The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Quiz

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Por tédio, preenchi um quiz no The Guardian em que pediam para associarmos a acção “artística” de protesto russa ao que era reinvidicado. Conhecia quase todas as imagens e reconheci o nome da maioria dos grupos. Só acertei em cinquenta por cento. A performance tinha ficado na memória; as causas quase nada. No fim, já estava a responder à sorte.

Se calhar a culpa é minha. Devia ter usado cada uma dessas ocasiões em que um artista pregou os testículos ao chão de uma estrada, em que um grupo pintou uma pila gigante numa ponte levadiça, em que uma banda de raparigas com passa-montanhas de lã colorida invadiu uma missa, para saber um pouco mais sobre o que defendiam. Mas a ousadia, o espectáculo, a agressão acabam por ofuscar tudo o resto, como um foco apontado à cara durante a noite.

A beleza, o espanto, o medo, a coragem, são coisas fáceis, dão boas histórias, independentemente de quem as conta. Dá mais trabalho ir além da publicidade e perceber o produto, mas não é para isso que somos treinados. Na experiência estética, tal como é institucionalizada não apenas por museus e escolas mas também por chavões e hábitos, é natural atirar-se fora o bébé, ficar-se com a água do banho e gastar tempo e energia a discutir se expô-la é museificá-la ou a menosprezá-la porque não funciona lá muito bem enquanto bébé.

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Mau gosto

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Não sei quem o fez. Não sei quem o encomendou. Tenho a certeza que deu muito trabalho. Que foi difícil. Acredito que sim, porque é sempre difícil. Mas não chega dizer-se que deu muito trabalho, que foram precisos compromissos, que se não fosse por isso seria melhor. Não são grandes argumentos. Na maioria dos casos falhar dá tanto trabalho como conseguir. Destruir a floresta Amazónica, por exemplo, exige muito trabalho e capacidade de compromisso. Defendê-la pode parecer quase preguiçoso por comparação.

Também não chega defender-se uma coisa destas dizendo que se trata de uma questão de gosto. Uns gostam outros não, portanto acaba por não fazer diferença se é este ou outro qualquer – se não faz diferença, é porque é mau ou, pior ainda, indiferente. Um bom logo presta-se ao uso, à apropriação e à subversão. Presta-se a ser discutido. Quase todos os logos se prestam a ser atacados. Entre estes só os bons se prestam a ser defendidos. Por estranhos, por rivais, por gente que não tem nada a ver. Fica-se triste quando mudam. Duvido que alguém o faça em relação a este, sem recorrer a falácios de apelo aos sentimentos: deu muito trabalho, é só um logotipo, etc.

Ao contrário do que se diz, o gosto discute-se e muito. Foi feito para isso. Não há tal coisa como um gosto completamente privado – ou se declara o gosto por actos ou palavras, ou não faz diferença nenhuma; é como se não existisse. O gosto é sempre um debate, com facções, guerras, querelas, tradições, subversões e compromissos. Cada logotipo que se concebe, posiciona-se quer queira quer não dentro dentro desta arena, onde é avaliado por uma série de questões. Por exemplo: como se posiciona em relação a outros logos de eventos semelhantes; como se posiciona em relação ao que está a ser feito actualmente dentro deste formato; como funciona em termos técnicos; etc.

Este é um logotipo formalmente desequilibrado, com uma grande misturada de pesos, tamanhos e cores de letras, com uma ilustração que parece ter sido construída à pressa a partir de dingbats encaixados num cálice parcialmente desenhado. A própria composição parece limitar-se a ir encaixando o que é preciso onde houver espaço. O alinhamento do texto às vezes é ao centro, outras quando couber. O espaçamento entre letras é completamente incoerente. O alinhamento do pé com a haste do A e o esporão do L não funciona e só sublinha o ar desconjuntado do todo. A paleta de cores anda à volta do cor-de-burro quando foge ferido de morte. Alinhar este logo com o que quer que seja é um pesadelo. Reduzi-lo será uma aflição. Na faixa de apoios de um cartaz irá fazer o papel de um Grande Superfície instalada num centro histórico.

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Design no Porto, Concursos, Trapalhadas, Crispação, etc.

