The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Exposições e activismo

Em Nova Iorque, vi duas exposições sobre activismo. A primeira, numa salinha do City Museum, “pedagógica”, que é como quem diz: documental, com muita informação de apoio, sobre assuntos de contencioso na história da cidade: racismo, feminismo, imigração, ecologia, bicicletas urbanas, religião. Quase tudo  era apresentado de pelo menos dois lados, contra e a favor da imigração, por exemplo. Ou discutindo uma mesquita a ser construída perto do local do World Trade Center. Dava uma visão plural da rua e de quem a usava para reinvindicar.

A outra, Zero Tolerance, ocupando um andar da PS1, era sobre arte e activismo e um falhanço quase completo, tanto pelas obras em si como pelo modo como eram apresentadas, com textos de apoio mínimos, reduzidos a um amontoar de lugares comuns acríticos. As obras, na sua maioria documentando performances de rua acumulavam-se numa cacofonia insuportável. Limitavam-se a reencenações superficiais de manifestações. Em geral eram apresentadas como sendo “fake demonstrations” que em muitos casos serviam para denunciar como a política de rua já não é eficaz – fazendo placards com reivindicações abstractas, genéricas, por exemplo, que ninguém conseguia ler. Já não tenho paciência. Apagar as letras de um cartaz político para denunciar uma perda qualquer de sentido é ser um agente activo desse apagamento. No limite é uma forma de censura. De garantir que a política só entra num espaço de arte contemporânea se for devidamente silenciada.

Por um lado, consolou-me um pouco perceber que as grandes instituições internacionais de arte contemporânea têm tão pouco juízo como as portuguesas quando se trata de arte política. Por outro, deprimiu-me porque não vi nenhuma solução, excepto a mais óbvia: é melhor tratar a arte política como um documento e evitar reencená-la como um “objecto vivo”. Tenho alguma pena de quem acredita que há algum activismo numa pantomina qualquer engendrada por um comissário ou pelo serviço educativo de um museu. Prefiro um documento bem comentado do que toda a experiência circence que é usada para os emudecer.

Mas enfim, há exposições que são como um murro no estomâgo; há exposições que são como uma micose entre dois dedos do pé. Estimulam por irritação.

Filed under: Crítica

One Response

  1. […] em Nova Iorque, praticamente todos os museus que visitei tinham exposições claramente políticas. Duas delas eram dedicadas ao activismo. Outras tinham um ponto de vista político óbvio e com interesse actual: a ocupação israelita; […]

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