The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Lixo

Mudei-me com os meus pais para Vila Real no fim da década de 1970. Por comparação com Lisboa, onde nasci, ou até Coimbra, onde passava o Verão com os meus avós, era um sítio pequeno e rural. Em pleno centro da cidade ainda havia vinhas, vacas e rebanhos de cabras. Desde essa altura, cresceu torrencialmente e sem grandes preocupações.

Quando cheguei, o Circuito, uma circunvalação de sete quilómetros de perímetro onde no Verão se realizavam ruidosas provas de automóveis, limitava pastos, bosques e quintinhas. Entretanto encheu-se de casas, vivendas e centros comerciais. Em pleno centro do Circuito, a ocupar o que já foi uma das zonas mais bonitas da cidade, está um dos maiores e mais feios centros comerciais do país. Acabado de falir, está virado para um enorme hotel abandonado desde os anos 1980, coberto de musgo e grafitti.

Quando vim estudar para o Porto em 1989 fui-me distanciando de Vila Real. Só há muito pouco tempo descobri que tinha alguma nostalgia por aquilo. Nem tanto pelo que lá passei mas pelo que não sei e vou descobrindo. Quase todas as histórias que vou apanhando são vestígios de ambição, empreendedorismo e falhanço.

No vídeo acima fala-se da primeira central eléctrica de iluminação pública do país, agora uma ruína nos desfiladeiros do rio Corgo, mesmo abaixo do centro da cidade. Não se pode dizer que Vila Real, Trás-os-Montes, ou até o país não tenham tentado inovar, empreender ou o que seja, mas o resultado sempre foi um acumular de ruínas, traquitanas, descartados levianamente em favor do próximo brinquedo, lixo preso nos arbustos à beira do rio.

Passear pelas ruínas de Vila Real tem-me lembrado o Anjo da História de Benjamin:

“Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Temos olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas.O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés.

Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”

O texto diz-nos que a fazer a história é difícil. É como ter a casa a arder e ter que escolher à pressa e sem aviso uma braçada de coisas para levar, arriscando talvez a vida por isso. Para o historiador o mundo está sempre a arder num longo braseiro de onde muito poucas coisas se salvam.

Filed under: Crítica

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