O Porto parece mais vivo, não há dúvida, até no design gráfico. Mudou de identidade e, por arrasto, umas outras tantas instituições mudaram também de identidade. Desde há uns meses, quase todos os meus amigos designers debatem quem será o novo designer do Teatro Nacional São João. É um sítio com tradições, Foi lá que trabalhou João Nunes, mais tarde o João Faria, que saiu há uns anos mas teve uma presença de tal modo forte que os cartazes ainda se parecem um pouco (não o suficiente) com os dele.

No fim do ano passado, abriu-se discretamente um concurso a 20 de Novembro, através de uma notícia no site da instituição. Sei que concorreram mais de duas centenas de designers até 27 de Novembro. O prazo era curto mas essencialmente pedia-se currículo e portfolio. A 10 de Dezembro anunciava-se que se tinham seleccionado 5 finalistas – que não eram identificados, tal como não se identificava quem iria fazer a selecção (era um júri externo? eram pessoas do próprio teatro?) e mesmo qual o valor da avença que estava a ser oferecida.

Nada disso é claro. Daí que os designers especulem. O São João é uma instituição pública e como tal espera-se um pouco mais de transparência, especialmente numa altura destas, quando muitos dos estúdios de design do Porto têm fechado por falta de grandes clientes públicos – embora o design se veja a si mesmo como actividade empresarial, privada, etc. por trás de cada estúdio de design com alguma fama há sempre uma avença com uma instituição pública qualquer (daí que se possa descrevê-lo como uma espécie de função pública externa).

A nova vitalidade do Porto, que muito deve à nova presidência da Câmara com a sua ênfase na cultura, parecia anunciar mais trabalho para os designers neste modelo clássico de colaboração. Contudo, depois de anos de negligência a crispação e a fome são grandes. O concurso para a marca da cidade, por exemplo, foi marcado pela polémica quando um dos estúdios que perderam divulgou a sua proposta pouco antes da oficial ter sido apresentada. A seleção de designers para o teatro Rivoli também foi interrompida de repente, cancelando-se reuniões com os designers que se candidatavam, para algum tempo depois se anunciar que o estúdio seleccionado era o mesmo da identidade da cidade.

Ou seja, e em cada um dos três casos, há uma sensação de trapalhice processual, de falta de diplomacia, mesmo alguma displicência das instituições para com os designers (S. João, Rivoli) ou dos designers para com as instituições (identidade do Porto).

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Hábitos

Já não me consigo afligir mais com o Governo (e a Europa e o resto), porque é irremediável. Leio os artigos, concordo, discordo, argumento. Tirando isso, só espero o momento da sua saída, fazendo figas para que estraguem o mínimo possível pelo caminho.

O remédio, acredito, está nas pequenas coisas, que parecem estar no avesso do Governo mas não estão. Dou um exemplo: no ensino superior é comum ver gente a queixar-se dos efeitos dos cortes orçamentais, de como isso é terrível, enquanto dizem que é preciso mais empreendedorismo, investigação aplicada, com resultados práticos. Ora as duas coisas acabam por estar ligadas. Corta-se no orçamento usando como justificação o incentivo à captação de recursos próprios através de investigação orientada para o mercado. Usa-se o trabalho gratuito de alunos e professores para os alcançar, etc.

Ou seja, acredito que, a mudar alguma coisa, será antes de tudo o resto, nas coisinhas. O discurso neoliberal instalou-se durante décadas nos hábitos e serão precisas décadas para o erradicar, e está tudo por fazer.

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Figura Humana

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Espreitei uma das aulas de figura humana, e vi que ainda se desenha modelo nu a carvão ou a tinta. Calculo que, mais uns anos de Bolonha e de ensino orientado para as empresas, para inovação e para o resto, os alunos se dediquem a retocar a gordura e as imperfeições da pele dos modelos.

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As Ideias Também Mexem

Às vezes uma pessoa esquece-se que mesmo as ideias mais básicas e aparentemente óbvias se mexem. Por exemplo, deve haver pouca gente que discorde que a propriedade privada se estabelece por oposição à pública. As duas excluem-se mutuamente. Mas nem sempre foi assim: na Idade Média a propriedade implicava por parte do seu senhor um conjunto de deveres públicos (prestação de serviços, justiça, etc.) Hoje pelo contrário assume-se que a posse de algo o subtrai ao escrutínio público e mesmo ao civismo básico – “isto é meu e faço o que quero com ele.”

