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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Discussão do Costume

Daqui a menos de uma semana vou fazer uma conferência sobre aquilo que ainda vou chamando a Cena do Porto, no âmbito do evento Sub 40. Contínua a ser um assunto estimulante talvez por ser também bastante irritante. É inevitável discutir-se o assunto sem grande atenção ao que se passou realmente e que se poderia facilmente comprovar com o mínimo de esforço. Já na altura era assim. Agora é pior, porque já passaram quase dez anos desde essas discussões e continua-se a cair nas mesmas armadilhas.

Um bom exemplo é a crítica à exposição que Celso Martins publicou ontem no Expresso, onde se assumem as coisas do costume:

· Assume-se que a Cena Alternativa era um todo coeso quando nunca o foi. Houve bastantes discussões que levaram a cisões.

· Assume-se que a cena ainda é actuante quando acabou nos termos e condições em que era praticada há dez anos. As mesmas pessoas continuam a ser artistas e a fazer arte mas individualmente ou em pequenos colectivos mas não é, assumidamente, a mesma coisa. Prova disso é o carácter retrospectivo com que essas práticas têm sido recuperadas em várias exposições. De resto, no próprio artigo se enumeram artistas que ganharam visibilidade acentuada quando descolam da “lógica ‘portuense'”.

· Na realidade, esse objectivo, de descolar da lógica “portuense”, era a posição dominante nas discussões da altura e a que acabou por vingar e quem a defendia safou-se muito melhor. Na época, tal como agora (e como Celso Martins lembra), os processos de afirmação já eram “transregionais e supranacionais”.

· A posição oposta (que já na altura era caricaturada como sendo uma defesa dos artista locais apenas por serem locais – a tal lógica portuense) foi a facção que perdeu. O que se defendia era uma política coerente e consequente para a arte no Porto. Nunca se tratou dos artistas portuenses “terem sido esquecidos pelo Museu de Serralves”. Tal nunca aconteceu. Sempre houve muito apoio, diálogo e eventos relacionando o Museu com a cena alternativa. O problema é que era quase tudo mantido a um nível fragmentado, pessoal e informal sem se condensar verdadeiramente numa política coerente, consequente e transparente. Sem isso, os artistas locais acabavam por ser convocados apenas por estarem ali, ou seja por serem locais. O objectivo era outro: questionar as políticas de representação das instituições da arte – o que nem sequer é nada de novo; aconteceu um pouco por todo lado na mesma altura. Tanto quanto sei, só a propósito do Porto é que a coisa é recordada como uma birra provinciana, quando é uma tendência internacional.

· Como já disse aqui várias vezes, quase todos os artistas que atingiram a tal visibilidade acentuada produzem obras centradas no local, na documentação e encenação da precariedade, do património negligenciado, etc. – o que não é surpreendente porque internacionalmente se espera precisamente de um artista vindo de Portugal, um dos epicentros da crise. Arte local, em suma.

· O que se discutia na altura era precisamente a “natureza da mediação política no campo cultural”, um debate inquinado pela ideia, na verdade preconceito, que o artista deve manter uma distância de segurança em relação ao poder político, sob pena “de ficarem identificados com um poder político específico, mas transitório, e de passarem à história como a sua entourage artística oficial.” Ora, não é muito difícil contornar este problema: em vez do poder político comissionar directamente os artistas, pode fazê-lo através da mediação de um comissário. E em relação ao apoio financeiro pode-se fazer algo semelhante, deixando que mecenas privados o façam por ele. Naturalmente, ninguém vê nenhum problema das artes ficarem inteiramente dependentes destes mediadores e destes mecenas. O resultado é uma arte celebrando o dirigismo privado enquanto se queixa do dirigismo público.

 

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Filed under: Crítica

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