The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Incitar ao ódio

manhunt1

Para me distrair do massacre dos cartoonistas comecei por ver uma das minhas séries favoritas, Person of Interest. Claro que no episódio desta semana tinham que matar um dos heróis. A minha segunda tentativa teve igual mau resultado. Decidi ver, finalmente, Man Hunt (1941), de Fritz Lang. Há muitos anos tinha lido um resumo numa revista de cinema e tinha-me ficado na cabeça a imagem de Hitler entre as linhas de uma mira telescópica e a história de um caçador inglês que tinha perdido a oportunidade para o assassinar, tornando-se na vítima de uma caça ao homem. Não estrago o enredo. Só digo que é um filme desesperado e negro, onde a boa disposição e optimismo do herói se vai desfazendo lentamente perante um inimigo implacável, dando lugar ao desespero de uma fera acossada. Sabendo o que sabemos hoje sobre a época assumimos que o seu acto final de heroísmo vingativo foi muito provavelmente fatal.

O filme foi adaptado de um livro de 1939, Rogue Male, que curiosamente também foi uma influência directa do livro que inspirou o primeiro filme de Rambo. Teria uma sequela tardia, Rogue Justice, publicada quarenta anos depois onde o herói conclui o irrealismo de uma nova tentativa de assassinato, tornando-se numa espécie de Rambo atrás das linhas inimigas.

Em Rogue Male, o ditador nunca chega a ser identificado, é uma figura genérica. Só na sequela se assume que se trata de Hitler. No filme, Fritz Lang di-lo claramente, em 1941, quando a América, onde o realizou, ainda não tinha entrado sequer na Guerra. Teve um sem número de problemas por causa disso. Chegou mesmo a ser acusado de germanófobia e de incitar ao ódio.

Como resultado, no filme a tortura que os nazis fazem ao protagonista é apenas sugerida. A morte mais dramática não chega sequer a ser mostrada.  Há um esforço palpável de marcar a distância das acções do herói e do governo inglês. Ele insiste sempre que agiu sozinho. Só no fim, sob uma pressão intolerável, ele confessa a muito custo as suas ideias políticas, de salvar o mundo de um tirano, “até os Alemães, que não sabem o que fazem.”

Agora, como é óbvio parece impossível que algum dia se tenha acusado alguém de incitar ao ódio contra Hitler. Mas agora também se acusa precisamente do mesmo quem acabou de ser massacrado por caricaturar fanáticos religiosos ou políticos. O filme baralhou-me as minhas expectativas, tal como todo este acontecimento, sobre os limites da liberdade de expressão.

 

 

 

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Filed under: Crítica

One Response

  1. m0rph3u diz:

    Tenho andado a digerir o assunto.
    Não creio ser um Charlie. Ao contrário de muitos amigos e conhecidos pouco sabia da edição.
    Não alterei a imagem do facebook, fui a alguma vigilia.
    Condenava o assassinato, tal como condeno tantos outros, como os bombardeios em Gaza perpretados por um Estado de direito, perante a impassividade do resto do Mundo, ou de crianças paquistanesas dentro de um local que as devia preparar para a sua vida, ou de… tantos outros assuntos que vão inundando as notícias diárias – alguns tão bem mais perto e que ninguém demonstra tanta solidariedade, ainda que possuam muito mais probabilidade de vir a tornar-se mais um desses casos (anónimos) de exploração laboral, morte por incapacidade de serviços, etc…
    Em resumo preferi usar a liberdade de não me exprimir, pois todas as pessoas que me pareceram mais próximas do que eu pensava estavam a ser mal interpretadas.

    Afinal, os defensores acérrimos da liberdade de expressão não estavam a deixar outros exprimir uma opinião um pouco diferente da sua. De uma forma, ou de outra não ouvi ninguém dizer que não condenava o que aconteceu (bem, salvo alguém que possa ser tão louco ou fanático quanto os assassinos, claro), mas nem todos se sentiam confortáveis em se solidarizar com obtipo de liberdade de expressão do Charlie Hebdo.
    Incluo-me nesse molho.
    Primeiro, porque ignorante como sou, pouco conhecia dessa edição (ao contrário de muitos e doutos amigos e conhecidos), depois por conhecer (aí sim) um pouco da realidade francesa, nomeadamente de Paris.
    Dificilmente gostaria de ter nascido no seio de uma família magrebina, num qualquer subúrbio gueto da cidade de Paris.
    Não quero usar este argumento, porém, para justificar o que aconteceu, mas em parte preocupa-me a questão da auto-estima de um indivíduo que pertença a uma minoria e da fragilidade da posição dos artistas – quaisquer que sejam, na cadeia de poder ou anti-poder, de uma sociedade dita democrática.

    Ontem encontrei finalmente o texto onde consegui ver expressos os meus sentimentos relativamente a este assunto e o qual partilho: http://goo.gl/Fn055j

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