Por isto se percebe que a ideia de liberdade se tornou também numa espécie de privatização do eu – somos livres na medida  em que nos conseguimos autonomizar como individuos. Por oposição seria possível propor a recuperação de uma liberdade com raízes colectivas. Uma liberdade como a que propõe Murray Bookchin onde: “a personalidade do individuo não se opõe ou se isola do colectivo mas é significantemente formada – e, numa sociedade racional, concretizada – pela sua própria existência social.”¹

Bookchin opõe a esta liberdade o conceito de autonomia, na definição de Paul Goodman, a “habilidade de iniciar uma tarefa e de a fazer à sua maneira”, argumentando que quando grande parte da esquerda radical e em particular o que ele chama “lifestyle anarchists” clamam:

“por autonomia e não liberdade, estão a lançar fora as fecundas conotações sociais do conceito de liberdade. Na verdade, o apelo constante por autonomia mais do que liberdade social não pode ser desvalorizado como um acidente, particularmente nas estirpes Anglo-Americanas de pensamento libertário. onde a noção de autonomia mais se aproxima da liberdade pessoal. As suas raízes encontram-se na tradição imperial da romana da libertas, onde o ego tem a “liberdade” para ter a sua propriedade pessoal – e para gratificar a sua luxúria pessoal. Hoje, o individuo dotado de ‘direitos soberanos’ é visto por muitos lifestyle anarchists como antitético não só em relação ao Estado mas à própria sociedade.”²

Esta última oposição, entre liberdade pessoal e sociedade aproxima-se evidentemente das crenças neoliberais e em particular da conhecida bojarda de Margaret Thatcher, que “Não existe sociedade” – apenas indivíduos. Para Bookchin (e eu concordo), uma acção política baseada no romântismo de uma busca individual, da expressão de um eu, que não se sujeita a qualquer autoridade alheia, por pequena que seja, não é minimamente eficaz porque acaba por assumir como premissa os valores de base prezados pelos neoliberais.

Por outras palavras, só se vai lá com organização, com discussão, com trabalho seca. Grandes acções à moda dos Situacionistas, King Mob, Up Against The Wall Motherfucker, do Punk, são bonitas, provocam, ficam na memória, mas pouco deixam para além de catarse.

(Note-se que esta crítica da autonomia individual pode ser transposta directamente para a autonomia do artista que também se define frequentemente por oposição a responsabilidades sociais.)

 

 

1. Murray Bookchin, “Social Anarchism or Lifestyle Anarchism An Unbridgeable Chasm”

2. Idem

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Contra o realismo

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Chegou a estação dos Oscars, prémios dados se possível a gente bonita maquilhada por fora para parecer feia e por dentro para parecer doente. Benedict Cumberbatch é um dos favoritos este ano. Interpreta Alan Turing, um dos inventores do computador, homossexual, que se terá suicidado por ter sido condenado pelos tribunais a uma “cura” via terapia hormonal. Já só esta descrição garantia o Oscar mas, só para ter a certeza, para barrar bem a manteiga, Cumberbatch representou-o também como sofrendo de Aspergers – que Turing não tinha. Espero que num futuro próximo, lá para os lados de Hollywood, seja tão ofensivo ver gente bonita e sã a ganhar prémios por parecer feia e doente como cantar com a cara pintada de preto ou pôr umas penas de índio na cabeça.

Daí que goste cada vez mais de ver cinema onde apareça gente careca, com os dentes desalinhados e defeitos de pronúncia. Daí que certa filmografia dos anos 70 inícios de 80 se tenha tornado essencial para mim. Já não me chega sequer Cutter’s Way onde o personagem mais carismático, que dá o nome ao filme, seja um amputado zarolho do Vietnam – interpretado por John Heard com uma pala e o braço escondido debaixo da roupa. Prefiro El Topo, de Alejandro Jodorowsky, de 1970, com anões e um cowboy sem pernas às cavalitas de um cowboy sem braços.

Evitei El Topo até ontem porque me diziam que era estranho, “fora”. Surpreendeu-me ter gostado tanto. É um western delirante, com pistoleiros santos no meio do deserto, assombrado por coelhos e favos de mel. Pôs-me a pensar no que será um western realista. Afinal, nunca fui ao Oeste, nem vi duelos, outlaws ou xerifes com os meus próprios olhos. Não sei como viviam, falavam, morriam ou matavam. Ou seja, uma coboiada de Eastwood ou de Ford é tão artificial ou tão realista como os filmes de Jodorowsky. Cinema apenas.

