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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Nova Crítica?

Já se tornou comum dizer que a crítica está em crise portanto fico logo com as orelhas espetadas quando alguém consegue argumentar consistentemente o contrário. Só nesta semana, aconteceu duas vezes.

Em primeiro lugar, com “No one cares about art criticism: Advocating for an embodiment of the avant garde as an alternative to capitalism”, de Steve Cottingham, que defende uma crítica de vanguarda, próxima da poesia, da colagem ou da performance. Resumidamente, ele acredita que,se alguma arte ainda consegue ser anti-capitalista ou política, a crítica está paralisada em formatos como a recensão, que se resume a indicar a alguém o que fazer com o seu dinheiro ou o seu tempo livre. Pergunta porque, sendo cada vez menos uma actividade remunerada, ainda insiste a crítica em formatos e estilos de escrita que conotam esse profissionalismo. Dá exemplos e aponta possibilidades.

Em segundo lugar, Gilda Williams também não percebe porque se insiste em dizer que a crítica de arte está em crise, porque nunca se escreveu tanto no mundo da arte, tanto por obrigação burocrática de carreira como simplesmente por causa da internet e das redes sociais. Se os próprios artistas se têm virado regularmente para a escrita, a edição e a publicação, a discussão pública sobre arte também o tem feito, em foruns e formatos cada vez mais imediatos e informais, blogues, twitter, facebook.

Em cada um dos textos, há uma desconfiança explícita da história de arte como modelo único para a crítica. Pessoalmente, tenho as mesmas dúvidas: será que é possível produzir opinião sobre um objecto que não seja obrigatoriamente uma inventariação de precedentes ou inscrição numa tradição, por exemplo? Há também uma desconfiança dos limites éticos e profissionais do crítico: a necessidade de só falar de eventos ou objectos que se viu, quando em muitos casos boa parte da discussão acontece antes sequer do objecto ter sido produzido (Joana Vasconcelos) ou deslocada geograficamente (uma bienal do outro lado do mundo). Enquanto é aceitável receber passivamente toda a barragem discursiva (publicidade, entrevistas, opinião) que antecede e apoia um evento, só se tem legitimidade para lhe responder participando nesse evento – o que não faz grande sentido. Se a mediatização ou a simples discussão pública é inseparável do trabalho nas artes, este género de limites tornam-se artificiais, impossíveis de cumprir.

Por outro lado, as próprias referências da crítica mudam. O crítico académico próximo com um discurso denso que se aproxima da filosofia perde terreno em relação a uma crítica que prefere a informalidade do Novo Jornalismo, a agressividade moral de Sontag, o território a meio caminho entre a ficção e a realidade de David Foster Wallace, de Ballard ou até de Burroughs. A argumentação com base em precendentes históricos ou filosóficos também perde terreno em relação a uma postura que enfatiza o contacto do escritor com aquilo de que fala: dizer que uma crítica é “mera descrição” já não é depreciativo, quando muita da melhor não-ficção e crítica assentam o seu poder nisso mesmo, numa capacidade de descrever articuladamente.

Enfim, revejo-me em muito disto e adorava ser optimista mas se em outros sítios esta nova crítica já vai aparecendo, aqui a história é, como de costume, muito diferente e muito paroquial. Mas pensem: se o novo cinema português (por exemplo) também anda a meio caminho entre o documentário e a ficção ou se nas artes cada vez mais artistas se dedicam a incluir a escrita nas suas obras e performances porque não também uma nova crítica, quando da velha crítica já nem sequer os formatos conseguem satisfazer?

Filed under: Crítica

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