The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Paragem de autocarro

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Desculpem bater na mesma tecla mas isto não é um piano ou sequer um Casio de bolso. É um tambor só com uma baqueta. É a crise em Portugal e não há muito mais a dizer.

Assisti à conferência de uma designer portuguesa em Berlim que dizia que a dada altura se tinha fartado dos empregos como designer. Bastava-lhe trabalhar uns poucos dias por mês a servir à mesa para poder pagar a renda e sustentar os seus projectos paralelos. Hoje no Porto alguém me perguntou se achava que devia concorrer a certo emprego como ilustrador. Eu respondi, meio a brincar, Porque não? Não deve ser muito caro.

E quanto às mesas, uma aluna queixava-se que certos hostéis andavam a pagar menos de três euros à hora. Na maioria dos hósteis um dia de trabalho não chegaria para pagar a diária.

Mas lá está, o que um turista alemão vê quando chega a Portugal é quase exactamente o que vê em Kreuzberg, muita gente a servir às mesas e portanto, pensa, muito dinheiro, muita gente a ser paga. É como aquelas velhotas que se apanham nas paragens de autocarro em Santa Catarina a resmungar que afinal até há dinheiro, com tanta gente nas compras. É claro que podem ser turistas, emigrantes, gente a passear e mesmo que só os mais ricos dos mais ricos decidissem ir às compras, um por cento de dez milhões de portugueses são 100.000. O que resta da classe média é bem mais do que isso. Os desempregados também.

E não vale a pena andar a vestir farrapos e a comer pão duro à frente das velhas da paragem ou do turista alemão, porque se há gente a comprar é porque há dinheiro, se há gente a pedir é porque não quer ir trabalhar, e sai dali vêm buscá-los num BMW. Não adianta muito discutir preconceitos, vale a pena tomar posições políticas, mas está toda a gente sentada à espera do Costa – e isso é bem mais passivo do que esperar pelo 305.

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Espectador

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Ontem chegou-me pelo correio o nono número da Internationale Situationniste, editada entre 1958 e 1969. No ebay, já vinha assinalada como entregue desde dia 17 e, apesar de contar com os atrasos do costume nesta quadra natalícia, já começava a ficar preocupado. Quando chegou, foi de surpresa.

O pacote era muitíssimo mais pequeno do que imaginava. Já conhecia a revista através de fotos e da reprodução facsimilada num só volume da Champ Libre, mas não sei porquê esperava uma coisa mais imponente, com a escala da The Situationnist Times ou da Black Mask. Afinal era quase exactamente do tamanho do livro da Champ Livre, um pouco menor que um comic book. A única coisa notável era o metalizado da capa. Lembrei-me duma entrevista lida não sei onde – é provável que tenha sido no England’s Dreaming de Jon Savage¹ – onde algumas figuras do punk diziam que sim, que aquilo chamava a atenção, pela capa e pelas fotos com legendas provocantes do interior (mas a teoria era ilegível).

Desde há algum tempo que colecciono publicações subversivas. Tento perceber o seu impacto físico sobre quem as consumia, o modo como o formato, o papel ou a paginação afectavam o seu conteúdo, que muitas vezes acabava por continuar a circular completamente descolado do seu aspecto original e perdendo quase tudo por isso. É habitual falar-se do carisma do líder de um ou outro movimento, ou da actualidade das suas ideias, mas é comum esquecer-se o magnetismo dos seus veículos de comunicação. Sem tomar em conta o seu lado material, estético e mesmo erótico, algumas filosofias perpetuam-se enquanto mero misticismo – o situacionismo, o punk e outras coisas do género já caíram há muito nessa armadilha. Começa-se a responder a críticas com um “precisavas de estar lá” e daí para a frente é só nostalgia.

Se algum dia me decidir a expôr estas publicações, gostaria de o fazer num museu (por pequeno que fosse). Quanto mais institucional melhor. Nunca vi problema nenhum em expor arte ou artefactos políticos num museu. Vejo-os como documentos. O escrúpulo habitual contra “museificar” o político é uma treta. O acesso que se tem a eles será sempre distinto de participar neles, seja num museu, num colectivo anarquista ou numa manifestação. Nem se deve sequer confundir as coisas.

Se um objecto político mantém a sua actualidade é porque foi sendo actualizado. Ou seja, foi sendo reinterpretado de modo a manter-se pertinente. Há sempre uma distorção, seja praticada por um comissário, por um coleccionador ou mesmo por seguidores (que se não estiverem atentos a este processo acabam por transformar ferramentas e estratégias em objectos de culto e rituais nostálgicos).

