The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Original é usar a palavra “original” na mesma frase que Câmara Municipal

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Não deve haver maneira mais simples e barata para uma instituição pública mostrar obra do que mudar de imagem gráfica. Não é preciso construir nada; não é preciso fazer muita coisa e tudo fica diferente. Aliás, é preciso fazer cada vez menos: o próprio acto de desvelar uma nova identidade é um acontecimento que pode ser ordenhado durante meses. Entrevista-se o designer antes, durante e depois. Faz-se umas conferências. Foi esse o modelo de Sagmeister na Casa da Música. Não se trata de ter feito escola, simplesmente de se perceber que não é só vender o logo mas tudo aquilo pode ser um evento. E o evento é a maneira mais simples e barata de mostrar trabalho. O que antigamente se resolvia discretamente agora é público, tem um cartaz, um site e um beberete.

A nova identidade da Câmara do Porto tentou isso desde o primeiro momento e desde o primeiro momento se viu em aflições. Uns dias antes de ser revelada, um dos outros três concorrentes do concurso decidiu revelar a sua, colocando uma pressão acrescida sobre a escolhida. Deu discussão.

Agora, esta semana, mais discussão ainda, quando se descobriu uma imagem alemã quase igual, incluindo até um ponto final estratégico. O site do projecto alemão, que se podia verificar facilmente ser posterior, foi tirado rapidamente do ar. Entretanto apareceram também exemplos com grafismos semelhantes, de uma escola de verão em Praga (feito antes), de uma identidade para a cidade de Nova Iorque, de uma cidade na Rússia. Arrisco que aqui pode entrar um grande “etc.”

A identidade alemã, “fair.kiez”, uma campanha para promover um turismo bem comportado,tinha bastantes pontos em comum com a do Porto – o sinal de pontuação usado como branding, a colocação do texto sobre a textura modular formada por ícones. Mas só quem não esteve atento ao design produzido nos últimos anos podia considerar originais o desenho dos ícones, assim como a cor azul usada. É um estilo ou uma moda.

É habitual os designers gráficos terem relaçoes ambivalentes mas extremas em relação a modas. Se são adeptos de uma, defendem-na como se fosse uma lei da física ou a solução para a fome no mundo. Não é só uma estratégia formal mas torna-se numa filosofia, numa ideologia e numa religião. Há uns anos um amigo meu ficava de boca aberta quando começou a usar molduras rectangulares com um canto cortado, semelhantes aos cartões de telemóvel, para tudo e mais alguma coisa. Garantia que vinha resolver uma série de problemas de composição. Onde isso já vai.

Quem não é adepto, abana a cabeça em vão a todo aquele exército de zombies de olhos vidrados, a fazer em coro a mesma coisa estúpida. Se for um pouco mais velho, é provável que, enquanto abana a cabeça, continue a produzir trabalho no estilo imediatamente anterior. Quem acha que os anos oitenta e noventa já passaram é porque não convive muito com designers gráficos.

Tudo isto para dizer que, se um estilo gráfico chega ao ponto de identificar um governo local ou nacional é porque atingiu o seu pico. Pode-se argumentar que a Câmara do Porto poderia ter escolhido uma imagem mais “edgy”. Podia ir buscá-la ao design mais experimental que em geral trabalha para os clientes igualmente mais extremos: as artes, a música, a vida nocturna, o grafitti (ha ha). Mas uma instituição camarária não precisa de ser extremamente fresca, só precisa de ser fresca o suficiente – sucedendo a Rui Rio, não é preciso muito para parecer fantástico.

O processo não tem nada de novo. Quem se consiga lembrar das últimas imagens da câmara e fizer um esforço para as integrar no que se fazia na época, há-de admitir que nenhuma prima pela originalidade. A da esquerda, por exemplo, fazia parte daquela primeira onda da logotipização das instituições públicas quando ainda não se sabia muito bem o que representar portanto punha-se a fachada da sede. Na segunda, já tiveram a coragem de pôr outra coisa qualquer, embora dentro de uma elipse (que na altura já era a maneira mais cansativa com que um designer podia enquadrar um logo). Agora, temos um sistema modular de iconezinhos lineares combináveis. Lembrem-se que a outra proposta conhecida para o mesmo trabalho era um sistema modular de iconezinhos lineares combináveis.

A nova imagem datará tão depressa como as antigas. Talvez daqui a uns cinquenta anos se ache qualquer uma delas típica da sua época sem que isso seja um problema. Não tenham ilusões: a função do trabalho de um designer não é a originalidade absoluta mas produzir algo que se enquadra na sua época. Até o que é considerado um estilo intemporal muda regularmente com os anos.

A originalidade absoluta, extrema, interessa a pouquíssima gente.

Filed under: Crítica

5 Responses

  1. Originalidade absoluta só mesmo a viver isolado sem convivência, porque vivendo em sociedade, a influência é inevitável.

    Bater na mesma teclar é “denunciar” esta religião gráfica que insiste em adaptar os projectos ao minimalismo geométrico. Não era suposto adaptar estilos gráficos a cada projectos e respectivas necessidades?

    Parece que se empurra a mesma bíblia para diferentes tipos de pessoas e diferentes tipos de necessidades.. Já chega, não?

  2. luix diz:

    depois da bandeira e do hino…os países agora também tem uma fonte oficial…chegamos ao pico?
    View story at Medium.com

    • O pico é pais ter exactamente a mesma identidade pública que uma empresa. E sim, já lá estamos

    • Duarte diz:

      Assisti de perto à escolha de uma solução idêntica para o novo logo de uma instituição pública. Raramente foi referido a palavra “logo”, em detrimento da ” marca”, que agora tornou-se uma tendência e é utilizada a torto e a direito, referindo-se a um país, uma cidade, etc. Pode ser vista apenas como “o ar dos tempos” mas não creio…se nos lembrarmos que o uso generalizado do nif está a substituir o BI, é a transformação de uma sociedade em que a ideia de cidadania é substituída por a de consumidor, ou se quisermos ser mais radicais é a aplicação de um programa ideológico que visa transformar radicalmente a sociedade.

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