The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Diatribe

Um dos meus primeiros patrões, provavelmente o melhor, gostava de tomar chá a meio das noitadas que fazíamos a trabalhar aos fins de semana. Era comum trazerem-nos trabalho na sexta, quase sempre já fora do prazo. Era para ontem, outra firma tinha deixado por fazer, o fornecedor não tinha cumprido, etc. E ele dizia-me, enquanto bebia o chá com ar mal disposto: “Estamos aqui descansados, a pensar que estamos quase a acabar e estamos atrasados. Ainda não sei para quê, mas estamos.”

E é essa a sensação constante desde que comecei a trabalhar no ensino superior. Ler teses com menos de uma semana de aviso. Mandar inquéritos e pedidos de programas de um dia para o outro, porque o sistema estava em baixo ou nem se sabia da obrigação. Diria que é o melhor remédio para a prisão de ventre, mas ao fim de uns anos desenvolve-se uma resistência.

Às vezes tenho vislumbres de outros universos, com regras tão diferentes que o próprio tempo parece alienígena. Um comissário, por exemplo, descreve-me em pormenor uma exposição que planeia para daí a dois anos. E lamenta não ter mais tempo.

Por aqui, é encher chouriços. Seria uma linha de montagem se não fosse mais um comboio cheio de berlindes a descarrilar para cima da Volta à França. Toda a gente é incentivada a comportar-se como um floquinho de neve único e empreendedor, apesar das turmas serem gigantes, dos prazos serem microscópicos e dos recursos não existirem.

Ainda há quem ache que um mestrado ou um doutoramento é a oportunidade para investigar com vagar, etc. Neste momento, é como montar um ovo Kinder. E não pode ser de outro modo, a menos que se mude todo o sistema.

Já faz parte d quotidiano de um professor ouvir que os alunos não têm culpa, coitados, e por aí fora. Pela minha parte, a paciência acabou. Ninguém tem culpa, etc. e eu não tenho pachorra. Não tenho qualquer vontade ou vocação para servir de  almofada protectora entre o sistema absurdo que é Bolonha, a função pública em geral e os alunos.

É o pão nosso de cada dia andar a cumprir ordens dadaístas, mitigando-as de forma a que não matem gente. Tudo com cada vez menos recursos e onde cada professor, para além de dar quase um ano de curso em créditos, ainda tem que ser a secretaria de si próprio – mesmo que consiga fugir a cargos de direcção.

E depois, do lado dos alunos, há a ideia que todo este absurdo é apenas disfuncional, uma espécie de simulacro que ocupa o lugar do sistema a sério, impedindo que ele chegue. Não, não há sistema a sério. É mesmo só isto. E por incrível que pareça até prepara as pessoas para o mundo real. Passam metade do curso na secretaria, a cuidar de papelada e pagamentos? É isso que vos espera lá fora, amiguinhos.

Neste momento, já não faço sacrifícios pelo sistema, já não trabalho nas férias ou ao fim de semana. Um sacrifício é uma coisa pontual, não pode nunca ser o combustível da maquineta. Andar a trabalhar em condições cada vez piores só demonstra a quem nos governa que as condições ainda podiam ser piores, e portanto corte-se ainda mais um bocadinho.

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