Os problemas só começam quando se tenta fazer de expor estes objectos uma “experiência”, reencenando o seu contexto de origem, construindo à sua volta parquezitos temáticos que só servem para manipular e entreter o espectador. São os mesmos equívocos da estética relacional, que assume o público como uma amálgama embrutecida, ignorante e distraída que é preciso “ensinar” – e, já agora, os mesmos do próprio situacionismo e da sua crítica do espectáculo.

Contra isso, achei particularmente útil a leitura da introdução do “Espectador Emancipado” de Jacques Rancière, onde se defende que a condição de espectador nunca é passiva – a não ser que se force uma oposição entre criador/produtor e espectador/consumidor, entre a actividade do primeiro e a passividade do segundo.

Numa sociedade onde só se aceitam os produtores e os empreendedores em detrimento de quem consome, é urgente deixar algum espaço a este últimos, os espectadores, os passivos, os críticos ou simplesmente os que se passeiam. O que fazem é com eles e só com eles.

1. E não é que foi. Malcolm Mclaren no dito livro: “I’d heard about the Situationists from the radical milieu of the time. You had to go to Compendium Books. When you asked for literature, you had to pass the eyeball test. Then you got these beautiful magazines with reflecting covers in various colours: gold, green, mauve. The text was in French: you tried to read it, but it was so difficult. Just when you were getting bored, there were always these wonderful pictures and they broke the whole thing up. They were what I bought them for: not the theory.” Ou então Jamie Reid, no seu livro Up they Rise: “I was never involved with the Situationists to the fullest extent because I couldn’t understand half of what they written. I found Situationist texts to be full of jargon – almost victims of what they were trying to attack – and you had to be really well-educated to be able to understand them. […] I wasn’t so much attracted tothe Situationist theory as to how they approached media and politics. The slogans, for instance, were so much better than the texts.”

 

 

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2014 em coisas mínimas

Depois de quinze dias a consumir listas dos acontecimentos, discos, filmes e pessoas mais importantes de 2014, concluo que prefiro as listas alternativas, das pessoas menos poderosas do mundo da arte (quase toda a gente), ou dos filmes negligenciados que já me deram a oportunidade de ver obras um pouco ao lado, que nunca veria de outro modo. Nos últimos anos descobri que gosto do que se poderiam chamar listas críticas, que acabam por ser minifestivais de bolso, ou mais exactamente de colo, de livros, ensaios, arte, comics ou filmes que podemos ver ou reflectir sobre no computador. Acaba por ser mais uma instância da grande hegemonia do comissariado mas não é das piores. É intimista e quotidiana, delicada.

Também na vida pública e política se deviam fazer talvez listinhas e não listas, escolher figurinhas e não figuras do ano. Os pequenos escândalos do dia-a-dia, quando descobrimos que a crise nos mudou a todos, e não apenas os submarinos e os vistos e as luvas. Digo-o porque a maior desilusão do ano foi para mim a descoberta ou melhor a consciência que a maioria das pessoas que há uns anos ainda protestavam nas ruas neste momento só esperam cinicamente que este governo acabe. Para mim, o conceito do ano foi o Não-Sebastianismo, o oposto da crença num salvador, apenas a esperança que os idiotas que nos governam um dia hão-de acabar por se ir embora.

Outra consciência é perceber que se nos telejornais o subemprego, o estágio, incomoda e ainda é criticado, na vida quotidiana é  usado e abusado sem qualquer tipo de pensamento. Nas universidades, por exemplo, vai-se entranhando nos currículos, sem que se pense sequer nas suas consequências. Daí que apesar dos cortes se façam cada vez mais eventos e iniciativas. Quando não se precisa de pagar a ninguém, o céu é o limite. A abundância assenta numa institucionalização da miséria. Em oposição, eu sugeria que “não se fizesse ao próximo o que o governo faz a nós todos”. Porque não me parece que se possam resolver os problemas do país mudando o topo se aqui por baixo a mesma lógica já é corrente, já se tornou num hábito. Não adianta mudar o governo, se o quotidiano também já se liberalizou e privatizou.

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Mistérios

Das coisas que me cansa mais em toda a suposta investigação em arte/design é a sua quase total inutilidade em termos de discurso público. Nunca tanta gente escreveu sobre o assunto neste país e contudo as revistas teimam em não aparecer. A net? Não é respeitável q.b. Os jornais? Toda a gente os acha péssimos, mas com o dedo mindinho no ar enquanto se beberrica o café. E se perguntamos porque não põem as mãos à obra dizem-nos que não é esse o papel do artista/designer. Devia haver crítica, era bom, faz falta, mas não é nada comigo. Ah, mas não tens um doutoramento? Sim, mas não é isso. Etc.

