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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Opacidades, Transparências e Espelhos

Independentemente dos méritos que possa ter ou não a obra de João Louro, o processo através do qual se selecciona artistas para representarem Portugal está-se a tornar ele próprio mais representativo do estado das coisas do que qualquer obra que se possa escolher – incluindo a de Joana Vasconcelos, que como já defendi em outra ocasião (aqui, por exemplo) é o espelho perfeito do poder que nos governa (um transporte público desactivado usado como centro de congressos, loja gurmê e cenário para apresentação de uniformes de equipes de futebol patrocinado por dinheiros público-privados).

No Público desta quinta, depois de um artigo sobre as considerações do artista em relação ao evento, à obra, chega-se nos últimos parágrafos ao que realmente interessa: quem paga, quanto, e quem é o responsável pela selecção. As resposta são curiosas. O artista começa bem, escusando-se “a revelar o orçamento previsto para toda a obra” – já no caso de Vasconcelos era necessário contratar um auditor só para ter uma ideia dessa coisa básica.

Do processo de selecção, só se pode ficar com a boca aberta. O artista enviou por sua iniciativa uma proposta: “Apresentei um currículo, lancei-me para a frente. Acho que muita gente o fez e eu fui mais um dos que fez[.] Por algum motivo a minha proposta, o meu currículo, as minhas obras foram escolhidas em detrimento das outras e portanto é um processo muito simples.”

“Por algum motivo”. Boa. Fiquei esclarecido. E quanto aos outros candidatos? A DGArtes esclarece: “Ao longo dos anos temos recebido alguns artistas a autoproporem-se para Veneza. Um número pouco significativo.” Devem estar a gozar.

O editorial desse mesmo Público opina que “o processo deveria começar pela nomeação de um comissário que depois procederia, com transparência, a uma selecção. Mas a falta de dinheiro parece empurrar a iniciativa para os próprios artistas, que ‘se candidatam’ e acabam por ser aceites porque já conseguiram o essencial: financiamento de mecenas. O Estado acrescenta o resto (que é pouco) e lava daí as mãos.”

Ou seja, estamos perante o esplendores da vida privatizada. Embora se vote num governo para nos representar, esse governo delega essa representação em interesses privados que, em troca de um alívio de impostos, patrocinam e na prática decidem, quem nos representa numa dada área cultural.

Se não há dinheiro para fazer as coisas com transparência, devia-se pura e simplesmente não as fazer: a alternativa é muito evidentemente turva.

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Filed under: Crítica

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