The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Harry Potter e o Acordo Ortográfico

Acho o Acordo Ortográfico a melhor peça de literatura portuguesa do século XXI, na medida em que nos representa como povo, país e cultura. Não estou a dizer que representa a nossa língua tal como a falamos, escrevemos – ou sequer queremos falar ou escrever – mas que traz para o domínio da língua aquilo que é a nossa identidade: a disponibilidade para ir cumprindo decisões políticas abstractas, burocráticas, às vezes até danosas, tomadas por uma instância qualquer que mal compreendemos – a Europa, o Governo, etc. Notem que não se trata de cumprir à risca mas de ir cumprindo. Aquilo que nos define como país é portanto um certo kafkianismo trolaró, a disponibilade relutante para sermos alvo das utopias dos outros, neste caso uma literatura conceptual concebida por burocratas e comités que nos comanda como feitiços do Harry Potter ou como o Anel dos Hobbits.

Há uns poucos entusiastas genuínos (claro) mas o que há mais são os que vão cumprindo: discordam, vociferam, transgridem, até ao ponto em que finalmente sabem que é o emprego, o ganha pão ou o financiamento que estão em causa. Concorre-se a uma bolsa, por exemplo, e fica-se com medo que, apesar do currículo, do projecto e das cartas de recomendação não nos aceitem aquilo porque usa a ortografia antiga. O Acordo incluiu portanto a linguagem na mesma área onde já estavam a política e a economia: sempre que se usa uma palavra, tal como se compra um carro ou uma casa ou se vota em António Costa, fica-se a pairar entre o medo, o conformismo e a indignação.

Não se percebe porque somos obrigados a cumprir o que mais ninguém cumpre, mas ainda assim considera-se tudo o que de pior pode acontecer se não cumprirmos. Pode ser que o tipo que não gosta de nós, o use para foder uma avaliação de desempenho – não pode pegar por mais nada, pois não? Ai, que escreveu “correcto”, eu até nem queria, eu até percebo, mas sabe como é, não posso fazer nada, é uma coisa que vem de cima.

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Mário Moura em Occidente, 1889
Augusto José em Occidente, 1889
Francisco Choupina em No Terraço
Marco em Onde
Candeias em Boletins

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: