The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Poder

Quanto ao papel do artista profissional? Não tenho dúvidas que ele é treinado e/ou afinado para representar o poder. Então e os que contestam, os que se põem à margem, os que fazem arte pela arte? O erro aqui é pensar no poder como uma coisa monolítica. Mesmo numa sociedade totalitária, há vários tipos de poder, que se opõem, apoiam, etc. Numa sociedade democrática, idealmente haverá a necessidade de representar diversos tipos de identidades, experiências, reinvindicações, valores, etc. Por defeito, o artista está afinado para representar o poder económico, produzindo obras que podem circular o mais facilmente possível como mercadorias, tendo como ambição a consagração de representar o Estado.

Há uma crença, na verdade um dogma, que o artista se deve manter afastado do poder sob pena de ficar associado a um determinado lider, doutrina, etc. Fico sempre com a ideia que isso só serve para garantir que a obra, sendo políticamente neutra, pode ser consumida mais facilmente como mercadoria. Ou seja, a arte pela arte é uma espécie de deontologia da arte enquanto prática comercial – o “cliente tem sempre razão” disfarçado debaixo da “autonomia do artista”. E, se virmos a arte pela arte pelos olhos de uma crítica marxista, percebemos que o que parecem decisões formais ou iconográficas são sempre também decisões bastante pragmáticas na relação com um mercado, assegurando a circulação da obra, etc.

Mas esta deontologia do artista assume que ele tem a última palavra a dizer sobre o destino da sua obra, quando na verdade ela é disputada/interpretada desde o primeiro momento. A obra mais panfletária pode sobreviver enquanto objecto puramente formalista e vice-verso. Uma das funções da crítica e da história de arte é precisamente este género de reinterpretação. Dizer como uma pintura religiosa ainda tem valor hoje em dia, etc. Trata-se de subtilmente ir acrescentando valores enquanto se enuncia que se procura um valor original – que na verdade é sempre múltiplo, etc.

Daí que não faça a mínima diferença se o artista se mantém afastado ou não do poder. É o mesmo.

Filed under: Crítica

7 Responses

  1. Coiso diz:

    Não, não é o mesmo. A intenção é diferente. E a intenção faz toda a diferença. cumps.

  2. Luís Magalhães diz:

    Coitado do pobre do artista! E os outros (designers, ilustradores, músicos, cineastas, empreiteiros, empregados de café, professores, futebolistas, filósofos, camionistas, etc), que é deles?

  3. mercadorias de hoje diz:

    História de nenhum proveito e exemplo

    http://www.pinceladas-fms.com.br/goya2.htm

  4. arrogância intencional diz:

    How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb

    http://boingboing.net/2010/10/05/hunter-s-thompsons-1.html

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