Nunca vi gente tão aprisionada pela sua identidade como os artistas ou os designers. Sempre encaixaditos numa deontologia absurda que os impede de fazer quase tudo. Como ainda há gente que acredita na suposta liberdade destas áreas é um mistério.

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Se tens mais que fazer, junta-te a nós

Antigamente, a desculpa era uma coisa mal vista no ensino superior, agora demonstra carácter e valoriza o cv. O aluno aparece na aula (quando aparece) para dizer que esteve a trabalhar, não no que foi pedido, mas na “vida real”, em geral um estágio. Se o horário lhe tivesse deixado uma nesguinha, até tinha feito qualquer coisa. Na próxima aula, garante que traz qualquer coisa. É a promessa do jovem promissor.

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Diatribe

Um dos meus primeiros patrões, provavelmente o melhor, gostava de tomar chá a meio das noitadas que fazíamos a trabalhar aos fins de semana. Era comum trazerem-nos trabalho na sexta, quase sempre já fora do prazo. Era para ontem, outra firma tinha deixado por fazer, o fornecedor não tinha cumprido, etc. E ele dizia-me, enquanto bebia o chá com ar mal disposto: “Estamos aqui descansados, a pensar que estamos quase a acabar e estamos atrasados. Ainda não sei para quê, mas estamos.”

E é essa a sensação constante desde que comecei a trabalhar no ensino superior. Ler teses com menos de uma semana de aviso. Mandar inquéritos e pedidos de programas de um dia para o outro, porque o sistema estava em baixo ou nem se sabia da obrigação. Diria que é o melhor remédio para a prisão de ventre, mas ao fim de uns anos desenvolve-se uma resistência.

Às vezes tenho vislumbres de outros universos, com regras tão diferentes que o próprio tempo parece alienígena. Um comissário, por exemplo, descreve-me em pormenor uma exposição que planeia para daí a dois anos. E lamenta não ter mais tempo.

Por aqui, é encher chouriços. Seria uma linha de montagem se não fosse mais um comboio cheio de berlindes a descarrilar para cima da Volta à França. Toda a gente é incentivada a comportar-se como um floquinho de neve único e empreendedor, apesar das turmas serem gigantes, dos prazos serem microscópicos e dos recursos não existirem.

Ainda há quem ache que um mestrado ou um doutoramento é a oportunidade para investigar com vagar, etc. Neste momento, é como montar um ovo Kinder. E não pode ser de outro modo, a menos que se mude todo o sistema.

Já faz parte d quotidiano de um professor ouvir que os alunos não têm culpa, coitados, e por aí fora. Pela minha parte, a paciência acabou. Ninguém tem culpa, etc. e eu não tenho pachorra. Não tenho qualquer vontade ou vocação para servir de  almofada protectora entre o sistema absurdo que é Bolonha, a função pública em geral e os alunos.

É o pão nosso de cada dia andar a cumprir ordens dadaístas, mitigando-as de forma a que não matem gente. Tudo com cada vez menos recursos e onde cada professor, para além de dar quase um ano de curso em créditos, ainda tem que ser a secretaria de si próprio – mesmo que consiga fugir a cargos de direcção.

E depois, do lado dos alunos, há a ideia que todo este absurdo é apenas disfuncional, uma espécie de simulacro que ocupa o lugar do sistema a sério, impedindo que ele chegue. Não, não há sistema a sério. É mesmo só isto. E por incrível que pareça até prepara as pessoas para o mundo real. Passam metade do curso na secretaria, a cuidar de papelada e pagamentos? É isso que vos espera lá fora, amiguinhos.

Neste momento, já não faço sacrifícios pelo sistema, já não trabalho nas férias ou ao fim de semana. Um sacrifício é uma coisa pontual, não pode nunca ser o combustível da maquineta. Andar a trabalhar em condições cada vez piores só demonstra a quem nos governa que as condições ainda podiam ser piores, e portanto corte-se ainda mais um bocadinho.

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Bad Cover Version

Estive a ver Palo Alto (2013) que é um filme de adolescentes com problemas, etc. Vê-se bem, tirando um pormenor: os actores principais são o filho de Val Kilmer e a sobrinha da Julia Roberts. A cada cena parece que estou a ver o filme do Final Fantasy, com cada cara a oscilar entre dois estados, não entre computador e humano, mas entre duas gerações. Parece o vídeo dos Pulp. E depois é realizado por alguém chamado Gia Coppola (nem vou à wikipedia verificar).

