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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Cinema enquanto Mistério

Antes que passe muito tempo, que me esqueça, tenho que escrever sobre “Outros Amarão as Coisas que Eu Amei”, uma espécie de ensaio biográfico de Manuel Mozos sobre João Bénard da Costa. O que tenho para escrever é simples. Walter Benjamin, marxista, dizia que coisas como a colagem ou o cinema vinham destruir de vez o sagrado, o que ele chamava a “aura”. Isso seria bom porque libertava a arte e o espectador do domínio e da autoridade da tradição. Benjamin não diria isso se tivesse conhecido Bénard da Costa. O cinema para ele era uma religião, a sua exibição uma forma de liturgia, a cinemateca a sua basílica. Já se percebia isso indirectamente, através de um estilo que contaminava os espectadores mais assíduos da cinemateca, vendo o documentário de Mozos percebe-se no velho director a sua origem ou pelo menos expressão mais pura.

Não se trata apenas de ver na sessão de cinema um equivalente próximo do acto litúrgico mas de uma equivalência mais completa. Bénard da Costa via os filmes com os mesmos métodos críticos com que se via a pintura ou os textos religiosos, em termos de uma exegese,  da descoberta e celebração de um certo conjunto de temas morais. O filme é um Mistério que nunca chega a ser resolvido, apenas reencenado ritualmente, uma e outra vez. Percebe-se a mesma tendência em críticos como Pedro Mexia, embora talvez menos extática, já quase laica. Se Mexia já é um jesuíta, Bénard da Costa ainda é um místico de visões desvairadas.

Este misticismo visionário é perfeitamente demonstrável através dos catálogos da Cinemateca, autênticos Livros de Horas que acompanhavam o crente nos períodos em que não estava na missa. Não pretendiam substituir a experiência do sagrado, apenas evoca-la por outros meios.

Mesmo que não se partilhe da crença, o aparato fascina mas tem os seus problemas. Com o tempo a Cinemateca tornou-se numa espécie de lugar sagrado, desencorajando-se a circulação de filmes ao nível nacional, enquanto se assegurava a todo o custo a sua exibição diária apenas naquele lugar, enquanto no resto do país o cinema ia secando. Se o problema acabou por se resolver, foi apesar da Cinemateca.

 

 

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Filed under: Crítica

One Response

  1. marco diz:

    Foi precisamente isso que aconteceu quando discuti o caso com outras pessoas. O que não entendo é o que é que poderia justificar uma agressão a mulher indefesa. Por mais bera que ela fosse. Muito menos o tipo de agressão que foi, a arrastá-la pelo chão… Enfim…

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