The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Irresponsabilidade

Outro dia, li ou ouvi alguém a chamar irresponsável ao novo Governo grego. Foram eleitos com um mandato muito específico e andam a tentar cumpri-lo. Se o fazem são irresponsáveis perante quem manda na Europa, os credores e a maioria dos colunistas portugueses. Se por acaso se desviam ou aceitam compromissos, esses mesmos colunistas os acusam  de irresponsabilidade para com o seu mandato e para com os seus eleitores. É uma posição impossível essa, de ter que escolher entre duas responsabilidades, onde até pedir uma posição intermédia é considerado uma forma de extremismo.

Já o nosso Governo está em outra posição impossível. Enquanto acusam a Grécia de irresponsabilidade, eles mesmos recusaram o mandato com que foram eleitos, substituindo-o por um completamente distinto. Foram irresponsáveis perante os seus eleitores. Disseram que a situação era má e que portanto eram precisas novas estratégias. Curiosamente, tudo o que alguma vez disseram ou prometeram ou garantiram falhou. Todas as vezes que um deles foi apanhado em falta se escusou com desculpas de circunstãncia. Todas as vezes que um dos seus foi apanhado a fazer o que eles próprios reprovam e reprimem duramente em outros, eles invocam o perdão. Como pode esta gente ser levada a sério quando fala de responsabilidade?

Durante os quatro anos, atribuiram a responsabilidade de tudo e mais alguma coisa ao Governo anterior. Ainda agora o fazem. Dizem que é preciso impedir os Socialistas de destruírem o país. Lembram o Sócrates. O despesismo.

Ora, eu lembro-me de me manifestar contra o Sócrates e não foi por causa do “despesismo” mas por já estar a cortar na cultura e no ensino superior mais do que na altura parecia possível (entretanto piorou). Por causa da precarização geral, que já era perfeitamente visível antes sequer da crise. Por causa da degradação do debate político. Da invisibilidade da maioria das questões que me preocupam. Ou seja: não vejo grande diferença positiva entre o Governo de Sócrates e este Governo. Quando muito vejo uma mudança para pior.

Houve e ainda há uma enorme arrogância intelectual assente em ideias e premissas que já pareciam erradas de início, moralmente e cientificamente, e entretanto foram, uma a uma, demonstradas como sendo perniciosas e falsas. Os exemplos são muitos: as privatizações virtuosas,  a austeridade expansionista, etc. Abandonada a pretensão de ciência, sobra apenas o argumento da força: ou cumprimos ou não nos dão dinheiro. As ideias pouco interessam. Diz-se que afinal o debate não era técnico, científico, mas político. O que significa neste caso a imposição de interesses poderosos (a Alemanha, a banca) sobre tudo o resto. Até isso é uma degradação, agora da ideia de política, porque não é debate nenhum, apenas um totalitarismo cobarde, que pára apenas no momento de se assumir às claras.

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Filed under: Crítica

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