Na ficção científica, há as Generation Ships, que viajam vagarosamente até às estrelas enquanto os astronautas vão envelhecendo, procriando e morrendo, geração após geração até chegarem. Às vezes parece que o cinema americano se tornou numa dessas naves.

Mas quem sou eu para falar, que vivo em Portugal, onde somos governados (a título de exemplo) por um Portas (conhecido pelos submarinos), da família do Sacadura Cabral (o que foi de avião para o Brasil), do Pedro Alvares Cabral (que foi de barco).

As teorias económicas do Thomas Piketty, onde a acumulação hereditária de capital desempenha um papel tão importante, precisam urgentemente que alguém lhes construa um equivalente estético.

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Movimento dos Resignados

Faço anos a 29 de Fevereiro portanto fui treinado desde novinho para a democracia tal como ela é exercida hoje em dia. Vota-se numa lista qualquer de uma lista reduzida. Lê-se o programa. Pesa-se as decisões. Na maioria das vezes, vota-se estrategicamente, que é como quem diz não para apoiar alguém mas para poder alguém. Muita gente votou em Portas para controlar Passos. Grandes génios da estratégia, digo eu. No fim de contas nem interessa muito. Mais tarde ou mais cedo, cada vez mais cedo, chega-se àquele ponto em que se fecham as escotilhas e se fica à espera da eleição seguinte.

Outro dia no Público, houve uma iniciativa engraçada que consistiu em pôr o Secretário de Estado dos Transportes a responder a perguntas de pessoas sobre a privatização da TAP. Por exemplo:

“Acha correcto levar a cabo um processo de privatização de uma empresa do Estado sem consultar os seus accionistas, os cidadãos portugueses, e sem procurar a colaboração dos milhares de trabalhadores?
Nuno Pedro Alves Chermont Bandeira, 29 anos, oficial piloto, Lisboa

A opinião dos accionistas foi tida em conta. A privatização TAP fazia parte do programa dos partidos que se propuseram a eleições e faz parte do programa do Governo. Não haja dúvida nenhuma de que os accionistas foram consultados e que se pronunciaram. Aliás, julgo que estamos a querer negar a democracia ao voltar a esse ponto. Não me parece haver dúvidas de que mais de 80% da representação parlamentar apoia a privatização. O Partido Socialista (PS) não lhe chama privatização, mas eu não sei que outro nome se há-de dar a um aumento de capital em que 49% não é do Estado. É uma privatização. Há um amplo consenso na sociedade quanto à importância de privatizar a companhia. […]”

É claro que houve manifestações gigantes contra esse tal programa, esse tal governo, a privatização em particular, mas que interessa, votou-se, agora tem que se gramar com a coisa até ao fim. Um milhões de gente a reclamar não chegam para abalar a confiança do executivo, daqui não saem, etc. Daí que se tenha passado de Indignados a Resignados. “Que se lixe a Troika” estava no bom caminho mas era demasiado específico. “Que se Lixe Esta Merda Toda” é o sentimento actual.

Não admira. Apesar de tudo, ainda há um contrato social, mas é uma daqueles contratos de fidelização, tipo tarifário de telemóvel. Assina-se mas é um pesadelo sair. Liberalismo, liberalismo, mas só de quatro em quatro anos.

 

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Cultura Privada

A BBC elegeu esta semana Ricardo Salgado como o pior CEO do ano. Já toda a gente parece concordar que foi um mau banqueiro. Talvez se retirem conclusões disso no plano económico e político. Quase de certeza não se vão retirar conclusões nenhumas no plano cultural.

Falo, por exemplo, dos prémios Bes, que foram eventos determinantes na arte contemporânea portuguesa nos últimos anos. Quando o banco desabou, ainda se foi perguntando o que seria deles. Iam ficar no Novo Banco? No Mau? O Bes Revelação deste ano foi para o Ricardo Salgado?

Mas a pergunta mais séria deveria ser outra. Tivemos uma boa parte da nossa cultura determinada por gestores magnamente incompetentes. E embora se tente compartimentar a coisa, dizendo que as decisões não foram tomadas por Salgado mas por gente idónea, que é possível falar de cultura boa do banco mau, na verdade estamos a falar de arte de regime.

Se ainda se levantam problemas de arte feita directamente para um dado regime político, mesmo que se medeie a relação através de comissários, etc., não se vê tantos ou mesmo nenhuns problemas quando se fala de bancos, fundos de investimento ou empresas ex-públicas privatizadas.

