The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Xerifes e Índios

Às vezes, o que basta para fazer de uma série de televisão ou de um filme algo “experimental”, “difícil”, “alternativo” é simplesmente insistir em silêncios ou planos um pouco mais longos. Distribuindo as mesmas coisas em dosagens um pouco distintas tem-se um Jarmusch ou uma treta completamente trivial. Não gostei de True Detective, por exemplo, porque tudo nela parecia uma lista de supermercado do que deveria ser uma série de culto. Os silêncios, a música, as intermináveis reflexões sobre tudo e mais alguma coisa. As referências literárias obscuras. Os actores vindos do cinema e a levaram-se a sério. A paisagem rural e degradada.

Agora, imaginem que em vez de silêncios têm uma série onde mais de dois terços de um episódio são ocupados com dois personagens à porrada dentro de uma mesma sala. Ou que outro episódio começa com alguém a lavar um Rolls Royce à frente de uma mansão, e da vegetação salta a rodopiar um tomahawk que lhe entra pelo ombro adentro, começando uma cena de pancadaria que dura uns dez minutos, que destrói o carro inteiro e termina quando um dos lutadores mata o outro enterrando-lhe a estatueta alada do radiador na garganta. Outras vezes, é uma bazuca disparada dentro de uma sala. Uma única vez houve um episódio em que não aconteceu nada até cinco minutos do fim, só conversa, reflexão e câmara-lenta com raios de luz a fazer efeitos sobre a lente (True Detective) e uma pessoa começa a preocupar-se porque ainda não viu pancadaria de meia-noite (será que estão a perder o pedal?) e então, do nada, rebenta tudo outra vez. E há velhos boxers e cadávers eliminados em fábricas de salsichas e patriarcas do crime tão gordos que se deslocam num apartamente dentro de um camião TIR. Quero através destes exemplos dizer que se a porrada fosse como o silêncio, Banshee seria um objecto experimental ao limite. Nunca se sabe o que vai acontecer, excepto que será superlativo. Como o mítico amplificador de Spinal Tap, vai regularmente aos onze. E nem se espera outra coisa.

Sinto tanta culpa com o prazer que tenho a seguir esta coisa xunga como a vergonha que os seus criadores têm a fazê-la — ou seja: nenhuma. Não conheço entre os meus amigos mais ninguém que a veja. Mas não me admirava que houvesse. Não é coisa de que se possa falar. Falta-me vocabulário para falar sobre porrada num nível tão épico.

Fiquei com vontade de escrever de novo sobre ela porque pela primeira vez em três temporadas dei com uma referência cinematográfica explícita, um episódio inteiro construído à semelhança de Assault on 13 Precint, de Carpenter. Meia dúzia de almas cercadas à noite numa esquadra de polícia. O filme inspirava-se nos westerns de Hawks. A série, passada em 2015 ou cá perto, devolve a refência em espelho e amplificada. O anti-herói, ladrão e presidiário tornado falso xerife, está cercado por uma gangue (contemporãnea) de índios armados até aos dentes. Os seus adjuntos incluem um índio, um ex-neo-nazi coberto de tatuagens. Numa cela, está o vilão, um gangster ex-amish, dono de bordéis e fábricas de salsichas. O sangue gela-nos quando a mulher polícia que ama o falso xerife lhe pergunta qual o seu verdadeiro nome, num intervalo entre chuvas de balas. Não temos outro remédio senão gelar, porque em 13 Precint o presidiário só o revelava na hora da morte. E aqui é a mesma coisa e a moça morre.

É o delírio.

 

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Filed under: Crítica

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