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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A História do Presente

Estava bastante curioso com a história do Design Português que anda a sair com o Público e em particular com o sexto volume que saiu esta semana, dedicado ao design português contemporâneo, aos últimos quinze anos. Das iniciativas feitas sob a chancela do Ano do Design Português, parece-me que é das poucas feitas que se enquadra pacificamente numa iniciativa deste género – que não é uma bienal; esperar-se-ia por exemplo uma reflexão maior em torno do design português em geral.

Tem sido difícil vê-la. Na maioria dos casos porque os eventos não têm uma programação e uma orçamentação exclusivas. Vão buscar dinheiros a uma multiplicidade de instituições e eventos que acabam por condicionar a sua própria programação. A exposição A Liberdade da Imagem no Porto poderia ser com vantagem uma exposição sobre o design na cultura portuguesa se tivesse uma intenção manifesta mais ampla (ser sobre uma década ou sobre o design e a política, por exemplo). Porém, associando-a às comemorações do 25 de Abril, colocava-se uma responsabilidade e um foco desnecessário em cima de um evento que era evidentemente uma visão mais geral. Dispersar a exposição entre sete espaços muito distantes entre si, onde muitas vezes os objectos expostos eram por sua vez espalhados entre colecções já existentes, parecia mais uma vez um compromisso entre as várias instituiçoes envolvidas, e garantia que só mesmo o visitante mais empenhado conseguia completar o circuito.

No caso destes livrinhos sobre a história do design, estão a sair como fascículos do Público, o que assegura a sua distribuição alargada, é verdade, mas num formato estranho para uma comemoração deste alcance com o apoio do Estado, etc. Qualquer evento com este nível dos últimos anos tem produzido calhamaços sobre assuntos e ocasiões bem mais triviais do que a história do design. Mesmo que a distribuição final fosse feita através de um jornal, o carácter fragmentado da obra sublinha mais uma vez o do próprio evento. Tinha bastantes expectativas em relação a esta colecção, e de facto conseguiu produzir um resumo necessário da história do design português, embora num formato relativamente ingrato. Para a quantidade de informação apresentada, poderia (com vantagem  para o leitor) ser condensada num só volume.

A periodicidade tem talvez a única vantagem de fazer da história um folhetim do qual se esperam os próximos capítulos. No facebook, ia-se vendo gente a partilhar fotos dos livros à medida que iam saindo. Chegado ao sexto, começaram as selfies. As fotos e os gritinhos de “Eu apareço! Eu apareço!” Os últimos capítulos dos livros de história, os que se aproximam do presente, são sempre os mais excitantes, porque começam a aparecer caras e coisas conhecidas. Aqui a história deixa de ser só um livro ou um filme, mas passa a ser também um espelho. Começa a ter a ver connosco. Mas isso também tem os seus riscos: falar cedo demais, pedestalizar o trivial, etc. Eu não incluiria muitos dos trabalhos apresentados (o que é natural). Outros só apresentaria com uma contextualização crítica. É estranho ver a polémica empresa Boca do Lobo a ser destacada sem uma referência às suas práticas laborais – apenas um exemplo entre outros possíveis. Mesmo mantendo a concisão, seria útil a uma avaliação futura não isolar as obras das condições em que foram produzidas e do modo como foram recebidas pelo público. É uma lacuna comum das histórias do design que se torna bastante difícil resolver mais tarde.

Para perceber essa recepção, a crítica é um recurso essencial. Usada como documento, regista o que se diz sobre uma obra. Este volume tem uma subsecção dedicada à crítica, fazendo uma visão geral dos críticos, dos blogs, das conferências e da produção teórica. Registam-se os críticos (eu incluído) mas não os seus pontos de vista. No geral, foi uma época bastante politizada e polarizada, não apenas no que diz respeito a manifestações e design de rua, mas nas discussões em torno do próprio papel do design. A subsecção peca também por dar um destaque desproporcionado às conferências Personal Views, que ocupam mais de um terço do texto. Foram um evento essencial mas por opção de programação só muito raramente incluiam designers portugueses ou a exercer em Portugal (não faço distinção; não acho que o design português se limite ao que é feito por portugueses). Condensavam à sua volta os designers de Portugal enquanto público, mas do que esses designers discutiam ou pensavam pouco ou nada se sabia – significativamente, para convocar essa voz, eu próprio sou invocado através de um texto que escrevi para o Público na ocasião. Em termos de debate, foram mais uma influência, permitindo perceber o que acontecia internacionalmente, do que parte integrante.

Enquanto se esperava pelas Personal Views, conversando com os colegas e amigos e ignorando deliberadamente os inimigos percebia-se bem como a comunidade do design português era um mundo pequeno: quem fazia o quê, com quem e como. Os mexericos, as intrigas, a moralidade e a etiqueta. Para quem tem o pé dentro, tudo se sabe ou suspeita, para quem está de fora, nada. O conflito de interesses, real ou imaginado, era um dos temas favoritos. Nesta história deveria ter havido algum cuidado quando se referenciam eventos e objectos onde participa quem escreve os textos ou está ligado directamente no projecto. Acontece bastante vezes e resolvia-se facilmente com uma declaração de interesses.

Filed under: Crítica

One Response

  1. Joana Couto diz:

    Viva Mário,
    Tenho curiosidade, que nomes é que não concorda? Quem é que devia estar? Tb gostei muito deste número 6. Houve alguma pessoa que tenha sido surpresa pela positiva? Obg.

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