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Mitos

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Um dos textos mais influentes da década de 1960 foi sem dúvida a Morte do Autor, de Roland Barthes. É um ensaio curtíssimo mas sumarento, que contradizia uma das ideias mais incontestada da crítica: quando se tem dúvidas quanto à interpretação a dar a uma obra qualquer, deve-se ir perguntar ao Autor. É isso mesmo que faz Woody Allen numa das cenas mais conhecidas do filme Annie Hall (1977). Na fila para o cinema a discutir a Marshall McLuhan com outro espectador, perde a paciência e tira o próprio McLuhan de trás de um poster, como se fosse o argumento definitivo para calar alguém: Tenho aqui o autor! Mas pouca gente se lembra do que McLuhan exclama: “You know nothing of my work. You mean my whole fallacy is wrong. ” – classificando o que ele próprio diz como sendo uma falácia. Faz lembrar o Rashomon de Kurusawa, onde mesmo o morto, invocado através de um espírita, não ajuda a resolver o crime, contando a versão da história que mais o favorece. Ou seja, fica sempre bem ir beber uns copos com o autor mas pouco mais do que isso.

No que diz respetio à interpretação da obra, leitor e autor estão em pé de igualdade. Não vivem um sem o outro – um ponto de vista literalmente anti-autoritário. O próprio ensaio de Barthes publicado na revista Manteia em 1968 juntar-se-ia à imensa bibliografia revlucionária desse ano. Mas até isso tem o seu quê de lendário: na verdade tinha sido publicado um ano antes nos Estados Unidos, no número minimalista da Aspen, a “revista numa caixa”, juntamente com a Estética do Silêncio, de Susan Sontag.

Inconveniente, mas até as revoluções precisam da sua autoridade.

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Name Dropping

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The Miraculous, de Raphael Rubinstein, merece o seu título. É uma sessão de pequenos textos, às vezes umas linhas, outras uma ou duas páginas, onde o autor limita-se a descrever arte sem usar nomes. O número usado como título identifica o artista num pequeno índice no fim do livro como a solução para um puzzle. O número 9, por exemplo:

An artist takes a blank canvas and paints “$1.00” on it. As well as being the subject of the work, $1.00 is also the price of the painting, and he soon finds someone who buys it. The next canvas he paints reads “$2.00”, which is also its price. This, too, sells, allowing the artist (who is not primarily a painter but a free-ranging conceptual artist) to make a third canvas marked “$4.00.” The rules of the project are simple: each canvas doubles the price of the preceding one and doesn’t get exhibited until the preceding one has sold. As of this writing, the artist is in possession of a canvas carrying the price “$65,536.00.” It has been waiting nine years to find a buyer.

Lendo-as assim, como se fossem pequenas parábolas, genéricas, modernistas, as obras tornam-se de facto em pequenos milagres, sobretudo se lidas em contraponto com o discurso habitual produzido sobre a arte, seja ele académico ou crítico, onde o nome, de pessoaou de instituição, é o enunciado base. O nome é uma abreviatura que tudo parece resumir, expicar, filiar ou legitimar. Estas pequenas histórias económicas, tão abstractas como um conto modernista, revelam por oposição a estopada em que a escrita sobre a arte se tornou, sempre demasiado ansiosa de demonstrar a sua seriedade, a sua legitimidade, os seus precedentes.

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Não se conseguiria evitar a poesia

Prefiro ler as notícias do que ver as notícias. Ler o relato estruturado, argumentado, minimamente digerido, de uma notícia de jornal é bastante melhor do que assistir ao semi-improviso sensacionalista dos telejornais. Na maioria das vezes nem estamos sequer a ver notícias mas jornalistas à espera de qualquer coisa, a fazerem directos perfeitamente arbitrários: a fachada de uma prisão, de umm hospital, de um prédio.

Ocorreu-me que até estas pseudo-notícias ficariam a ganhar se fossem escritas e não mostradas: um telejornal seria constituído por descrições de calçadas, portões, passeios, janelas. Mesmo que a linguagem fosse utilitária, não se conseguiria evitar a poesia.

