The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

As Ideias Também Mexem

Às vezes uma pessoa esquece-se que mesmo as ideias mais básicas e aparentemente óbvias se mexem. Por exemplo, deve haver pouca gente que discorde que a propriedade privada se estabelece por oposição à pública. As duas excluem-se mutuamente. Mas nem sempre foi assim: na Idade Média a propriedade implicava por parte do seu senhor um conjunto de deveres públicos (prestação de serviços, justiça, etc.) Hoje pelo contrário assume-se que a posse de algo o subtrai ao escrutínio público e mesmo ao civismo básico – “isto é meu e faço o que quero com ele.”

Por isto se percebe que a ideia de liberdade se tornou também numa espécie de privatização do eu – somos livres na medida  em que nos conseguimos autonomizar como individuos. Por oposição seria possível propor a recuperação de uma liberdade com raízes colectivas. Uma liberdade como a que propõe Murray Bookchin onde: “a personalidade do individuo não se opõe ou se isola do colectivo mas é significantemente formada – e, numa sociedade racional, concretizada – pela sua própria existência social.”¹

Bookchin opõe a esta liberdade o conceito de autonomia, na definição de Paul Goodman, a “habilidade de iniciar uma tarefa e de a fazer à sua maneira”, argumentando que quando grande parte da esquerda radical e em particular o que ele chama “lifestyle anarchists” clamam:

“por autonomia e não liberdade, estão a lançar fora as fecundas conotações sociais do conceito de liberdade. Na verdade, o apelo constante por autonomia mais do que liberdade social não pode ser desvalorizado como um acidente, particularmente nas estirpes Anglo-Americanas de pensamento libertário. onde a noção de autonomia mais se aproxima da liberdade pessoal. As suas raízes encontram-se na tradição imperial da romana da libertas, onde o ego tem a “liberdade” para ter a sua propriedade pessoal – e para gratificar a sua luxúria pessoal. Hoje, o individuo dotado de ‘direitos soberanos’ é visto por muitos lifestyle anarchists como antitético não só em relação ao Estado mas à própria sociedade.”²

Esta última oposição, entre liberdade pessoal e sociedade aproxima-se evidentemente das crenças neoliberais e em particular da conhecida bojarda de Margaret Thatcher, que “Não existe sociedade” – apenas indivíduos. Para Bookchin (e eu concordo), uma acção política baseada no romântismo de uma busca individual, da expressão de um eu, que não se sujeita a qualquer autoridade alheia, por pequena que seja, não é minimamente eficaz porque acaba por assumir como premissa os valores de base prezados pelos neoliberais.

Por outras palavras, só se vai lá com organização, com discussão, com trabalho seca. Grandes acções à moda dos Situacionistas, King Mob, Up Against The Wall Motherfucker, do Punk, são bonitas, provocam, ficam na memória, mas pouco deixam para além de catarse.

(Note-se que esta crítica da autonomia individual pode ser transposta directamente para a autonomia do artista que também se define frequentemente por oposição a responsabilidades sociais.)

 

 

1. Murray Bookchin, “Social Anarchism or Lifestyle Anarchism An Unbridgeable Chasm”

2. Idem

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Filed under: Crítica

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