The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Espectador

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Ontem chegou-me pelo correio o nono número da Internationale Situationniste, editada entre 1958 e 1969. No ebay, já vinha assinalada como entregue desde dia 17 e, apesar de contar com os atrasos do costume nesta quadra natalícia, já começava a ficar preocupado. Quando chegou, foi de surpresa.

O pacote era muitíssimo mais pequeno do que imaginava. Já conhecia a revista através de fotos e da reprodução facsimilada num só volume da Champ Libre, mas não sei porquê esperava uma coisa mais imponente, com a escala da The Situationnist Times ou da Black Mask. Afinal era quase exactamente do tamanho do livro da Champ Livre, um pouco menor que um comic book. A única coisa notável era o metalizado da capa. Lembrei-me duma entrevista lida não sei onde – é provável que tenha sido no England’s Dreaming de Jon Savage¹ – onde algumas figuras do punk diziam que sim, que aquilo chamava a atenção, pela capa e pelas fotos com legendas provocantes do interior (mas a teoria era ilegível).

Desde há algum tempo que colecciono publicações subversivas. Tento perceber o seu impacto físico sobre quem as consumia, o modo como o formato, o papel ou a paginação afectavam o seu conteúdo, que muitas vezes acabava por continuar a circular completamente descolado do seu aspecto original e perdendo quase tudo por isso. É habitual falar-se do carisma do líder de um ou outro movimento, ou da actualidade das suas ideias, mas é comum esquecer-se o magnetismo dos seus veículos de comunicação. Sem tomar em conta o seu lado material, estético e mesmo erótico, algumas filosofias perpetuam-se enquanto mero misticismo – o situacionismo, o punk e outras coisas do género já caíram há muito nessa armadilha. Começa-se a responder a críticas com um “precisavas de estar lá” e daí para a frente é só nostalgia.

Se algum dia me decidir a expôr estas publicações, gostaria de o fazer num museu (por pequeno que fosse). Quanto mais institucional melhor. Nunca vi problema nenhum em expor arte ou artefactos políticos num museu. Vejo-os como documentos. O escrúpulo habitual contra “museificar” o político é uma treta. O acesso que se tem a eles será sempre distinto de participar neles, seja num museu, num colectivo anarquista ou numa manifestação. Nem se deve sequer confundir as coisas.

Se um objecto político mantém a sua actualidade é porque foi sendo actualizado. Ou seja, foi sendo reinterpretado de modo a manter-se pertinente. Há sempre uma distorção, seja praticada por um comissário, por um coleccionador ou mesmo por seguidores (que se não estiverem atentos a este processo acabam por transformar ferramentas e estratégias em objectos de culto e rituais nostálgicos).

Os problemas só começam quando se tenta fazer de expor estes objectos uma “experiência”, reencenando o seu contexto de origem, construindo à sua volta parquezitos temáticos que só servem para manipular e entreter o espectador. São os mesmos equívocos da estética relacional, que assume o público como uma amálgama embrutecida, ignorante e distraída que é preciso “ensinar” – e, já agora, os mesmos do próprio situacionismo e da sua crítica do espectáculo.

Contra isso, achei particularmente útil a leitura da introdução do “Espectador Emancipado” de Jacques Rancière, onde se defende que a condição de espectador nunca é passiva – a não ser que se force uma oposição entre criador/produtor e espectador/consumidor, entre a actividade do primeiro e a passividade do segundo.

Numa sociedade onde só se aceitam os produtores e os empreendedores em detrimento de quem consome, é urgente deixar algum espaço a este últimos, os espectadores, os passivos, os críticos ou simplesmente os que se passeiam. O que fazem é com eles e só com eles.

1. E não é que foi. Malcolm Mclaren no dito livro: “I’d heard about the Situationists from the radical milieu of the time. You had to go to Compendium Books. When you asked for literature, you had to pass the eyeball test. Then you got these beautiful magazines with reflecting covers in various colours: gold, green, mauve. The text was in French: you tried to read it, but it was so difficult. Just when you were getting bored, there were always these wonderful pictures and they broke the whole thing up. They were what I bought them for: not the theory.” Ou então Jamie Reid, no seu livro Up they Rise: “I was never involved with the Situationists to the fullest extent because I couldn’t understand half of what they written. I found Situationist texts to be full of jargon – almost victims of what they were trying to attack – and you had to be really well-educated to be able to understand them. […] I wasn’t so much attracted tothe Situationist theory as to how they approached media and politics. The slogans, for instance, were so much better than the texts.”

 

 

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Filed under: Crítica

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