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Pontos base

Deixo aqui o link para um post sobre o que eu supostamente penso sobre anarquismo. Ao contrário do que é dito, não acho que haja uma total permutabilidade entre anarquismo e neoliberalismo. A minha posição é bastante menos extrema: há sobreposição entre os dois num ponto crucial: o desmantelamento do Estado. Há diferenças, claro, mas esta premissa base deixar-me-á sempre desconfiado. É-me difícil defender o Estado Social e a sua dissolução ao mesmo tempo.

Já agora: o desmantelamento do Estado dentro do neoliberalismo americano está amplamente documentado. Veja-se o Nascimento da Biopolítica, de Michel Foucault, Capitalism and Freedom, de Milton Friedman, The Road to Serfdom, de Hayek, etc. Veja-se também o documentário de 1983, Anarchism in America, onde a ligação entre anarquismo e neoliberalismo se torna bastante óbvia.

 

 

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Free Speech

Sim, somos todos Charlie (excepto os que não querem, etc.). A liberdade de expressão é sagrada. Marca a diferença entre a “civilização” e os outros os “fanáticos”, “bárbaros”, e outras generalizações tótós. Enquanto por tudo o lado se desmantelam redacções, substituindo profissionais por estagiários, precarizando a carreira, etc. Lembro-me sempre daquela jornalista italiana, ferida em combate, que era paga sessenta euros a peça. É provável que tenha comprado o colete à prova de balas no OLX. Já não sei se a melhor tradução para “free speech” não será “discurso grátis”.

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Incitar ao ódio

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Para me distrair do massacre dos cartoonistas comecei por ver uma das minhas séries favoritas, Person of Interest. Claro que no episódio desta semana tinham que matar um dos heróis. A minha segunda tentativa teve igual mau resultado. Decidi ver, finalmente, Man Hunt (1941), de Fritz Lang. Há muitos anos tinha lido um resumo numa revista de cinema e tinha-me ficado na cabeça a imagem de Hitler entre as linhas de uma mira telescópica e a história de um caçador inglês que tinha perdido a oportunidade para o assassinar, tornando-se na vítima de uma caça ao homem. Não estrago o enredo. Só digo que é um filme desesperado e negro, onde a boa disposição e optimismo do herói se vai desfazendo lentamente perante um inimigo implacável, dando lugar ao desespero de uma fera acossada. Sabendo o que sabemos hoje sobre a época assumimos que o seu acto final de heroísmo vingativo foi muito provavelmente fatal.

O filme foi adaptado de um livro de 1939, Rogue Male, que curiosamente também foi uma influência directa do livro que inspirou o primeiro filme de Rambo. Teria uma sequela tardia, Rogue Justice, publicada quarenta anos depois onde o herói conclui o irrealismo de uma nova tentativa de assassinato, tornando-se numa espécie de Rambo atrás das linhas inimigas.

Em Rogue Male, o ditador nunca chega a ser identificado, é uma figura genérica. Só na sequela se assume que se trata de Hitler. No filme, Fritz Lang di-lo claramente, em 1941, quando a América, onde o realizou, ainda não tinha entrado sequer na Guerra. Teve um sem número de problemas por causa disso. Chegou mesmo a ser acusado de germanófobia e de incitar ao ódio.

Como resultado, no filme a tortura que os nazis fazem ao protagonista é apenas sugerida. A morte mais dramática não chega sequer a ser mostrada.  Há um esforço palpável de marcar a distância das acções do herói e do governo inglês. Ele insiste sempre que agiu sozinho. Só no fim, sob uma pressão intolerável, ele confessa a muito custo as suas ideias políticas, de salvar o mundo de um tirano, “até os Alemães, que não sabem o que fazem.”

Agora, como é óbvio parece impossível que algum dia se tenha acusado alguém de incitar ao ódio contra Hitler. Mas agora também se acusa precisamente do mesmo quem acabou de ser massacrado por caricaturar fanáticos religiosos ou políticos. O filme baralhou-me as minhas expectativas, tal como todo este acontecimento, sobre os limites da liberdade de expressão.

 

 

 

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Sim, somos, mas mesmo todos

Já não leio sequer os artigos que começam por “Não somos Charlie”, argumentando de seguida o óbvio, que muito pouca gente tem coragem para fazer o que aqueles cartoonistas faziam. Não se trata de dizer literalmente que somos esses cartooonistas, mas que nos solidarizamos, que eles de algum modo nos representam. É só isso. Sugerir que é preciso uma coragem especial para exercer essa solidariedade exclui a possibilidade de ser um bocadinho mais corajoso que o costume, o que na maioria das ocasiões é perfeitamente suficiente. Pequenos passos.