Mas é de uma cultura de regime que se fala e não tenho dúvida nenhuma que o carácter resignado, decorativo, inerte e autoreferencial da arte de topo em Portugal se deve também a isto. Por mais polissémico e aberto que seja o objecto não é possível produzir objectos que simultaneamente contestem esta ordem e ao mesmo tempo nela circulem.

Argumentar-se-á que a função da arte não é essa, etc. Mas é uma questão de critério e de definição. Historicamente, já se reclamaram e conseguiram outros papéis para a arte. É possível e vai-se fazendo.

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Culpar a vítima

Tenho muita pena de não ter ido ontem à manifestação de apoio à Sara Vasconcelos, ao que tudo indica agredida por um taxista porque beijou outra rapariga na boca. Há quem ache que não pode ter sido só por isso, que deve ter havido mais qualquer coisa, que a história está mal contada. A isso, só posso garantir que sim, há gente insultada e agredida regularmente por coisas destas.

E também posso garantir que das coisas que mais magoam quando se é agredido por um imbecil qualquer de repente ao acaso  sem qualquer razão ou provocação é ter que andar a ouvir gente a dizer que não pode ter sido só isso, que estávamos a pedi-las, etc. O que isso significa é que alguém decide dar-nos porrada e ainda temos que gramar com os que acham que deve haver sempre dois lados para a questão, que há sempre uma simetria qualquer entre agressor e agredido. No fundo estão a dizer que o imbecil não só nos agrediu como ainda nos fez descer e ficar ao seu nível aos olhos de todos. E isso é tão mau como ter sido agredido, garanto.

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O Cinema enquanto Mistério

Antes que passe muito tempo, que me esqueça, tenho que escrever sobre “Outros Amarão as Coisas que Eu Amei”, uma espécie de ensaio biográfico de Manuel Mozos sobre João Bénard da Costa. O que tenho para escrever é simples. Walter Benjamin, marxista, dizia que coisas como a colagem ou o cinema vinham destruir de vez o sagrado, o que ele chamava a “aura”. Isso seria bom porque libertava a arte e o espectador do domínio e da autoridade da tradição. Benjamin não diria isso se tivesse conhecido Bénard da Costa. O cinema para ele era uma religião, a sua exibição uma forma de liturgia, a cinemateca a sua basílica. Já se percebia isso indirectamente, através de um estilo que contaminava os espectadores mais assíduos da cinemateca, vendo o documentário de Mozos percebe-se no velho director a sua origem ou pelo menos expressão mais pura.

Não se trata apenas de ver na sessão de cinema um equivalente próximo do acto litúrgico mas de uma equivalência mais completa. Bénard da Costa via os filmes com os mesmos métodos críticos com que se via a pintura ou os textos religiosos, em termos de uma exegese,  da descoberta e celebração de um certo conjunto de temas morais. O filme é um Mistério que nunca chega a ser resolvido, apenas reencenado ritualmente, uma e outra vez. Percebe-se a mesma tendência em críticos como Pedro Mexia, embora talvez menos extática, já quase laica. Se Mexia já é um jesuíta, Bénard da Costa ainda é um místico de visões desvairadas.

Este misticismo visionário é perfeitamente demonstrável através dos catálogos da Cinemateca, autênticos Livros de Horas que acompanhavam o crente nos períodos em que não estava na missa. Não pretendiam substituir a experiência do sagrado, apenas evoca-la por outros meios.

Mesmo que não se partilhe da crença, o aparato fascina mas tem os seus problemas. Com o tempo a Cinemateca tornou-se numa espécie de lugar sagrado, desencorajando-se a circulação de filmes ao nível nacional, enquanto se assegurava a todo o custo a sua exibição diária apenas naquele lugar, enquanto no resto do país o cinema ia secando. Se o problema acabou por se resolver, foi apesar da Cinemateca.

 

 

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Conformalismo

Ando com uma sensação permanente de derrota. Sou um funcionário público, professor, designer de formação e crítico. O meu bairro é a cultura pública. A minha classe, amolgada e com a panela do cano de escape a arrastar pelo chão, ainda vai sendo a média. Chego a dois mil e quinze como quem sobreviveu à guerra das trincheiras e sinto-me derrotado. Sei que fui derrotado.

