trata de colocar um mero ensaio visual numa revista de investigação académica, sem sequer pretender fazer dele investigação científica a sério, cai o Carmo e a Trindade. Mesmo para quem o defende é preciso compartimentar muito bem a coisa.

Eu defendo a presença de ensaio visuais em revistas académicas não porque pode até ser científico ou seja apenas acessório, sem magoar as coisas científicas que acompanha, mas porque as revistas puramente académicas, o próprio discurso académico, não fazem sentido algum se não tentarem fazer parte de uma discussão pública mais alargada.

Por mais ameaçadas que estejam, não preocupam tanto as artes ou as ciências sociais como essa discussão pública. Vivemos numa época onde o fascínio pela especialização é quase total. Em público, acaba por só ser verdadeiramente legítimo o discurso do especialista. Só o economista pode falar sobre economia, só o escritor sobre literatura, e por aí adiante. Mas isso implica um público mudo que não tem como responder a estes argumentos de autoridade excepto confiando cegamente neles.

Assim, as tentativas de produzir um discurso mais amplo, não necessariamente menos especializado mas mais público, devem ser louvadas.

Numa universidade não chega aprender uma especialização; é necessário aprender a argumentá-la na esfera na pública.

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Filed under: Crítica

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