The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

I<3NY

Quinze dias depois, tento-me agarrar ao que vi enquanto lá estive. À textura e cor das ruas. À vegetação acastanhada de fim de Inverno. Aos pássaros novos, que nunca tinha visto antes. Olho para os prédios do Porto e de Gaia, e imagino-os como se fossem mais altos, geometria cubista a pairar lá cima. Comparo o vasto estuário de Lisboa com o do Hudson, pontuado de ilhas, monumentos e pontes, os horizontes que não terminam. Consolo-me a inventariar o mais possível de tudo o que li e vi sobre aquela cidade. Tarefa impossível mas algumas experiências destacam-se.

A primeira vez que “fui” a Brooklyn, por exemplo, a primeira vez que tive consciência da textura daquelas ruas e casas, foi com uma banda desenhada, “Brooklyn Station Terminal Cosmos” de Pierre Christin e Jean Claude Mezières, a segunda parte de uma das mais belas histórias da série Valerian e Laureline. A ida a Brooklyn é breve mas atmosférica, guiada por um velho judeu ortodoxo estudioso da Cabala. Li pela primeira vez sobre as perucas com que as suas mulheres escondiam por tradição os cabelos. Vi-as pela primeira vez em carne e osso a dois passos da casa onde ficámos em Brooklyn. Desde novito, senti uma densidade, uma atmosfera todas as vezes que Mezières desenhava a América e em particular Nova Iorque. Só anos mais tarde soube que o desenhador tinha passado por lá a caminho de um trabalho como cowboy no Utah. Enquanto, ouvia os meus amigos americanos a descreverem a cidade inundada pelo furacão Sandy, não pude deixar de me lembrar de A Cidade das Águas Movediças, onde a grande extensão do estuário tinha uma densidade oblíqua que fazia lembrar as cenas marítimas de Turner.

Senti vontade de terminar finalmente Netherland, de Joseph O’Neill, um livro elegíaco sobre um holandês obcecado por Cricket em Nova Iorque. Confirmei porque deixei de gostar de Paul Auster ao ver uma pilha dos seus livros autografados na Strand. Regressei à cidade caricatural do GTA IV mas pareceu-me pequena, distorcida, uma cidade de pesadelo onde se reconhece aqui e ali qualquer coisa. As ruas eram inclinadas de mais. A entrada do Bronx demasiado pequena. O rio acanhado.

Vi The Taking of Pelham-1-2-3, o original de 1974, e adorei o filme de assalto a um comboio, numa cidade revoltada, mal educada, respondona, com Walter Mathau a tentar (sem muito sucesso) deixar de ser racista, sexista e cínico, com personagens identificados apenas como o Chulo, a Puta, o Homosexual, o Hippie. Por comparação, hoje toda a gente é de uma simpatia formal a toda a prova, mas os nova iorquinos gostam de se ver a si mesmos como duros e cínicos. Da cidade do filme, as ruas e os prédios estão iguais; as pessoas mudaram. Os carros encurtaram-se e arredondaram-se mas sempre que me cruzei com uma antiguidade dos anos 1970 parecia que a realidade se focava mais.

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