Há uns anos ainda se lutava, protestava, etc. Agora espera-se. Tem-se, não exactamente esperança, mas um cinismo esperançoso. Passos quase que está a sair. Costa vem aí. E, em vez de fazer o que quer que seja, espera-se. Não que se confie em Costa. Não porque entusiasme. Porque vai tirar de lá o idiota actual. Com a crise surgiu o Anti-Sebastianismo: já ninguém espera por um salvador mas apenas que o parvalhão actual se ponha a mexer. Se for preciso eleger outro parvalhão, é um mal menor.

Na arte contemporânea e no design, é a mesma coisa: já não se protesta, só se espera. Vão-se fazendo as coisinhas do costume, a pensar no mercado internacional, na exportação. É tudo muito genérico, caso contrário não vende. A medo mete-se alguma coisita política (mas nunca panfletária) porque o mercado internacional assim o espera, sobretudo de Portugal. Como pode um artista (ou designer) português ou palestiniano ou sírio não ser político? Venham cá e vejam, não é difícil. O estilo corrente é o Conformalismo.

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Já era tempo

Em relação ao Ano do Design, queria muito que a coisa desse certo mas, sem estar dentro do assunto, é-me difícil perceber o que se está a passar. Até a duração da coisa é peculiar: o logo diz 2014/2015 e o site anunciado com toda a gala está atrasado seis meses.¹ Seria talvez mais eficaz escolher um ano e não um período de doze meses que começa não sabe bem quando e acaba não se sabe quando.

Depois, diz-se na informação do site que se está a fazer “um levantamento e uma sistematização do design nacional, dos seus protagonistas e, a partir daí, proceder à partilha desses dados e à sua comunicação à escala nacional e global.” Um processo que “levará o seu tempo a estar terminado, e terá, dado o grande desenvolvimento da disciplina, de ser constantemente actualizado.” – faz parte da programação, mas mais uma vez não se percebem bem os limites. Quem vai administrar isto findo o evento?

Se calhar (e não falo apenas do caso do design) era melhor pensar mais em estruturas e instituições sólidas em vez de eventos periódicos e precários (bienais, trienais, encontros, festivais) que acabam por ter que funcionar sempre a meio caminho entre o efémero e o permanente, sem qualquer vantagem – bienais que têm uma programação permanente, apesar de nunca haver dinheiro, por exemplo.

No tal site, apresenta-se um conjunto de 40 nomes² (uma gota de água, assumidamente uma amostra). Mas a seguir verifica-se que a ideia é os restantes designers auto-inscreverem-se. É isto um levantamento? Quem escolheu? Como? Se a ideia era dar acesso, mais valia ter apresentado o site completamente vazio.

Mas confesso que o formato do directório me irrita um bocado. Desde que o design português apareceu há uma obsessão permanente por directórios e anuários, ninguém sabe quem é quem, é urgente comunicar, etc. E fazem-se, mas não fazem diferença nenhuma. É um formato tentador porque é fácil de pensar e ainda mais fácil de fazer (o conteúdo gera-se a si mesmo); já era altura de o esquecer. Há maneiras bastante mais interessantes embora trabalhosas de mapear o design nacional, há quem as esteja  a fazer realmente. Os exemplos não faltam e até aparecem nos nomes inventariados.

 

1- De acordo com o jornal Público: “Ainda assim, o site que colige também a programação do ADP nasce seis meses depois do previsto […]” Entretanto foi-me dito pelo José Bártolo que o cronograma foi comprido.

2 – Mais uma vez o número é o avançado pelo Público. Nesta primeira versão, de acordo com o José Bártolo (via facebook): “havia menos de metade; ao fim da manhã do primeiro dia o número de pedidos para inserção era de várias dezenas, tendo sido inseridos (por ordem de recepção) mais 20. Não tenho dúvidas que amanhã teremos mais de 50 e estou convencido que até ao final de dezembro (entre estúdios, instituições, publicações, exposições etc.) teremos ultrapassado as 200 entradas.”

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Duas Coisas

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Na semana que vem, vou fazer uma coisa e não vou poder fazer outra. A primeira será apresentar a minha tese de doutoramento na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa nesta 3ª Feira (16), no âmbito do Intervalo para o Conhecimento. Já me parece um objecto distante no afecto e no tempo. Na altura, entusiasmou-me embora me tenha sido muito penoso fazê-la (por tradição, é-se muito maltratado pelo sistema). Entretanto, já a prolonguei através das conferências que fiz na Culturgest, entre outras coisas.

A segunda (na qual não vou poder estar presente) será a apresentação da monografia sobre o designer José Brandão, para a qual escrevi um ensaio, no dia seguinte (17) na Gulbenkian, que edita o livro. No lançamento estarão, para além do próprio José Brandão, o Aurelindo Ceia que coordenou o projecto, o José Bártolo e o Frederico Duarte que nele colaboraram.

