The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Coisas que dão náuseas

1. A barbearia que proíbe a entrada a mulheres. Pensava que já estava no século XXI, que era suposto ir de mochila a jacto para o trabalho e ir fazer uma escapadinha de três dias à Lua. Em vez disse, temos smartphones, gurmê e vintage. Tudo muito inofensivo – se não fosse a vaga de machismo vintage integrada numa recuperação geral de tradições ofensivas e imbecis só porque parece cool. Se esses barbeiros lumbersexuais¹ invocam a liberdade de expressão, então espero que percebam que a coisa anda para os dois lados e vão ter que passar boa parte das horas de expediente a ouvir gente a chamar-lhes troglodita ou pior. E se estiverem a sentir-se muito oprimidos, espero que alguém lhes lembre de todas as mulheres que foram presas, espancadas ou mortas por defenderem coisas tão simples como puderem votar. Mas o que é isso comparado com o direito a escanhoarem-se uns aos outros sem fémeas por perto?

Não tenho uma borrifadela de paciência para gente que acha que a luta por direitos está “resolvida” e agora é preciso defender os homens de uma suposta opressão feminina, gay, imigrante ou o que seja. Ouvir gente machista a usar argumentos feministas para defender o direito a continuar a ser machista está ao nível de cantar com a cara pintada de preto.

2. Ver o Prós e Contras sobre a Grécia e perceber que há gente que acha que o ajustamento Grego e Português foram um sucesso, que a crise se deve à compra de televisores de plasma e BMWs e ao despesismo do Estado, que não há alternativa para austeridade, etc.

1. Calculo que o termo signifique que são híbridos de humano e cepo.

Filed under: Crítica

Sizolatria

É bastante cansativo: já umas tantas vezes me queixei por aqui do design de Siza Vieira, seja ele gráfico ou de equipamento. Em alguns casos, é tecnicamente atabalhoado (as sinaléticas de Serralves; a tipografia dessas sinaléticas), é arrogante (o facilitismo minimalista de insistir em sinalética de emergência branca), desconfortável (as cadeiras que produziu para os anfiteatros das Belas Artes, por exemplo), kitsch até (as sinaléticas de casa de banho a meio caminho entre o Mondrian mal esgalhado e o bracito no ar do Modulor). Para um designer ou quem não se deixe ofuscar pelo argumento de autoridade (“Ai que é do Siza!”), o culto devotado a estas traquitanas é incompreensível, a menos que se vejam como relíquias do santo, que é como quem diz merchandising, tralhas coleccionáveis para colocar o mestre ao alcance dos fieis que não lhe podem encomendar uma casa. Há uns anos, lembro-me dos meus amigos arquitectos aparecerem um dia todos de velinha debaixo do braço. Era um jornal diário que andava a distribuir um castiçal do Siza à peça. Enfim.

Quando alguém me diz que gosta do Siza pela atenção ao pormenor, só posso assumir que se trata de pormenores de construção, porque se esse pormenor é uma peça de mobília, uma sinlética ou uma letra, é uma desgraça. Faz-me ficar com dúvidas quanto ao resto.

Esta semana a propósito de uma exposição sobre esse mesmo design, discutiu-se nas redes sociais (e mais uma vez) os méritos do design do Siza. Naturalmente, argumentou-se que só se critica o design do Siza porque é um arquitecto. Sinceramente, é-me indiferente se alguém tem o curso de design ou não (ou de arquitectura), do mesmo modo que sou indiferente aos argumentos de autoridade. Não me interessa de todo um discurso crítico assente na ideia de autores sobre os quais é obrigatório manter uma reverência beata.

Infleizmente, a tendência é essa: a arquitectura (tal como a arte e o próprio design) vão-se convertendo a esta beatice. Preferindo sempre que possível alcançar posições de autoridade “inquestionável” do que ir assegurando um discurso crítico saudável.

 

Filed under: Crítica

Alternativas

Uma pessoa envelhece não apenas para a frente, com os anos vividos a acumularem-se, mas também para trás, porque usamos esses anos não apenas para viver mas para saber um pouco mais de história. No caso do design que é uma coisa de modas, a história é sempre uma coisa difícil. Quando digo modas, por exemplo, não falo de fontes, cores, papéis ou tipos de encadernação mas de coisas mais imperceptíveis: de como o designer se pensa a si mesmo, se organiza, onde acha que deve trabalhar, como e para quem. Por detrás das pequenas modinhas que os iritam (e que são inevitáveis) a própria ideia do que é um designer vai mudando.

