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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mau Humor

Não sei se há humoristas de direita ou humoristas de esquerda. De todos os que aparecem na televisão, só me lembro do Ricardo Araújo Pereira e do José Diogo Quintela se terem identificado como sendo de esquerda e de direita, mas não sei se era ironia. Não sei se estavam a fazer uma rábula. Se calhar o José Diogo Quintela estava só a fazer de conta, como o Stephen Colbert. É difícil perceber.

Prefiro pensar que há um humor de esquerda e um humor de direita, tendências que por vezes coexistem na mesma pessoa. Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, é de esquerda quando comenta política mas já me parece de direita quando faz piadas de costumes, de boa educação, sobre o uso da língua portuguesa. Aqui, o comediante é muito conservador. Desde lamber a tampa do iogurte até denunciar quem diz “vistes?” O que, já agora, não é exactamente incorrecto apenas arcaico. É um “vós vistes?” – segunda pessoa do plural do pretérito imperfeito – e não uma má pronúncia de “tu viste?” Mas, lá está, trata-se de “apanhar” um sotaque pouco educado, rural, associado ao interior, etc. O mesmo dos “fiz isto derivado àquilo”, etc.

É só um exemplo. Quase todo o humor de costumes português é classista, tal como a própria sociedade portuguesa. Há racismo, há machismo, há homofobia, sim, mas há sobretudo classismo. É completamente aceitável gozar/discriminar as classes média e baixa. E boa parte do humor ainda se centra, tal como fazia durante o Estado Novo, nas pretensões de mobilidade social: o novo rico; o pobre que se dá ares; a família rica que perdeu as posses mas faz de conta, etc. Desde o Herman até aos Malucos do Riso, passando pela Maria Rueff, é nas questões de classe, mais do que de raça ou sexo, que o humor português se especializa.

É também completamente aceitável gozar com sotaques (que também marcam a classe de origem): o do Porto, o Alentejano, o Açoreano. Curiosamente, na televisão nunca se ouve ninguém gozar com o sotaque de Lisboa – excepção para as Tias e para calões de bairro. A pronúncia de Lisboa, apesar de todos os seus tiques, bastante óbvios para os não-Lisboetas, está quase completamente ausente do humor português. Ninguém goza com ela. Também aqui as relações de classe em Portugal – assentes em relações geográficas entre litoral e interior, Norte e Sul, e tudo isto e Centro – são perfeitamente visíveis.

Este humor joga-se no mesmo plano político que atribui as culpas da crise às famílias que gastam acima das suas posses, que compram a crédito BMWs, plasmas e férias no estrangeiro. Daí que seja particularmente patético ver alguém a dizer que todos os humoristas da televisão e do rádio sãode esquerda; quase todo o humor é profundamente conservador.

Filed under: Crítica

2 Responses

  1. Luís Magalhães diz:

    Não me parece que isso seja exclusivo do humor português. Basta ver o “Little Britain” (aliás, a anos-luz de qualquer coisa alguma vez produzida em Portugal) para ver como o “classismo” também está presente, talvez de forma mais violenta e cruel, no humor inglês, por exemplo.

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