The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que não falta é estágios

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Quando discuto com alguém os estágios na universidade, a orientação dos estudos para empregabilidade e para o empreendedorismo, é muito comum responderem-me que é preciso haver espaço para outros pontos de vistas, outros modos de aprender, que nem tudo pode ser investigação pura; é preciso dar uma oportunidade aos estágios, ao empreendedorismo, porque estaria pouco representado dentro da universidade e, calculo, da própria sociedade portuguesa. O argumento é o de reclamar um equilíbrio entre pontos de vista distintos mas na realidade, e como qualquer pessoa que leia jornais ou veja televisão sabe, não há qualquer problema de falta de representação pública, académica dos estágios ou do empreendedorismo. São os estágios e o empreendedorismo que têm o apoio do governo, enquanto as universidades só o obtêm na medida em que se integram dentro deste modelo.

A própria sociedade portuguesa (e não só) já se organiza à volta da ideia de estágio como uma espécie de identidade. Olhando para evolução do concurso de televisão típico, um exemplo óbvio, quase todos os mais populares hoje em dia obedecem ao formato do estágio, uma série de candidatos testados em serviço durante uns meses até sobrar apenas um (The Apprentice, Masterchef, Ídolos, etc.) O prémio? Na maioria dos casos, uma oportunidade. Os concursos onde ainda se oferecem prémios parecem patuscos e arcaicos por comparação. Veja-se o Preço Certo ou A Factura da Sorte. (Do lado do empreendedorismo, temos os Shark Tank.)

Não há qualquer falta de representação desta ideologia na sociedade e nas universidades, que têm dedicado boa parte dos seus magros recursos a averiguarem modos de converter os mais variados campos do saber em empreendedorismo, estágios, inovação, incubadoras, start ups, etc.

E muito do ensino acaba por se colar acriticamente ao que passa por pensamento nestas novas áreas mas não passa de uma espécie de espiritualidade empresarial que sob as mais diversas formas (conferências, livros de auto-ajuda, etc.) apregoa a ideia que conseguir ou não vingar dentro deste ambiente imbecil só depende de uma reconstrução do eu de cada um à imagem destas para-religiões comerciais. Agora, a busca interior é por um emprego.

(imagem via João Drummond)

Update: Dirigindo-me ao potencial salazarista da gramática que esteja a ler este texto (porque o nazismo gramatical já se trivializou), o erro de concordância no título é propositado, vistes? – não sei porquê apeteceu-me.

Filed under: Crítica

3 Responses

  1. tralha diz:

    ” O sistema deve criar serventuários eficientes e acéfalos. É preciso investir em tecnologia e em técnicos e fugir da formação de críticos ou inconformistas. Nos jovens, é preciso criar subliminarmente a impressão da fatalidade gerada pelos novos dias: ou se integram no sistema e o servem, podendo, se conformados, vir a beneficiar razoavelmente daquilo que este pode conceder em termos materiais, ou se é considerado disfuncional, e portanto um marginal, descartável como aliás os objectos de consumo que o próprio candidato vê e compra sistematicamente. “

  2. nazidasssopas diz:

    “> And yes, I’m aware that “most ubermensch man” would translate as “most super man man”, but maybe he is just that manly, okay? >

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