Por exemplo, há quinze anos atrás, o “designer como autor” era considerado uma aberração, agora um designer fazer trabalho sem um cliente à partida, montar o próprio negócio é uma coisa banal – o design abraçou o empreendedorismo com a falta de espírito crítico com que costuma abraçar tudo o resto. Calculo que os gurus do costume já digam que o design sempre foi assim.

Ainda assim, é possível ver alguns sinais no design da época onde foi criado. Falo do modernismo, como é óbvio. Certa tendência para preferir a bidimensionalidade e as cores planas. Modularidade. Termos que vão sendo repetidos com sentidos bastante diferentes: forma/função, less is more, a própria palavra “design” – se já foi possível traduzi-la por “projecto” (os arquitectos ainda o fazem), agora tornou-se num género, como em literatura se usa o policial ou a ficção científica.

Fala-se de design quando se fala de empresas, de inovação, de luxo, etc. Pelo caminho, ficaram as velhas intenções políticas e sociais. Só é possível falar de design político ou social quando se fala da empresarialização de cada uma destas coisas: privatização da caridade ou marketing político.

Mas para quem se dá ao trabalho de ir ver como as coisas se faziam, percebe que há outras possibilidades. A conclusão é esta: se há alternativas para a austeridade, também as há para o sucedâneo redutor a que se insiste em chamar “design”. Basta querer.

Filed under: Crítica

Xerifes e Índios

Às vezes, o que basta para fazer de uma série de televisão ou de um filme algo “experimental”, “difícil”, “alternativo” é simplesmente insistir em silêncios ou planos um pouco mais longos. Distribuindo as mesmas coisas em dosagens um pouco distintas tem-se um Jarmusch ou uma treta completamente trivial. Não gostei de True Detective, por exemplo, porque tudo nela parecia uma lista de supermercado do que deveria ser uma série de culto. Os silêncios, a música, as intermináveis reflexões sobre tudo e mais alguma coisa. As referências literárias obscuras. Os actores vindos do cinema e a levaram-se a sério. A paisagem rural e degradada.

Agora, imaginem que em vez de silêncios têm uma série onde mais de dois terços de um episódio são ocupados com dois personagens à porrada dentro de uma mesma sala. Ou que outro episódio começa com alguém a lavar um Rolls Royce à frente de uma mansão, e da vegetação salta a rodopiar um tomahawk que lhe entra pelo ombro adentro, começando uma cena de pancadaria que dura uns dez minutos, que destrói o carro inteiro e termina quando um dos lutadores mata o outro enterrando-lhe a estatueta alada do radiador na garganta. Outras vezes, é uma bazuca disparada dentro de uma sala. Uma única vez houve um episódio em que não aconteceu nada até cinco minutos do fim, só conversa, reflexão e câmara-lenta com raios de luz a fazer efeitos sobre a lente (True Detective) e uma pessoa começa a preocupar-se porque ainda não viu pancadaria de meia-noite (será que estão a perder o pedal?) e então, do nada, rebenta tudo outra vez. E há velhos boxers e cadávers eliminados em fábricas de salsichas e patriarcas do crime tão gordos que se deslocam num apartamente dentro de um camião TIR. Quero através destes exemplos dizer que se a porrada fosse como o silêncio, Banshee seria um objecto experimental ao limite. Nunca se sabe o que vai acontecer, excepto que será superlativo. Como o mítico amplificador de Spinal Tap, vai regularmente aos onze. E nem se espera outra coisa.

Sinto tanta culpa com o prazer que tenho a seguir esta coisa xunga como a vergonha que os seus criadores têm a fazê-la — ou seja: nenhuma. Não conheço entre os meus amigos mais ninguém que a veja. Mas não me admirava que houvesse. Não é coisa de que se possa falar. Falta-me vocabulário para falar sobre porrada num nível tão épico.

Fiquei com vontade de escrever de novo sobre ela porque pela primeira vez em três temporadas dei com uma referência cinematográfica explícita, um episódio inteiro construído à semelhança de Assault on 13 Precint, de Carpenter. Meia dúzia de almas cercadas à noite numa esquadra de polícia. O filme inspirava-se nos westerns de Hawks. A série, passada em 2015 ou cá perto, devolve a refência em espelho e amplificada. O anti-herói, ladrão e presidiário tornado falso xerife, está cercado por uma gangue (contemporãnea) de índios armados até aos dentes. Os seus adjuntos incluem um índio, um ex-neo-nazi coberto de tatuagens. Numa cela, está o vilão, um gangster ex-amish, dono de bordéis e fábricas de salsichas. O sangue gela-nos quando a mulher polícia que ama o falso xerife lhe pergunta qual o seu verdadeiro nome, num intervalo entre chuvas de balas. Não temos outro remédio senão gelar, porque em 13 Precint o presidiário só o revelava na hora da morte. E aqui é a mesma coisa e a moça morre.

