The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sim, somos, mas mesmo todos

Já não leio sequer os artigos que começam por “Não somos Charlie”, argumentando de seguida o óbvio, que muito pouca gente tem coragem para fazer o que aqueles cartoonistas faziam. Não se trata de dizer literalmente que somos esses cartooonistas, mas que nos solidarizamos, que eles de algum modo nos representam. É só isso. Sugerir que é preciso uma coragem especial para exercer essa solidariedade exclui a possibilidade de ser um bocadinho mais corajoso que o costume, o que na maioria das ocasiões é perfeitamente suficiente. Pequenos passos.

Depois, há também quem diga que sim, que somos todos Charlie, mas alguns são mais do que os outros. Já li várias pessoas, por exemplo, a argumentarem que é um atentado à esquerda em geral. Não, não é. Para o demonstrar basta ler as muitas declarações vindas da esquerda, onde se sublinha a solidariedade, o pesar e o repúdio ao atentado mas se salvaguarda que a revista era ofensiva, racista, etc. Com isto quero apenas dizer que era um objecto bastante incómodo para boa parte da esquerda. Bastaria dizer que nunca foi políticamente correcta, usava e abusava de estereótipos, etc. Há bastante gente à esquerda que recusa dizer que é Charlie por isso mesmo: não se revêem nos valores da revista. Nem acho que precisem. É possível discordar do conteúdo enquanto se defende a liberdade de o comunicar em público.

Há também os que defendem que somos todos Charlie porque esta é uma guerra até à morte entre civilizações, entre modos de vida incompatíveis, os “nossos” valores versus os “deles”, progresso versus barbárie. Estes atentados são feitos por um grupo, uma relativa minoria, que não representa todos os muçulmanos, todos os árabes, etc. Pela mesma ordem de ideias, seria possível argumentar que a Frente Nacional, o Tea Party ou os Ultraliberais também são representativos dessa mesma “civilização”. Não me representam, e até me parece ofensivo que se sugira isso. Por isso mesmo, não acho que se assuma que os muçulmanos em geral têm que demonstrar o seu repúdio por estes atentados mais do que outra pessoa qualquer. Não precisam de demonstrar que são dos “bons” por oposição aos outros, os “radicalizados”. Imaginem o Papa a pedir desculpa sempre que um evangélico radical dos confins da América mata alguém. Imaginem que nem adiantava dizer que nem sequer se trata de um Católico Romano, que não tinha nada a ver, etc.

 

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Filed under: Crítica

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