The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Espacialização

Já se tornou habitual dizer isto todos os anos mas já nem consigo revirar os olhos quando me falam do ensino pós-Bolonha como valorizando a especialização, entre outras inanidades do género. Que era uma treta, soube-o desde o primeiro momento, ainda antes de começar a dar aulas, antes ainda de Bolonha começar a sério, quando tirei o meu mestrado. Era suposto ser uma especialização. Na prática, a necessidade de captar e integrar alunos das mais diversas áreas tornava-o num curso de generalidades, nem sequer de cultura geral.

Mais tarde, quando Bolonha começou a funcionar, o padrão repetiu-se nas licenciaturas: cadeiras minúsculas, modulares, de modo a suportar a mobilidade dos alunos, o ideal Bolonhês que qualquer pessoa poderá frequentar o que quer que seja. E por favor não invoquem as precedências. Até as cadeiras com precedências são obrigadas a estruturarem-se à semelhança das outras: pequenas, rápidas, etc. Portanto o estrago é quase o mesmo.

Ao nível dos conteúdos, a impossibilidade crescente de dar matéria com algum nível de profundidade leva a uma epidemia de cadeiras genéricas: cadeiras de antologia, onde cada aula é dada por um professor convidado diferente; cadeiras de metodologia, que se resumem a auto-ajuda para burocratas.

Junte-se a isto falta de dinheiro, que quer dizer: as maiores turmas que se possam enfiar numa sala ou num buraco qualquer do horário – e depois venham-me falar de especialização.

Isto do ponto de vista do aluno. Do ponto de vista do professor, o problema é o mesmo. Eu sou obrigado a dar uma tal quantidade de cadeiras distintas que há uns anos fiz as contas e concluí que estava praticamente a dar um ano inteiro de curso. Os conteúdos são (neste momento) edição e paginação; design de tipos; crítica de design; história do design; e (claro está) metodologia (porque nenhuma distiribuição está verdadeiramente completa se não estivermos a dar pelo menos uma cadeira com a existência da qual nem sequer concordamos). Como é possível ser especialista nisto tudo?

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Miguel Abreu diz:

    Porque discorda de Metodologia no plano curricular? Tem mal em perceber qual o processo do projecto?

    • Discordo por mais que uma razão. Mas resumidamente, e falando só de metodologia de design: porque não dar isso nas cadeiras de projecto, onde seria mais orgânico? porque isolar a metodologia da prática? a metodologia de design tem-se autonomizado mas à custa de se tornar numa espécie de ferramenta de gestão (“design thinking”, etc) que tem pouquíssimo interesse do ponto de vista do designer que queira simplesmente fazer design. Ou então numa colecção de técnicas de brain storming, criatividade enlatada para equipas, auto-ajuda, etc. – o que ainda me parece mais inútil em termos de especialização.

      • Miguel Abreu diz:

        Ah, ok. A realidade que conheço é ligeiramente diferente: sempre aprendi metodologia em aulas teórico-práticas/práticas, nas cadeiras de Projecto (inclusive no primeiro ano, em que projecto se chamava Metodologia do Trabalho do Designer). Confesso que desconhecia a existência de cadeiras exclusivamente teóricas de metodologia (não contando com os MI dos mestrados: o que, na verdade, não dava grande apoio no desenvolvimento da dissertação/projecto).

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