É o delírio.

 

Filed under: Crítica

Logos para a Austeridade

IMG_3380

Uma pessoa pensa que já ouviu tudo. Ou pelo menos que já nada nos surpreende. Que se pode reagir intelectualmente ao que nos vão atirando, olhar para cada bojarda friamente, encaixando-a com rapidez entre as anteriores e esperar pela seguinte, como um inspector na linha de montagem de uma fábrica monstruosa, onde só por acaso sai uma peça que cumpre os mínimos. Mas, mesmo entre os monstros, há sempre espaço para pior.

Quando o Primeiro Ministro diz que se deve “fazer tudo para salvar vidas, mas não custe o que custar.” A frase já é má em si mesma, mas torna-se pior quando se desenterram outras, a propósito do memorando da Troika: “Nós, simplesmente, como gente adulta e madura, vamos cumprir o que lá está, custe o que custar. E custa, custa muito, não haja dúvida quanto a isso, mas vamos cumprir.”

A conclusão do silogismo é simples: pagar a dívida, mesmo que isso custe vidas.

Na verdade, nem sequer se trata de pagar a divida, porque ninguém, nem sequer os credores, acreditam que possa ser paga na totalidade, apenas de ser punido por ela, de fazer as chamadas “reformas estruturais”, que mais não são que a cristalização da austeridade (que ainda se anunciava como um estado transitório a caminho de uma melhoria que não aconteceu) – são a austeridade enquanto modelo de sociedade.

É isso que se tenta demonstrar agora com a Grécia: que não se trata de deixar um país ou uma pessoa melhorarem mas de os colocarem no seu lugar merecido na hierarquia das coisas. Se não merece nada, não terá nada. Não tem a ver com razão ou sequer sensatez, mas simplesmente com moralidade e imposição pela força.

Daí que esta semana me tenha ocorrido que a capa do Design em Tempos de Crise seja o melhor comentário possível para o carácter totalitário desta economia da depressão: um gráfico descendente desenhado com a mesma arrogância do ´simbolo das SS ou da própria suástica. Na altura em que foi concebido por mim, pela Isabel Carvalho e pelo Pedro Nora, em 2008, ainda não se falava de austeridade. Entrava-se nos subúrbios da Grande Recessão. Parecia-me quase demasiado forte. Neste momento, parece-me só justo.

 

 

 

 

Filed under: Crítica

Emancipar o público

Demorei anos a perceber um dos mal entendidos mais convenientes do discurso das artes: a chamada autonomia do artista.    É uma daquelas coisas que se usa por tudo e por nada, tornou-se menos até que um formalismo, uma formalidade, ou até uma superstição, como dizer “santinho” quando alguém espirra. Para alguns, é uma espécie de deontologia, estabelecendo um tabique entre artista e poder, mas só garante que o seu trabalho pode ser apropriado alegremente pelos poderes mais contraditórios entre si: económico, político, religioso, o que se queira. E depois a actividade do artista é (e sempre foi) tudo menos autónoma, sempre sujeita a encomendas, eventos, aos quais tem que se sujeitar. A autonomia também é uma maneira de desejar o artista como uma profissão liberal, que raramente é ou pode ser.

Tudo isto para dizer que me tem interessado muito mais a autonomia do espectador, que era isso que Kant, por exemplo, queria dizer. A estética não é a ciência das memórias descritivas ou das folhas de sala mas do modo como o público discute a arte. Ou seja, a autonomia ou não do artista interessa sobretudo aos artistas, ao millieu. Mas enquanto o artista se autonomiza, sublinha-se sempre a passividade do espectador, que é preciso sacudir, integrar, pôr a trabalhar. Delira-se com Debord que acha o espectáculo muito mau e portanto o seu sujeito, o espectador, uma lesma. Delira-se com Artaud e com Brecht que não perdem uma ocasião para tratar o público como ovelhas em nome da sua libertação.

