The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sizolatria

É bastante cansativo: já umas tantas vezes me queixei por aqui do design de Siza Vieira, seja ele gráfico ou de equipamento. Em alguns casos, é tecnicamente atabalhoado (as sinaléticas de Serralves; a tipografia dessas sinaléticas), é arrogante (o facilitismo minimalista de insistir em sinalética de emergência branca), desconfortável (as cadeiras que produziu para os anfiteatros das Belas Artes, por exemplo), kitsch até (as sinaléticas de casa de banho a meio caminho entre o Mondrian mal esgalhado e o bracito no ar do Modulor). Para um designer ou quem não se deixe ofuscar pelo argumento de autoridade (“Ai que é do Siza!”), o culto devotado a estas traquitanas é incompreensível, a menos que se vejam como relíquias do santo, que é como quem diz merchandising, tralhas coleccionáveis para colocar o mestre ao alcance dos fieis que não lhe podem encomendar uma casa. Há uns anos, lembro-me dos meus amigos arquitectos aparecerem um dia todos de velinha debaixo do braço. Era um jornal diário que andava a distribuir um castiçal do Siza à peça. Enfim.

Quando alguém me diz que gosta do Siza pela atenção ao pormenor, só posso assumir que se trata de pormenores de construção, porque se esse pormenor é uma peça de mobília, uma sinlética ou uma letra, é uma desgraça. Faz-me ficar com dúvidas quanto ao resto.

Esta semana a propósito de uma exposição sobre esse mesmo design, discutiu-se nas redes sociais (e mais uma vez) os méritos do design do Siza. Naturalmente, argumentou-se que só se critica o design do Siza porque é um arquitecto. Sinceramente, é-me indiferente se alguém tem o curso de design ou não (ou de arquitectura), do mesmo modo que sou indiferente aos argumentos de autoridade. Não me interessa de todo um discurso crítico assente na ideia de autores sobre os quais é obrigatório manter uma reverência beata.

Infleizmente, a tendência é essa: a arquitectura (tal como a arte e o próprio design) vão-se convertendo a esta beatice. Preferindo sempre que possível alcançar posições de autoridade “inquestionável” do que ir assegurando um discurso crítico saudável.

 

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Joana Vilhena diz:

    O pecado deste artigo é o discurso não ultrapassar a beatice sizolátrica juntamente com a falta de sentido crítico. Afinal para que é que se escreve? Penso que para debater temas disciplinares relevantes para um ponto de vista.

  2. […] Português, já me queixei dele em outras ocasiões. Tal como já me cansei de o fazer em relação ao design de Siza Vieira, quase todo muito fraco, que não justifica a atenção de uma exposição num ano do design que […]

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