The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Meu Primeiro Anti-Herói

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Não sei em que ano foi. É capaz de ter sido no final dos anos 1970. Eu apanhei uma  infecção dolorosa e febril num ouvido e fui obrigado a estar de cama por uns dias. Foi o meu pai que tratou de mim e não a minha mãe como era habitual. Por alguma, razão, fiz a minha convalescência na Régua e não em Vila Real onde já morávamos na altura. Fiquei num quarto da casa grande da minha Tia-Avó onde nunca tinha dormido, talvez porque fosse mais ensolarado. Com os medicamentos, umas gotas para pôr de tanto em tanto na orelha, o meu pai trouxe-me dois livros. Um era o Como Funciona? que eu adorei, um album grosso com fotografias a cor cheias de grão acompanhadas de gráficos explicando as entranhas de máquinas que muitas das vezes eu não sabia sequer que existiam. Havia de tudo, desde campainhas de porta até reactores nucleares e fornos industriais. Ainda o tenho, com a lombada coberta a fita cola. O outro era O Demónio da Torre Eiffel. Era daquelas histórias que metiam medo quando ainda não se tinha dez anos. Havia mortos inoculados deliberadamente com a peste. Havia perseguições. Ainda por cima, era o segundo volume da série. O meu pai tinha-me tentado com o primeiro no Pão de Açucar em Lisboa, mas eu preferi uma história do Petzi. Entrar assim na história, a meio, apesar do laborioso resumo ao começo, ainda a tornava mais inquietante. O enredo andava à volta de uma estatueta assíria do Demónio pazuzu (que na altura andava na berra porque também tinha aparecido no Exorcista). Uma seita parisiense tentava deitar-lhe a mão por todos os meios possíveis. O que me atraía mais era a justaposição de paisagens melancólicas, quotidiano corriqueiro e mesquinho (incompetência policial, ambição política, traições idiotas) e o sobrenatural numa Paris onde, enquanto se perseguia um assassino vestido de demónio, podia saltar dos arbustos  inesperadamente um tiranossauro. No final, os bons eram obrigados a fugir. O vilão principal ficava com os louros. Era tudo estranhamente amoral e muito diferente de tudo o que eu lia por essa altura.

Filed under: Crítica

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