The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Nada de novo(s media)

Fui espreitar a Trienal do New Museum, dedicada a novos artistas e, suponho, que a novas obras. Apanhei com óculos de realidade virtual, cenas 3D reproduzidas em pintura a óleo, uma stand-up comediant traduzida para 3D, filmes de animação de morphings de personagens de Anime, esculturas impressas em 3D, teletubbies vestidos de stormtroopers, etc. Parecia o fim dos anos 90, mas agora em HD.

Pelos vistos, o futuro parecia-se bastante com o passado. Lembrou-me os tempos do mestrado, entre 98 e 2001/2. Tal como então, quase toda esta estética dos novos media parece superficial, mais assente em ideias feitas do que numa reflexão eficaz sobre as consequências dos computadores, da internet e do resto. Na altura eram visíveis duas tendências paralelas: uma americana que via a tecnologia de um modo optimista e com os olhos de um insider (gente que trabalhava em sítios como o Mit ou directamente para grandes empresas de hardware e software) e outra europeia que encarava essa tecnologia do lado de fora, como uma importação ou até uma invasão. Enquanto os primeiros viam a ligação entre arte e computadores como uma coisa natural, os segundos tendiam a ver isso como uma forma de deturpação criativa das intenções originais dos fabricantes – mesmo que a intenção original fosse precisamente essa.

Não faço ideia se isto são artistas de há quinze anos atrás a atingirem finalmente algum tipo de visibilidade, circulando por programas de graduação até irem ter finalmente a uma espécie de mainstream nos Estados Unidos – onde finalmente alguém lhes começou a achar piada –, ou se isto é uma espécie de revivalismo, uns Neo Novos Media.

Em 1982, JG Ballard já tinha reparado que a nostalgia por video games, então literalmente um novo media, já ia de vento em popa:

“That’s already begun – you’re getting nostalgia books about video games! One was published last week by Kingsley Amis’s son, Martin Amis, all about his addiction to the early video games. It’s sort of kiysch beyond kitsch – nostalgia, but for five minutes ago, for god’s sake! I don’t know how long video games have been going in the ‘States, but it’s not that long!” – e acrescentava que íamos acabar por ter uma classe de jovens executivos cuja ideia de uma experiência intelectual estimulante seria jogar um jogo de computador com 15 anos.

Ou seja, apesar da qualificação de “novo” (ou se calhar até por causa disso ou pelo mesmos disfarçada por isso) esta é uma área com uma nostalgia estrutural que se arrisca a torná-la conservadora e até reacionária. Se muitas destas obras se assumiam como uma crítica, até essa crítica encarrilava por caminhos já muito trilhados.

Muitos dos novos artistas da trienal vêm de zonas problemáticas e/ou promissoras, da Palestina, de Angola, por exemplo, o que garante desde logo um aroma (embora não mais do que isso) a activismo e política, que se arrisca muito simplesmente a cair na fusão ligeira de duas coisas exóticas, um tecno-orientalismo: a última trienal de arquitectura de Lisboa foi um bom mau exemplo, cheia de maquetes propondo tecnofavelas e de visões de uma Índia de aparência tradicional mas reconstruída com nanotecnologia, etc.

Nem seria mau se isto se limitasse à ficçao especulativa, mas este género de ideias encontram quase sempre utilidade nos novos colonialismos corporativos, glamorizando acções de caridade empresarial em países de terceiro mundo, áreas de conflito, propondo soluções altamente poéticas e irrelaizáveis para problemas cuja primeira solução deveria ser (como eles próprios) política.

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Filed under: Crítica

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