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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Artistas à Peça

Olhando para a crítica que se escreve nos jornais, percebe-se que praticamente só existem duas identidades para o artista contemporâneo que neles queira aparecer: o artista individual ou (quando muito) a dupla ou o casal. É raríssima a exposição colectiva, que mesmo quando surge, é um sortido de nomes individuais, de duplas ou casais. Mais raro ainda é o colectivo. É comum, pelo contrário, isolarem-se retrospectivamente artistas que fizeram boa parte da sua obra colectivamente.

Hoje no Ípsilon, Nuno Crespo atribui o problema à crise e à falta de vontade de arriscar. Não encontro link, portanto faço aqui uma citação alargada do excerto pertinente:

“E uma das expressões desta ausência de risco está na inexistência de exposições colectivas, de investigação, em que a atenção monográfica sobre os autores dá lugar à construção de um pensamento com e a partir de obras de arte singulares.

Há as excepções conhecidas em que outras geografias da arte e do mundo são trazidas a debate, mas na sua generalidade assiste-se a uma deslocação da atenção nas obras para a atenção no artista e a uma insistência na exposição antológica, na afirmação da autoridade de um autor, na confirmação de um percurso.

Não se trata de minorar autores individuais e o papel fundamental que alguns deles têm ao conseguirem, através das suas obras, iluminar todo um tempo e uma geração em conjunto com as suas aflições e transformações, mas trata-se de constatar o domínio de uma tipologia expositiva e daí retirar consequências. Esta é uma situação para a qual todos contribuem — os jornais e a sua ideia de informação, a crítica, as direcções dos museus e centros de arte e o predomínio das análises estatísticas, a sua obsessão pelo público como principal critério de gestão cultural e programação, etc. — e em que predomina o pre-conceito do sucesso: os espaços expositivos são hoje lugares dos casos de sucesso de onde estão ausentes a experimentação, a investigação, os projectos exploratórios e o risco a eles associados.”

Concordo na generalidade, mas acredito que há ainda outra razão.

Não se expõe identidades ou modos de organização colectivos porque neste momento o modo dominante de identidade dentro do mundo da arte é o comissariado. O comissariado é essencialmente uma estética de gestão e tende a lidar mal com modos alternativos de organização.  Porque é mais fácil organizar artistas e obras à peça isolando-os do seu contexto produtivo original. E porque é uma estética que se vê a si mesma como neutra e essencialmente administrativa, não tendo ainda muita consciência autocrítica.

Tal como já tinha acontecido com o design, o termo ultrapassou o seu uso original e tornou-se numa espécie de equivalente vago e quase mágico de comunicação. Tudo pode ser comissariado –  sobretudo a crítica que estranhamente quase desaparece no processo. Em vez disso, temos folhas de sala e textos de catálogo. Se isso é a nova crítica, percebe-se que ela perdeu quase por completo a sua autonomia sendo tragada para dentro da estrutura expositiva.

 

 

 

 

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Filed under: Crítica

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