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Artistas à Peça

Olhando para a crítica que se escreve nos jornais, percebe-se que praticamente só existem duas identidades para o artista contemporâneo que neles queira aparecer: o artista individual ou (quando muito) a dupla ou o casal. É raríssima a exposição colectiva, que mesmo quando surge, é um sortido de nomes individuais, de duplas ou casais. Mais raro ainda é o colectivo. É comum, pelo contrário, isolarem-se retrospectivamente artistas que fizeram boa parte da sua obra colectivamente.

Hoje no Ípsilon, Nuno Crespo atribui o problema à crise e à falta de vontade de arriscar. Não encontro link, portanto faço aqui uma citação alargada do excerto pertinente:

“E uma das expressões desta ausência de risco está na inexistência de exposições colectivas, de investigação, em que a atenção monográfica sobre os autores dá lugar à construção de um pensamento com e a partir de obras de arte singulares.

Há as excepções conhecidas em que outras geografias da arte e do mundo são trazidas a debate, mas na sua generalidade assiste-se a uma deslocação da atenção nas obras para a atenção no artista e a uma insistência na exposição antológica, na afirmação da autoridade de um autor, na confirmação de um percurso.

Não se trata de minorar autores individuais e o papel fundamental que alguns deles têm ao conseguirem, através das suas obras, iluminar todo um tempo e uma geração em conjunto com as suas aflições e transformações, mas trata-se de constatar o domínio de uma tipologia expositiva e daí retirar consequências. Esta é uma situação para a qual todos contribuem — os jornais e a sua ideia de informação, a crítica, as direcções dos museus e centros de arte e o predomínio das análises estatísticas, a sua obsessão pelo público como principal critério de gestão cultural e programação, etc. — e em que predomina o pre-conceito do sucesso: os espaços expositivos são hoje lugares dos casos de sucesso de onde estão ausentes a experimentação, a investigação, os projectos exploratórios e o risco a eles associados.”

Concordo na generalidade, mas acredito que há ainda outra razão.

Não se expõe identidades ou modos de organização colectivos porque neste momento o modo dominante de identidade dentro do mundo da arte é o comissariado. O comissariado é essencialmente uma estética de gestão e tende a lidar mal com modos alternativos de organização.  Porque é mais fácil organizar artistas e obras à peça isolando-os do seu contexto produtivo original. E porque é uma estética que se vê a si mesma como neutra e essencialmente administrativa, não tendo ainda muita consciência autocrítica.

Tal como já tinha acontecido com o design, o termo ultrapassou o seu uso original e tornou-se numa espécie de equivalente vago e quase mágico de comunicação. Tudo pode ser comissariado –  sobretudo a crítica que estranhamente quase desaparece no processo. Em vez disso, temos folhas de sala e textos de catálogo. Se isso é a nova crítica, percebe-se que ela perdeu quase por completo a sua autonomia sendo tragada para dentro da estrutura expositiva.

 

 

 

 

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Coisas do ano

Livro do ano: The Flamethrowers, da Rachel Kushner. Desde que me interesso mais por arte contemporânea que andava atrás de boa ficção sobre o assunto. Kushner já escreveu para a Art Forum e nota-se. Apanha como ninguém a sociabilidade tensa do mundo da arte. Apanha também as suas fronteiras. É uma check list das minhas obsessões: os Up Against the Wall Motherfucker, os Futuristas, as fronteiras entre a política e a arte, em particular entre o modernismo e os totalitarismos. Através dela cheguei aos Arditi, e deles voltei ao seu membro mais famoso, o poeta, proto-fascista e ultra-nacionalista D’Annunzio, que conquistou pelas armas a cidade de Fiume, perdida pela Itália nas negociações de paz, mantendo-a como um estado independente durante um ano. Acabaria em guerra com a própria Itália. A ligação a Portugal faz-se através de António Ferro que lhe dedicaria um livro embevecido.

Compra em segunda mão do ano: Aspen 5 + 6, de 1967, o número duplo minimalista da famosa revista/caixa, com discos, filmes de super 8 e várias intervenções de artistas. Contém a primeira edição da Morte do Autor de Roland Barthes. Habitualmente (e erradamente) o ensaio é datado do ano seguinte e associado ao Maio de 68, mas apareceu aqui pela primeira vez.

Banda desenhada do ano: Fatale, de Sean Phillips e Ed Brubaker, a meio caminho entre Lovecraft e Raymond Chandler com uma pitadinha de Nirvana.

