The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Debaixo do cubo branco a praia?

Da polémica que envolve Museu do Chiado e Serralves, já se disse quase tudo. Um resumo rapido: o Secretário de Estado da Cultura prometeu o mesmo espólio a uma instituição e deu-o a outra, deu o dito por não dito. Ainda assim, ninguém o consegue acusar de incoerência – continua a exercer o seu cargo tão mal como quando começou.

Os argumentos que se esgrimem de cada lado são os mais variados, desde a coerência programática ao precedente histórico e legal, até à descentralização, ao Porto vs. Lisboa, para além das inevitáveis intrigas, contagem de espingardas, etc. É interessante, discutem-se opções de curadoria em público como se fosse futebol. Quem me dera que fosse sempre assim.

Mas, mais interessante ainda, há um pormenor que não foi muito comentado: a manifestação dos artistas e curadores a boicotarem a inauguração do Museu do Chiado. Interessa-me porque sou um nerd das manifestações. Coleccionava-as, se pudesse. E esta é das raras, artistas a manifestarem-se. Não aconteceu muito ou quase nada durante toda esta crise. Vi artistas em manifestações gerais, mas numa manifestação pela arte contemporânea? Isso, meus caros, é inédito.

Mais inédito ainda, se virmos que não é exactamente um assunto de matar ou morrer. O espólio do Sec não está em perigo. Não é como o Crivelli ou os Mirós. Não vai desaparecer. Nenhuma das duas instituições vai desaparecer. Aliás, o Mnac até foi ampliado. Pode-se argumentar que esta trapalhada foi a gota de água, que finalmente as pessoas perderam a paciência com as políticas culturais deste governo, mas como gota de água, é uma gota de água cheia de significado. Um millieu que não se mobilizou para praticamente nada agita-se agora em torno de um problema de curadoria, de uma guerra de curadores, directores, instituições. Ilustra bem as prioridades, marca com um grande X o local onde se concentra o poder do mundo da arte. Já há uns anos tinha dito que os artistas só se iam mobilizar quando os curadores se mexessem, e este caso só o demonstra.

Tem sido um debate intelectualmente estimulante mas nunca crucial. Era o tipo de discussão que devia ser rotineira. O que seria crucial? Alguém, a dada altura na discussão, disse que se certa instituição queria apoiar os artistas contemporâneos devia era comprar obras de artistas vivos. Uma rica ideia. Ora, na grande maioria das insituições portuguesas, o mais comum é pagar-se os custos de produção e o artista trabalhar de graça. É um meio muito precário, etc. E as instituições são subfinanciadas, é verdade, quase só conseguem pagar às suas equipas, etc. Mas quase ninguém paga aos artistas. É curioso que já se considere isso como um mal necessário e se passe directamente ao que (evidentemente) interessa.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. A manifestação foi uma forma dos artistas ( e não só) demonstrarem ao “responsável da pasta” o seu descontentamento, relativamente à falta de acção política relativamente ao Sector Cultural (bem… e não só…).

    Como o Mário refere, de facto, a “trapalhada” foi a gota de água e também é certo que os artistas, tal como a maioria de outros profissionais em diferentes sectores de actividade, apenas se manifestam, quando o problema lhes bate à porta (em geral, pois existem sempre excepções).
    Mas isso acontece, porque o ser humano é egoísta por natureza e não é o curso superior que o eleva em espírito – ou adquire por hábitos de educação praticados pela família e ao longo da vida, ou então dificilmente viverá de outra forma.
    Se houvesse como classificar um tipo Português com “medo de existir” (à lá José Gil), claramente identificava o Artista.

    É verdade que foram as palavras de certos curadores da nossa praça que ajudaram a mobilizar alguns artistas; ou a dar-lhes motivação para não terem medo de ir em frente; mas também é certo que esses curadores (alguns) e também muitos artistas distintos, também não apareceram na manifestação. Diria que para além daqueles dois ou três artistas que se vão manifestando sempre que existem manifestações em defesa dos direitos dos cidadãos, se juntaram mais alguns: uns porque estão contra a (falta) de política do sector cultural, outros por apoio pessoal ao David Santos, outros porque…
    E contrariamente ao noticiado pela imprensa escrita, não seriam uma centena, mas talvez metade, 50, o número de pessoas que se manifestaram (e estou a majorar, pois podiam nem ser tantas – pelo ritmo dos cumprimentos e pelo número de pequenos grupos que se foram formando, seria um número mais próximo de 40). Foi como ir à inauguração, sem o ir – são sempre os mesmos.

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