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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Aquiles e o Vasco Pulido Valente

Olhando com atenção para certos fenómenos naturais consegue-se inferir padrões: nas marés, nas movimentações dos astros, no Vasco Pulido Valente. No seu texto de hoje no Público, por exemplo, argumenta que:

“O desenvolvimento económico depende dos recursos naturais (antigamente do carvão e do ferro), da situação geográfica, das comunicações, dos capitais disponíveis, do mercado interno actual ou potencial, das vantagens no mercado externo, da estabilidade social e política, da eficácia do Estado e por aí fora. Não depende da educação e formação do povo. Pelo contrário, a educação e formação do povo dependem de um desenvolvimento regular e crescente.”

Parece-me curioso que consiga isolar “as comunicações, [os] capitais disponíveis, [o] mercado interno actual ou potencial, [as] vantagens no mercado externo, [a] estabilidade social e política, [a] eficácia do Estado e por aí fora” da “educação e formação do povo”. Fica a sensação que, para Pulido Valente, estas últimas são uma espécie de extravagância, um bónus, em última análise inúteis.

Ver o desenvolvimento como uma causa e a educação como um efeito lineariza uma relação que na verdade tudo indica ser circular: o desenvolvimento e as condições materiais alimentam a educação que por sua vez alimenta o desenvolvimento e as condições materiais, etc. Perguntar o que veio primeiro é tão inútil como fazê-lo em relação a ovos e galinhas.

A mudança é cumulativa e lenta. Nem há nada sequer que garanta que é uma melhoria. Apenas que as coisas mudam. O problema de Pulido Valente é uma espécie de imobilismo conservador: toda a mudança lhe parece a degradação artificial de uma condição original. É como o paradoxo de Zenão: Aquiles precisa de percorrer metade da distância que o separa da tartaruga, mas a tartaruga entretanto avança sempre mais um pouco e o processo recomeça. Para Zenão era um paradoxo mas apenas porque não tinha as ferramentas intelectuais para o desfazer. O processo era cumulativo. Repetido uma infinidade de vezes, a acumulação levava Aquiles até à tartaruga. Na verdade, não há paradoxo nenhum.

Já paradoxal quanto baste é todo o acumular de contradições de Pulido Valente, que termina  avisando que, antes de se pensar outra vez na educação como algo útil ao desenvolvimento “seria bom que, por uma vez, [se pensasse] primeiro.” – o que se parece muito com assumir que se calhar até seri útil ter educação e formação antes do resto.

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Filed under: Crítica

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