The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Privatizações da alma

Tem havido um monte de privatizações óbvias, outras menos evidentes. Já nos habituamos a elas de tal modo que já as vemos como naturais. Nem as vemos. Para mim, a mais evidente de todas é a privatização da imagem de órgãos públicos. Até há bem pouco tempo, uma ou duas décadas, ainda era escandaloso para a maioria das pessoas que um Governo contratasse um designer para tratar da sua imagem. Ainda não se tinha substituído o brasão, selo ou emblema por um logótipo. Ou seja, ainda não se tinha assumido que uma insituição pública se deveria apresentar ao mundo do mesmo modo que uma empresa. Mas há outras: o mecenato, por exemplo. Não se trata, como tantas vezes é dado a entender, de um presente desinteressado. Em troca de um investimento nas artes, perdoa-se um x de impostos a gente rica. Ou seja, em vez de um investimento público, dependente de uma decisão feita por representantes eleitos, delega-se essa decisão em privados e ainda por cima perdem-se impostos com isso. Não me interessa uma arte patrocinada exclusivamente patrocinada por bancos ou supermercados. Tende a ser conservadora, formalista e silenciosa.

Em torno desta cultura de mecenato, também aconteceu outra privatização subtil. Tende-se a eliminar, subalternizar e despolitizar as instâncias de poder democráticas substituindo-as por mediadores cujo principal talento é garantir e administrar patrocínios e apoios aos seus próprios eventos: Joanas Vasconcelos, Gutas Moura Guedes, etc. São os projectos supostamente já financiados destas pessoas que atraem o financiamento ad hoc do Estado, sem concurso, sem qualquer avaliação crítica, política, etc. Ou seja, quem já tem meios privados, recebe o dinheiro público. Tudo o resto, ou se integra nestes insufláveis inflacionados, em geral pagando a participação do próprio bolso em troca de visibilidade, ou vai morrendo.

É significativo que se desvalorizem as críticas a estas políticas, seus resultados ou protagonistas, como partindo de gente ressabiada, invejosa, porque ficou de fora. Mas quase toda a gente – criadores, público – fica sistematicamente de fora, seja do apoio, seja do próprio interesse por estas coisas. Não nos dizem respeito, excepto quando se trata de as pagarmos, seja através de impostos, seja através de contas da luz privatizadas ou de resgates bancários feitos à custa de investimento público (impostos de novo).

São coisas deliberadamente concebidas para excluir o maior número de pessoas dos seus processo de decisão. Não é falta de transparência, porque isso implicaria que assumem uma responsabilidade para com o público, mas simplesmente uma privatização da decisão. Para compensar por esta inacessibilidade, refugiam-se no “acessível”, no “popular”, no “light”, nos símbolos fáceis, nos chavões, que toda a gente compreende. Tapando a opacidade do processo, um camuflado de Galos de Barcelos, de rendas de bilros, de design em cortiça, com azulejos, etc.

Filed under: Crítica

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