The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Lendo o futuro nas tripas

No dia a seguir aos ingleses terem reeleito com maioria absoluta o governo conservador, o Independent e o Guardian tiveram a mesma ideia. Publicaram guias apenas levemente irónicos para ajudar quem quisesse emigrar  – avise a junta de freguesia, a segurança social, etc. Ao ler as notícias, lembrei-me que o nosso Governo, pouco depois de ter sido eleito, fez exactamente a mesma coisa: não só aconselhou como incentivou o mais que pôde os seus eleitores à emigração.

Pensar nas eleições inglesas é pensar nas nossas. Não é difícil imaginar que os meus conterrâneos acabem por eleger o Passos. A maioria dos que votariam contra ele emigraram. Mas o grosso dos portugueses nem se daria ao trabalho de ir votar e é muito possível que com isso reelejam Passos, Portas e o resto. A maioria absoluta inglesa foi conseguida porque umdois terços dos ingleses ficaram em casa. É pena que o comediante Russell Brand só se tenha arrependido à última da hora de ter apelado de modo tão convincente à abstenção. A piada foi à custa dele.

Circulam todo o tipo de teorias sobre a desgraça inglesa. A Inglaterra tal como um grande animal esventrado presta-se a que os adivinhos do costume lhe leiam o futuro nas tripas. De todo o rol, só me convencem duas narrativas. Uma: os conservadores ingleses afinaram uma austeridade pára-arranca. Aliviam a coisa por uns seis meses antes das eleições. É o suficiente para dar uns cheirinhos de confiança aos eleitores. Depois, volta-se à austeridade até às próximas eleições. A outra: os Trabalhistas foram derrotados de um lado pelos partidos nacionalistas (em particular os da Escócia) e pela sua própria incapacidade de convencer os eleitores que são uma alternativa viável.

O seu drama é o mesmo do PS: não conseguem convencer os idiotas que realmente acreditam na austeridade (há muitos, inclusive à esquerda) que são austeros o suficiente; não conseguem convencer os que já não acreditam na austeridade que são suficientemente críticos. Por cá, a coisa ainda é mais complicada porque temos a Europa a pairar por cima de nós como uma nuvem sombria: não se aplica a austeridade porque funcione mas porque o patrão manda.

Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Demorei um bocado a conseguir o número de não votantes mas já corrigi.

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