Depois, há também quem diga que sim, que somos todos Charlie, mas alguns são mais do que os outros. Já li várias pessoas, por exemplo, a argumentarem que é um atentado à esquerda em geral. Não, não é. Para o demonstrar basta ler as muitas declarações vindas da esquerda, onde se sublinha a solidariedade, o pesar e o repúdio ao atentado mas se salvaguarda que a revista era ofensiva, racista, etc. Com isto quero apenas dizer que era um objecto bastante incómodo para boa parte da esquerda. Bastaria dizer que nunca foi políticamente correcta, usava e abusava de estereótipos, etc. Há bastante gente à esquerda que recusa dizer que é Charlie por isso mesmo: não se revêem nos valores da revista. Nem acho que precisem. É possível discordar do conteúdo enquanto se defende a liberdade de o comunicar em público.

Há também os que defendem que somos todos Charlie porque esta é uma guerra até à morte entre civilizações, entre modos de vida incompatíveis, os “nossos” valores versus os “deles”, progresso versus barbárie. Estes atentados são feitos por um grupo, uma relativa minoria, que não representa todos os muçulmanos, todos os árabes, etc. Pela mesma ordem de ideias, seria possível argumentar que a Frente Nacional, o Tea Party ou os Ultraliberais também são representativos dessa mesma “civilização”. Não me representam, e até me parece ofensivo que se sugira isso. Por isso mesmo, não acho que se assuma que os muçulmanos em geral têm que demonstrar o seu repúdio por estes atentados mais do que outra pessoa qualquer. Não precisam de demonstrar que são dos “bons” por oposição aos outros, os “radicalizados”. Imaginem o Papa a pedir desculpa sempre que um evangélico radical dos confins da América mata alguém. Imaginem que nem adiantava dizer que nem sequer se trata de um Católico Romano, que não tinha nada a ver, etc.

 

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Aqui tão próximo

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Soube dos atentados de Boston pela televisão, enquanto corria no ginásio. Na altura fazia mais ou menos dez quilómetros por sessão, alternadamente na rua ou na passadeira. Era obcecado pela corrida – entretanto mudei-me para a piscina. Ver bombas a explodirem no meio de corredores de longa distância fez-me estremecer. Tinha sido um atentado contra algo do qual fazia parte. Não era uma sensação nova.

Nos anos noventa, por ter faltado a uma aula e apanhado o autocarro para casa dos meus pais em Vila Real um dia antes da hora do costume, escapei-me a um atentado à bomba nas casas de banho das garagens do Cabanelas em frente ao Restaurante Abadia no Porto. Assisti ao rescaldo, incrédulo, a aperceber-me que a polícia e o fumo eram num sítio familiar. Alguns amigos estavam lá a essa hora. Por sorte não ficaram feridos. Anos antes, uma bomba tinha destruído os escritórios dessa empresa em Vila Real, matando pelo menos uma pessoa. Ali mesmo ao lado, na Cumieira, no meio das hortas, diz-se que ainda se encontram destroços do carro armadilhado que matou o Padre Max nos anos 70, pouco tempo antes dos meus pais se terem mudado de Lisboa para lá.

Mais recentemente, a minha irmã contava-me o que era viver em Israel numa zona que estava a ser bombardeada pelo Hamas, os conselhos que lhe davam sobre a melhor zona da casa para se abrigar, a improbabilidade de conseguir entrar num abrigo público depois das sirenes tocarem, a tensão e a impotência de saber que a meros quilómetros daquela zona protegida por um escudo anti-míssil, quarteirões inteiros eram arrasados, com perdas incalculáveis de vidas, saúde, bens, às vezes com um telefonema exortando à evacuação em dez minutos.

Ontem, uma revista de banda desenhada, uma redacção inteira, nomes aos quais me habituei desde novito: Wolinski, Cabu, entre outros. A própria revista Charlie era a continuação da Hara Kiri e usava o nome de uma outra a Charlie Mensuel, de capas lindíssimas. Ontem passei o dia de rastos porque a banda desenhada, antes do design, era o que eu fazia e o que eu era.