Filme do ano: Cutter’s Way. É de 1981 mas é cinema loser no seu melhor. Tem um Jeff Bridges muito novinho.

Séries de televisão do ano: Brooklyn Nine Nine, a melhor comédia desde o Community. Person of Interest e Marvel Agents of S.H.I.E.L.D. – especialmente a primeira. O que gosto nelas? Quem as veja por cinco minutos vê personagens caricaturais, de traço grosso, clichés autênticos. O diálogo também é completamente folhetinesco. Mas de repente percebemos que um episódio de comédia quase burlesca, daqueles que costumam ser usados para ocupar o meio da temporada, é na verdade um drama e ficamos dias a cismar com aquilo – sem perder o tom. São séries ligeiras no pormenor mas diabólicas no plano de conjunto. Habitualmente é o oposto, com narrativas pesadas e super-psicológicas que no final nem um rato conseguem parir (True Detective, cof, cof).

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O Futuro

Escrevi há dois anos que “o futuro das artes estava no Porto”. Queria dizer com isso que o modo precário e desigual com que a cultura foi praticada e encorajada durante a austeridade municipal de Rui Rio passaria a ser o modo por defeito com que a cultura seria praticada em Portugal. Tinha razão.

Agora, com um ano de Rui Moreira, resta-me dizer o mesmo com uma pequenas actualização. Na verdade, uma especulação quanto ao futura assente no que se tem passado aqui no Porto. Não sei se na cultura se esperou alguma coisa deste novo Presidente da Câmara. Uma década de maus tratos deixam as pessoas desconfiadas. Entretanto, claro, anda tudo mais dinâmico  mais activo, mas fico na dúvida se melhoramos ou simplesmente já não andamos a piorar tanto.

Um ano depois, ainda se está meio desconfiado mas não se tem grande vontade de reflectir sobre o passado. Prefere-se esquecer. No campo da arte contemporânea, é evidente. A pouca política que se vai vendo, deriva mais do que se tem feito internacionalmente do que da vontade de intervir ou reivindicar o que quer que seja por aqui. É o “político mas não panfletário” que se concentra em assuntos da moda como o pós-colonial, sobretudo visto já não de um modo directo mas de experiências de família, nem sequer encenado nos próprios locais subalternos mas dentro da circulação de topo das bienais e dos grandes museus, com grandes meios, muito dinheiro, etc.

Por aqui, até isso é visto como risqué, e prefere-se dizer que assegurar uma esfera autónoma da arte a sobreviver no meio da crise é uma vitória. E até é, mas uma coisa é chatear porque se existe, porque se sobrevive, outra coisa é dar realmente luta. A cultura deveria representar algo para além dela mesma, por vezes nem sequer coisas que já existem, mas saídas, soluções. Pouco ou nada o demonstra.

Calculo que, se Passos sair, talvez com Costa seja a mesma coisa. Não piorar vai parecer quase quase bom.

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Xô-Basta-ianismo

Um traço português que desapareceu de vez com a crise foi o Sebastianismo. Já ninguém no seu perfeito juízo espera que um D. Sebastião saia da noite de nevoeiro para nos salvar, mas apenas que o parvalhão actual (seja ele quem for) se vá embora em quatro anos ou menos.

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Não há simetria

Tive mais uma vez a experiência perplexa de não gostar de um objecto de arte, ler a sua crítica negativa num jornal e não concordar, ler no facebook reacções negativas a essa crítica e não concordar ainda mais.

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Walk in silence

“Don’t walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,

Endless talking,
Life rebuilding,
Don’t walk away.”

É comum ouvir artistas e designers a sublinharem a importância e a falta de feedback. O que fazem pretende ser público, não apenas por ter gente presente, a assistir, mas que fale, escreva e pense sobre aquilo.

Na arte em particular, há muito discurso interno entre os protagonistas, quem convida, quem comissaria, quem produz, quem ajuda, quem apresenta ao vivo, na folha de sala, no catálogo. Mas só raramente vem de fora.

Há dois jornais impressos que apresentam semanalmente uma ou duas colunas dee crítica. Na melhor das hipóteses, 208 recensões. Este ano alguém me dizia que este ano, só dentro das Belas Artes do Porto, tinham havido pelo menos 240 eventos. Fica quase tudo de fora.

E o comissariado não é, evidentemente, a nova crítica. Nem de perto, nem de longe. A velha crítica nos seus melhores momentos representava não a voz da academia ou dos artistas mas a do público.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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