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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O limite da gentrificação

Para mim o limite da gentrificação no Porto ficava na Rua D. João IV. Vindo do centro, dos bares, dos hostels, das esplanadas, de repente chegava-se lá e tudo parava. Entrava-se num Porto mais antigo, um enclave dos anos noventa entre as Antas e as fontainhas com o epicentro em Campanhã: mini-preços delapidados, ilhas porta sim, porta não, os gunas, as velhotas a arrastar carrinhos de compras ao xadrez. Até os autocarros parecia que ficavam laranja como dantes.

Agora, começaram a renovar pisos térreos na Rodrigues de Freitas. Descobri que a gentrificação tem um cheiro: serradura. Até há uns anos, renovar era alúminio. Agora é madeira torneada. Olha-se lá para dentro e depois da fachada apainelada de madeira ainda crua, um grande recinto de granito à vista, com desníveis, o que significa que se demoliram um monte de paredes e revestimentos em nome da “autenticidade”.

Acho que foi o cheiro da serradura que me fez atingir também o limite da gentrificação: de um momento para o outro deixei de acreditar nela. Aquilo que se passa no Porto não é gentrificação. Tenho que começar a deixar de usar esse termo para o descrever. Gentrificar significa muito literalmente enobrecer ou aburguesar: subir a classe de uma zona. Substituem-se pobres por artistas, em seguida pela classe média, e se a coisa funciona por ricos a sério.

Não me parece que seja isso que acontece no Porto. Não se está a substituir uma classe por outra, mas a substituir um modo de vida, um modo de habitar, por um uso muito distinto, que tem muito pouco a ver com viver. O que se passa no Porto é uma consequência da transformação quase total do espaço numa forma de mercadoria. Dantes a especulação imobiliária era uma coisa lenta, à qual só tinham acesso os ricos. Agora tem uma escala micro, ao nível do sofá alugado por umas horas. Graças ao AirBnB, qualquer metro quadrado pode ser posto a render modularmente.

É ingénuo pensar que esta mercantilização total do espaço não é uma mercantilização total da vida. Lembrem-se daquele anúncio da OLX onde clicar num objecto transforma-o numa pilha cadente de moedas. Agora, há quarteirões gentrificados em Nova Iorque que se tornaram tão caros que, por baixo dos apartamentos de luxo, as mesmas lojas que contribuiram para subir os preços são obrigadas a fechar porque já não podem pagar as rendas. Primeiros andares entaipados; daí para cima, apartamentos fechados que foram comprados para render. Antes da crise, havia bairros inteiras de prédios novos para venda nos arredores de Lisboa e do Porto. Vazios ou quase. Mercadoria quase em forma de casa.

O mesmo se pode dizer dos cafés, todos autênticos e todos iguais, das esplanadas, dos hostels, do resto. Da nova classe de jovens profissionais com uma hipoteca que regressam para casa dos pais porque alugaram a casa no AirBnB.

Filed under: Crítica

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