Deixem o espectador em paz. Tratem-no como pessoa inteligente, que participa ou não porque quer, e não porque o sacodem, e pode ser que tenham uma surpresa.

Tenho encontrado algum consolo no livro de Rancière, O Espectador Emancipado, que propõe de um modo bastante mais cuidadoso essa ideia revolucionária de não se assumir à partida o público como uma cambada de brutinhos que é preciso libertar.

Naturalmente, estas ideias de uma autonomia do público ou do espectador interessam-me por causa da crítica e da sua função: para mim não se trata nunca de explicar a obra, mas de explicar o espectador, não no sentido de o entender, mas de  lhe dar um discurso.

Filed under: Crítica

Lançamento

10923598_10203940086807850_9053387184977032457_n

Amanhã na esad de Matosinhos, lançamento de um livro sobre o designer José Brandão, no qual participei.

 

Filed under: Crítica

Lars Müller no Passos Manuel

LarsMuller_efly

Amanhã, o editor Lars Müller, que para quem se interessa por estas coisas do design dispensa apresentações, vai falar amanhã, às 21h30, no Passos Manuel, a convite da Dafne editora.

Filed under: Crítica

Bitter Lake

Vi Bitter Lake (2015), o último documentário de Adam Curtis, que começa por ser sobre o Afeganistão e acaba, conforme o hábito do realizador, por ser sobre quase tudo. Como a América acabou por criar o Afeganistão actual mas também como Afeganistão vai mudando subtilmente os países que lá entram, a Inglaterra, a União Soviética e finalmente a própria América.

As imagens de arquivo são hipnóticas, lindíssimas, sejam elas o registo em Super 8 de uma festa de crianças num enclave industrial americano dos anos 1950, de um helicóptero a aterrar filmado em visão nocturna ou de um afegão brincando ao Kung Fu para a câmara enquanto espalha almofadas numa tenda. A beleza e abstracção destas cenas, apresentadas quase sempre sem comentário, obrigam-nos a olhar para elas, a tentar extrair delas qualquer pista, qualquer sinal, tornando-as um mistério necessário, eficaz, memorável.

O resto são mal entendidos culturais que não são os do costume. Não é a relação entre vítimas impotentes e poderes distantes, bem intencionados e/ou arrogantes, mas algo mais complicado onde os poderes locais aprenderam a manipular a força dos invasores para os seus próprios fins, usando-a para eliminar rivais, para encorajar ódios e alianças.

Filed under: Crítica

Marmota Dinheiro

groundhog-day-2-o

Só para cumprir a tradição. E para dizer que ainda estou vivo. Passei as últimas semanas a ler trabalhos e a adiantar leituras em geral. Como de costume enquanto estou na época de avaliações praticamente tudo o que leio é nostalgia – comics da Marvel, as Oeuvres Completes do Moebius, mas também alguma coisa nova – Annihilation, a Novel, de Jeff Vandermeer, que lembra muito Piquenique à Beira da Estrada, a história de onde tiraram Stalker, mas muito estranha à sua maneira. De filmes, vi o Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa. Demorei um dia a perceber que tinha gostado. No  momento, apreciei-o intelectualmente mas sem emoção. Há um pormenor, ou antes uma coisa que está em cada plano dos filmes de Costa mas não costuma ser comentado. Costa lembra-me sempre o Pós Modernismo como estilo. do qual o exemplo máximo em Portugal é talvez Tomás Taveira – mas também o Independente ou a revista Kapa. Não falo da filosofia mas de um conjunto de tiques gráficos que apareceram na arquitectura, na fotografia ou na ilustração. No design gráfico, havia uma espécie de Neo Construtivismo onde se usavam referências ao construtivismo original (geometria tridimensional, perspectivas cavaleiras ou épicas) de modo pop, em Costa encontra-se ainda o mesmíssimo gosto – a que se associa também certa imagem granulada enquadrada ao ponto da abstracção que havia também em Nozolino ou em Inês Gonçalves, bem como em quase toda a fotigrafia editorial da época, sobretudo a de moda, onde o Soviet Chic, os queixos alçados a olhar para o horizonte eram comuns.
arts-graphics-2008_1185700a Colossal-Youth

Curiosamente, aos pós-modernos quando envelhecem bem, já só se lhes chama modernos, o que também acontece com Siza, mas não deixa de ser um mau serviço crítico.

 

 

 

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

Comentários

Comentários fora de tópico, violentos, incompreensíveis ou insultuosos serão sumariamente apagados.

Arquivos

Categorias