The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Aqui tão próximo

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Soube dos atentados de Boston pela televisão, enquanto corria no ginásio. Na altura fazia mais ou menos dez quilómetros por sessão, alternadamente na rua ou na passadeira. Era obcecado pela corrida – entretanto mudei-me para a piscina. Ver bombas a explodirem no meio de corredores de longa distância fez-me estremecer. Tinha sido um atentado contra algo do qual fazia parte. Não era uma sensação nova.

Nos anos noventa, por ter faltado a uma aula e apanhado o autocarro para casa dos meus pais em Vila Real um dia antes da hora do costume, escapei-me a um atentado à bomba nas casas de banho das garagens do Cabanelas em frente ao Restaurante Abadia no Porto. Assisti ao rescaldo, incrédulo, a aperceber-me que a polícia e o fumo eram num sítio familiar. Alguns amigos estavam lá a essa hora. Por sorte não ficaram feridos. Anos antes, uma bomba tinha destruído os escritórios dessa empresa em Vila Real, matando pelo menos uma pessoa. Ali mesmo ao lado, na Cumieira, no meio das hortas, diz-se que ainda se encontram destroços do carro armadilhado que matou o Padre Max nos anos 70, pouco tempo antes dos meus pais se terem mudado de Lisboa para lá.

Mais recentemente, a minha irmã contava-me o que era viver em Israel numa zona que estava a ser bombardeada pelo Hamas, os conselhos que lhe davam sobre a melhor zona da casa para se abrigar, a improbabilidade de conseguir entrar num abrigo público depois das sirenes tocarem, a tensão e a impotência de saber que a meros quilómetros daquela zona protegida por um escudo anti-míssil, quarteirões inteiros eram arrasados, com perdas incalculáveis de vidas, saúde, bens, às vezes com um telefonema exortando à evacuação em dez minutos.

Ontem, uma revista de banda desenhada, uma redacção inteira, nomes aos quais me habituei desde novito: Wolinski, Cabu, entre outros. A própria revista Charlie era a continuação da Hara Kiri e usava o nome de uma outra a Charlie Mensuel, de capas lindíssimas. Ontem passei o dia de rastos porque a banda desenhada, antes do design, era o que eu fazia e o que eu era.

O que faço agora é sobretudo crítica que significa, argumentar em público, discutir, no fundo, para aqui, para jornais, revistas e livros. É difícil descrever a tensão que se tem quando se começa a fazer crítica. Mesmo que se seja muito cuidadoso, não é muito difícil ofender alguém. Publicava cada texto contra o medo de chatear a pessoa errada, de isso ter repercussões na minha vida, no meu emprego, etc. Demorou bastante tempo a perder esse receio. Como muitos bloggers, descobri às apalpadelas a tradição de discussão pública que é o verdadeiro núcleo da democracia. Pode-se concordar ou não com o que é dito, mas honra-se sempre a possibilidade de ser dito. E se as coisas dão para o  torto, num tribunal ofendido e ofensor têm a mesma igualdade perante a lei. A liberdade de expressão que protege um blogger é a mesma que protege um jornal ou um credo religioso.

Daí que tudo isto, e mais ainda o dia de ontem, me pareça próximo.

Não lia a Charlie Hebdo, embora apanhasse uma vez por outra os seus cartoons e banda desenhadas. Diz-se que era islamofóbica, anti-semita, ou anti-religiosa – aquela coisa nheca que se usa aqui na Europa quando se quer dizer anti-cristã, mas não se pode. Mas era anti-muito mais coisas. Sei que fazia pouco da direita em geral. Não me lembro se gozava com a esquerda. Calculo que sim. Muito do que faziam era altamente ofensivo, mas as suas melhores piadas sempre tiveram o condão de me pôr a pensar no que podia ou não ser dito/mostrado e porquê. Tornavam-me mais crítico. Que é como quem diz, tornavam desconfortável tudo o que era hábito impensado.

Todas as vidas são importantes. Todos os massacres são reprováveis. Diariamente morre gente em atentados. Mas não temos outro remédio senão sentir mais os que nos são mais próximos. Também isto era um hábito impensado.

 

 

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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] insensíveis aos massacres noutro locais mais distantes. Só quem não quer é que não percebe que a proximidade desempenha um papel importante, bem como o facto de este ter sido um ataque cirúrgico para calar alguém. O facto de isto me […]

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