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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que acho neste momento sobre concursos de design

Ontem, chegou-me através do facebook a notícia que abriu um concurso para a concepção de um logotipo para o ministério público. Prémio mil euros. Acho pouco. Há uns anos, na famosa bronca do centenário da república eram três mil pelo logotipo. Já parecia pouco na altura, sobretudo em relação aos 180.000 cobrados pelo estúdio do Henrique Cayatte pela sua aplicação.

Depois desse triste exemplo, quando vejo um valor como este para uma coisa tão próxima do governo, fico sempre a imaginar que existe escondido na sombra um mega-atelier de design que vive da aplicação (não sujeita a concurso) do logo resultante do concurso público. Havia todo um ecossistema que se alimentava do concurso público: o Centro Português de Design que organizava o concurso e ateliers de design com contactos mas fora de moda que se encarregavam de ficar com a parte lucrativa do trabalhos. As migalhas eram esfareladas democraticamente sobre os jovens, os esperançosos, etc.

Agora, que se faz gala de não haver dinheiro para essas coisas, desconfio que a única razão pela qual ainda se encomendam logotipos pelas bandas do governo é porque não há maneira mais simples de sublinhar a eficiência “empresarial” de um organismo público do que fazer-lhe um logo. Para sublinhar ainda mais essa natureza empresarial compra-se um logo da mesma maneira que uma empresa contrataria um designer: põem-se uns milhares de designers a trabalhar no mesmo projecto e escolhe-se o melhor. Que todos os designers menos um estejam a deitar o seu tempo à rua, não incomoda absolutamente ninguém. Cada concurso deste género é um estágio não remunerado à distância. Feito no aconchego da casa de cada um.

Naturalmente, a melhor maneira de fazer um concurso deste género seria avaliar os currículos e os portfolios dos designers envolvidos. Perceber se têm a hipótese de fazer bem o trabalho. Escolher uma dezena ou menos e pedir-lhes uma proposta provisória, pagando-lhes um x pelo incómodo. Dessas escolhia-se a proposta melhor. Assim, ninguém trabalhava em vão.

Mas para isso acontecer seria necessário algum respeito pelo trabalho, e derivado disso uma competência que desapareceu quase completamente do mercado: a capacidade e a responsabilidade por parte de quem contracta de escolher alguém para um serviço. De escolher num tempo razoável, demorando menos de um mês, com base em informação incompleta. Fala-se muito das competências que alguém deve ter quando vai a uma entrevista de emprego mas, significativamente, ninguém fala das competências que alguém deve ter para a fazer.

Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Humberto diz:

    Devo dizer que o valor do concurso para o centenário (foi em 2008) não foi de três mas de cinco mil euros e que acabou por não se concretizar porque o projecto foi adjudicado directamente a um atelier pelo dobro do preço. Nem sei o que é mais relutante, se a efectiva anulação do concurso para beneficiar directamente grupos e/ou pessoas se a imoral adjudicação milionária das aplicações ao Cayatte. O que é certo é que uma das aplicações foi um website execrável adjudicado em cerca de 90 mil euros, totalmente construido em drupal, bastante inconsistente graficamente o que poderá querer dizer que não existiu provavelmente a atenção e cuidado devidos ao projecto, não obstante do valor. Recordo-me da Comunidade de Designers efectuar um alarido sobre o assunto ao qual foi respondido que o projecto estaria ainda em fase inicial de construção. Claro que nunca foi remodelado e nem poderia ser uma vez que Cayatte foi contratado devido ao nome que ostenta e o projecto mal construído porque apenas existiu para favorecimentos pessoais, sem o minimo respeito pela comunidade de designers.

  2. Pedro Semedo diz:

    Diz-se que o Ministério Público é “uma coisa tão próxima do governo”. Não é. Há quase 300 anos teorizou-se a separação de poderes (executivo, legislativo, judicial) e desde então, um após outro, os países têm adoptado esse princípio na sua organização política. Portugal também. O Ministério Público inscreve-se no Poder Judicial e o Governo no Executivo. Portanto, não são nada próximos um do outro. Isto é básico.

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