The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mau gosto

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Não sei quem o fez. Não sei quem o encomendou. Tenho a certeza que deu muito trabalho. Que foi difícil. Acredito que sim, porque é sempre difícil. Mas não chega dizer-se que deu muito trabalho, que foram precisos compromissos, que se não fosse por isso seria melhor. Não são grandes argumentos. Na maioria dos casos falhar dá tanto trabalho como conseguir. Destruir a floresta Amazónica, por exemplo, exige muito trabalho e capacidade de compromisso. Defendê-la pode parecer quase preguiçoso por comparação.

Também não chega defender-se uma coisa destas dizendo que se trata de uma questão de gosto. Uns gostam outros não, portanto acaba por não fazer diferença se é este ou outro qualquer – se não faz diferença, é porque é mau ou, pior ainda, indiferente. Um bom logo presta-se ao uso, à apropriação e à subversão. Presta-se a ser discutido. Quase todos os logos se prestam a ser atacados. Entre estes só os bons se prestam a ser defendidos. Por estranhos, por rivais, por gente que não tem nada a ver. Fica-se triste quando mudam. Duvido que alguém o faça em relação a este, sem recorrer a falácios de apelo aos sentimentos: deu muito trabalho, é só um logotipo, etc.

Ao contrário do que se diz, o gosto discute-se e muito. Foi feito para isso. Não há tal coisa como um gosto completamente privado – ou se declara o gosto por actos ou palavras, ou não faz diferença nenhuma; é como se não existisse. O gosto é sempre um debate, com facções, guerras, querelas, tradições, subversões e compromissos. Cada logotipo que se concebe, posiciona-se quer queira quer não dentro dentro desta arena, onde é avaliado por uma série de questões. Por exemplo: como se posiciona em relação a outros logos de eventos semelhantes; como se posiciona em relação ao que está a ser feito actualmente dentro deste formato; como funciona em termos técnicos; etc.

Este é um logotipo formalmente desequilibrado, com uma grande misturada de pesos, tamanhos e cores de letras, com uma ilustração que parece ter sido construída à pressa a partir de dingbats encaixados num cálice parcialmente desenhado. A própria composição parece limitar-se a ir encaixando o que é preciso onde houver espaço. O alinhamento do texto às vezes é ao centro, outras quando couber. O espaçamento entre letras é completamente incoerente. O alinhamento do pé com a haste do A e o esporão do L não funciona e só sublinha o ar desconjuntado do todo. A paleta de cores anda à volta do cor-de-burro quando foge ferido de morte. Alinhar este logo com o que quer que seja é um pesadelo. Reduzi-lo será uma aflição. Na faixa de apoios de um cartaz irá fazer o papel de um Grande Superfície instalada num centro histórico.

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Filed under: Crítica

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