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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que é o Provincianismo?

Há definições mais divertidas que a minha, mas para mim o provincianismo é a incapacidade de abstrair algo de universal de uma dada situação. Olha-se para uma salganhada qualquer (um caso político, uma decisão económica ou estética) e tanto não se consegue ver nisso uma tendência geral como se cai no oposto, fulanizando sistematicamente a situação. É fácil encontrar exemplos: bem se pode dizer que as causas da crise são internacionais que alguém nos responde logo, “O Sócrates!” Nesta visão do mundo tudo se acaba por reduzir a relações pessoais. E fica a ideia que saber a relação de fulano A com fulano B explica tudo quando na prática é o conhecimento mais básico e óbvio. O difícil é abstrair qualquer coisa disso.

A crise acaba por ser o melhor exemplo. Apresenta-se a ideia de um país como uma casa ou uma família e argumenta-se que só poderá ultrapassar a crise fazendo o que uma família faria. Ora um país não é uma família. É uma falácia de escala. O que se comporta de certa maneira numa escala pequena tem resultados completamente distintos numa escala maior, onde interessam as interações de todas as famílias e não apenas de uma. Se todas poupam, compram menos a outras famílias, que por isso têm menos fontes de rendimento, acabando por comprar menos à primeira família. E quem diz “comprar” diz “empregar”.

Mas o provincianismo é geral. Na arte contemporânea pode-se ler o que se quiser sobre feminismo, estudos culturais, crítica institucional mas, na Hora H, acabam por só interessar as relações pessoais, que são usadas para explicar tudo. Daí que a nossa teoria crítica acabe por ser obsessivamente centrada na ideia do artista como um agente individual e idealmente autónomo. Só se consegue conciliar esta premissa base com análises marxistas, por exemplo, usando a teoria como uma espécie de decoração. Invoca-se o marxismo quando se sabe que o artista é político; o feminismo quando é uma mulher; os estudos pós-coloniais quando é africano. O resultado é a adaptação do método crítico ao sujeito a quem é aplicado, o que é um preconceito estúpido para além de uma parvoíce metodológica: em todas estas teorias, a identidade é uma coisa construída ou criticada deliberadamente.

No fundo, o objectivo seria fulanizar o menos possível mas nós gostamos sempre mais do toque pessoal de até conseguir fulanizar a desfulanização.

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Filed under: Crítica

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