O que faço agora é sobretudo crítica que significa, argumentar em público, discutir, no fundo, para aqui, para jornais, revistas e livros. É difícil descrever a tensão que se tem quando se começa a fazer crítica. Mesmo que se seja muito cuidadoso, não é muito difícil ofender alguém. Publicava cada texto contra o medo de chatear a pessoa errada, de isso ter repercussões na minha vida, no meu emprego, etc. Demorou bastante tempo a perder esse receio. Como muitos bloggers, descobri às apalpadelas a tradição de discussão pública que é o verdadeiro núcleo da democracia. Pode-se concordar ou não com o que é dito, mas honra-se sempre a possibilidade de ser dito. E se as coisas dão para o  torto, num tribunal ofendido e ofensor têm a mesma igualdade perante a lei. A liberdade de expressão que protege um blogger é a mesma que protege um jornal ou um credo religioso.

Daí que tudo isto, e mais ainda o dia de ontem, me pareça próximo.

Não lia a Charlie Hebdo, embora apanhasse uma vez por outra os seus cartoons e banda desenhadas. Diz-se que era islamofóbica, anti-semita, ou anti-religiosa – aquela coisa nheca que se usa aqui na Europa quando se quer dizer anti-cristã, mas não se pode. Mas era anti-muito mais coisas. Sei que fazia pouco da direita em geral. Não me lembro se gozava com a esquerda. Calculo que sim. Muito do que faziam era altamente ofensivo, mas as suas melhores piadas sempre tiveram o condão de me pôr a pensar no que podia ou não ser dito/mostrado e porquê. Tornavam-me mais crítico. Que é como quem diz, tornavam desconfortável tudo o que era hábito impensado.

Todas as vidas são importantes. Todos os massacres são reprováveis. Diariamente morre gente em atentados. Mas não temos outro remédio senão sentir mais os que nos são mais próximos. Também isto era um hábito impensado.

 

 

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Charlie

Pensamentos avulsos (já tinha deixado o segundo ponto no facebook):

1. “Tolerância” tem (ou devia ter) um sentido muito literal: não é preciso gostar, não é preciso apoiar, basta tolerar, suportar. É o mínimo que se pede. Se alguém faz um cartoon ofensivo, racista até, islamofóbico, sexista ou o que seja, responde-se com outro cartoon, ou com um texto, ou com uma manifestação. Se a ofensa é muita apresenta-se queixa na justiça. Resolver a coisa a tiro (ou a murro ou afins) é que não é tolerável.

2. Pode-se chorar, lamentar, prender, julgar e condenar, mas só lhes será feita a devida homenagem, a verdadeira justiça, no momento em que alguém fizer, cedo demais, e grosseira demais, a primeira piada de mau gosto sobre eles e sobre quem os assassinou.

3. Acho piada que por aqui pela Europa se lamente o atentado, se fale da liberdade de expressão típica das sociedade ocidentais, enquanto se fecham redacções a torto e a direito e se precariza a profissão de jornalista ao ponto da irrelevância. Se há tantos jornalistas a serem mortos, decapitados, ultimamente é porque na sua maioria são freelancers, sem qualquer tipo de estrutura ou segurança que os apoie. Querem fazer da liberdade de expressão um cavalo de batalha? Experimentem pagar melhor a quem faz disso uma profissão.

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Gone Girl

Por influência da minha irmã que é fã do género ando a ver filmes noir sempre que posso. Aprendi a gostar, porque embora os enredos mantenham quase sempre a actualidade, os tiques do dia-a-dia mudaram muito, desde o modo de falar até à própria moralidade. Para se acreditar em Kansas City Confidential, por exemplo, onde um florista é falsamente acusado de um roubo, que decide vingar, é preciso assumir que em 1952 quase todos os americanos com menos de trinta anos tinham sido treinados na violência da Grande Guerra. Ou que o assassino protagonista de This Gun For Hire (1942) só não combatia devido à deformidade do seu pulso usada no enredo para o identificar.

A maior desilusão dos filme noir têm sido os fins felizes. Por mais desesperada que seja a trama, há sempre amor e casamento. Mesmo quando o protagonista morre, o sacrifício é heróico e redentor.

