The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Emancipar o público

Demorei anos a perceber um dos mal entendidos mais convenientes do discurso das artes: a chamada autonomia do artista.    É uma daquelas coisas que se usa por tudo e por nada, tornou-se menos até que um formalismo, uma formalidade, ou até uma superstição, como dizer “santinho” quando alguém espirra. Para alguns, é uma espécie de deontologia, estabelecendo um tabique entre artista e poder, mas só garante que o seu trabalho pode ser apropriado alegremente pelos poderes mais contraditórios entre si: económico, político, religioso, o que se queira. E depois a actividade do artista é (e sempre foi) tudo menos autónoma, sempre sujeita a encomendas, eventos, aos quais tem que se sujeitar. A autonomia também é uma maneira de desejar o artista como uma profissão liberal, que raramente é ou pode ser.

Tudo isto para dizer que me tem interessado muito mais a autonomia do espectador, que era isso que Kant, por exemplo, queria dizer. A estética não é a ciência das memórias descritivas ou das folhas de sala mas do modo como o público discute a arte. Ou seja, a autonomia ou não do artista interessa sobretudo aos artistas, ao millieu. Mas enquanto o artista se autonomiza, sublinha-se sempre a passividade do espectador, que é preciso sacudir, integrar, pôr a trabalhar. Delira-se com Debord que acha o espectáculo muito mau e portanto o seu sujeito, o espectador, uma lesma. Delira-se com Artaud e com Brecht que não perdem uma ocasião para tratar o público como ovelhas em nome da sua libertação.

Deixem o espectador em paz. Tratem-no como pessoa inteligente, que participa ou não porque quer, e não porque o sacodem, e pode ser que tenham uma surpresa.

Tenho encontrado algum consolo no livro de Rancière, O Espectador Emancipado, que propõe de um modo bastante mais cuidadoso essa ideia revolucionária de não se assumir à partida o público como uma cambada de brutinhos que é preciso libertar.

Naturalmente, estas ideias de uma autonomia do público ou do espectador interessam-me por causa da crítica e da sua função: para mim não se trata nunca de explicar a obra, mas de explicar o espectador, não no sentido de o entender, mas de  lhe dar um discurso.

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Filed under: Crítica

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