Gone Girl, de 2014, mostra que hoje o noir é realmente negro. O herói (Ben Affleck) não é simpático, nem sequer chega a ser um anti-herói. O vilão (Rosamund Pike) não morre, nem chega sequer a ser castigada. O fim do filme condena herói e vilão a encenarem uma vida feliz, juntos, à frente das câmaras. Deixa-os assim, em tensão, esperando sempre o pior do outro. Não há conclusão, e é bem mais negro do que tudo o que vi até agora vindo dos anos 1940.

Curiosamente, o casal começa o filme preso um ao outro pela crise económica, mantendo um casamento de conveniência para pagar as contas, e termina-o da mesma maneira, onde começou, com ainda menos saídas, cercado não apenas pela crise mas também pela justiça e pelos media – tragicamente congelados dentro de uma imagem que eles próprios manipularam os media para criar.

É um final kafkiano para os tempos que correm, onde até a morte seria uma saída. Para tempos de crise cuja culpa é óbvia mas impune.

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Argumentários

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Habitualmente deixo os shares para o facebook, mas este vale a pena. É uma lista de argumentos, desde os mais simples aos mais complicados, para as discussões mais comuns que se costuma ter na internet. O exemplo acima vem do muito excelente xkcd e responde ao argumento mais básico da blogosfera e não só. Quem me dera tê-lo lido quando comecei a escrever; tinha-me poupado bastante trabalho. Já houve uma altura em que fazia questão de responder a todas as coisas imbecis e/ou insultuosas que me vinham parar à caixa de comentários. Já não tenho paciência. Em geral, mando para o lixo. Nos velhos tempos, também sentia vontade de comentar todas as alarvidades que vinham das bandas do Blasfémias (agora do Observador). Não vale a pena.

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Ver Mr. Turner

Ver este filme foi para mim a sensação inversa de despertar do sonho de um western spaghetti, revisionista, cheio de gente encasacada, lacónica ou acanhada, de hábitos silenciosos ou guturais, e descobrir lentamente enquanto tomo café que não haviam pistolas nem cowboys, mas apenas pinceis e paisagistas ingleses. O próprio Turner no filme é uma massa peluda e desconfiada, de grunhidos e repentes. Tal como os seus quadros, o filme é uma massa enevoada de onde aqui e ali emerge um detalhe, uma frase, um gesto, um insulto ou uma declaração de amor. O que fica dele é a brutalidade dos gestos mais simples e quotidianos numa época que não podemos conhecer. Tudo o que no filme aparece como indício de futuro é já passado: o comboio a vapor, a fotografia analógica. De familiar, apenas os quadros, o único ponto comum entre dois tempos. Seria o mesmo que entrevê-los a meio de uma space opera, pendurados na cabine de uma estação espacial. A biografia é a mais frustante modalidade de ficção que se pode produzir sobre arte ou artistas. Não explica nem pode explicar nada.

Não posso dizer que me tenha marcado, e só escrevo este texto como exercício de opinião sobre objectos que quase nos deixam indiferentes.

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Desejos para 2015

Em 2011, assumia que 2015 ia ser o ano em que Passos se iria finalmente pôr a marchar mais Portas e o resto. Agora, acredito quando vir. Desta última meia década, percebi que não basta estar errado desde que o erro vá massajando os preconceitos da maioria das pessoas. Pouca gente tem tempo para ler sobre economia, sobre política e sobre história. Assim, Passos e os seus amigos (não falo apenas dos portugueses) consolidaram a ideia que qualquer alternativa às suas ideias se resume a “despesismo”. Até concedem que erraram e que o que fazem é mau, mas sempre com a salvaguarda que tudo resto seria muito pior. Vejam-se os últimos textos de José Manuel Fernandes no Observador, por exemplo. Chega a ser triste ver gente a acreditar  que as suas próprias ideias comprovada e repetidamente falhadas eram tudo o que nos separava da decadência final.

É claro que a narrativa começa a fraquejar em sítios como a Grécia, onde boa parte da população já não recebe um salário, um subsídio de desemprego ou qualquer tipo de apoio há anos. Como se pode convencer estas pessoas que sair do euro ou da união europeia seria uma catástrofe? Não para eles certamente.

Seguir a vontade da maioria não é populismo é democracia, quer se goste quer não. Governar pelo medo é a pior forma de populismo, porque é governar apelando ao preconceito e aos piores instintos da população.

Adorava que o meu país tivesse aprendido alguma coisa com a crise mas duvido muito.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
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Liberal, irreal, social
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Juventude em Marcha
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Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

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