The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Uma segunda opinião, se faz favor

Quando ouvi falar da demissão do David Santos e li as primeiras notícias, a minha reacção foi de princípio: uma colecção pública devia ficar num Museu Nacional. Com o desenrolar da polémica, lendo o que cada lado ia escrevendo, a minha posição tornou-se mais complexa – que é o que costuma acontecer nas boas discussões públicas e nas melhores polémicas; é raro mudar-se de opinião mas os nossos pontos de vista são postos à prova e obrigados a refinarem-se de encontro a ideias diferentes e/ou opostas.

Neste caso, se por um lado acredito que o que é público deve ser tutelado por organismos o mais públicos possível, e que portanto um museu nacional é preferível a uma fundação para ter uma colecção pública, também percebo que protocolos e contratos devem ser cumpridos. Se é razoável que o Museu do Chiado perca a paciência por uma Secretaria de Estado mudar de ideias no espaço de meses, deve-se esperar uma reacção idêntica quando um protocolo de trinta anos é cancelado antes do tempo.

Quanto ao resto: se a fundação fez queixinha ao Primeiro Ministro ou se o Museu Nacional assobiou para que artistas e curadores viessem fazer pressão, é colorido mas pouco relevante, excepto como demonstração que, nestas áreas, amigos e influência valem muito. Não é novidade nenhuma. Toda a gente sabe.

Que se diga que apareceu de repente bom jornalismo, quando habitualmente não se vê nada, também soa mal. O bom jornalismo é um estado, uma condição mais ou menos regular. Vai-se tendo. Quando aparece jornalismo mais agressivo e empenhado para desaparecer logo a seguir, a pergunta que se faz é, inevitavelmente, porquê agora? Porquê este caso em particular?

Digo-o mais uma vez: este é um problema muito literal de curadoria – usando a palavra no seu sentido clássico: a gestão de uma colecção. É um problema de gestores, de direcções, de patrões, de instituições de grandes dimensões. Não admira que movimente recursos, mas não se caia no erro de acreditar que é subversivo ou contra-corrente. Não resolve ou raspa sequer nos problemas quotidianos da cultura portuguesa. Até podia resolver, mas só os piora.

Defende-se que esta colecção fique num museu público mas entretanto descredibiliza-se a tutela pública desta colecção ao longo dos anos. A ideia é talvez dar a entender que ninguém percebe muito bem se dado objecto “é” de Serralves, ou do Iac ou do Chiado. O efeito é desacreditar o que é público. É isso que fica nas caixas de comentários destes artigos: o dinheiro desbaratado pelo Estado, primeiro a comprar arte, depois a administrá-la mal e finalmente a cedê-la a privados. Culpado por ter cão e culpado por não ter.

Esta foi uma colecção começada como estímulo económico ao comércio da arte, teria corrido melhor se tivesse sido também um estímulo à sua conservação ou à sua criação – um pouco mais de dinheiro público bem aplicado permitiria ter mais e melhores técnicos, e mais e melhores artistas. Mas agora tudo o que é estímulo público ainda ficou mais mal visto.

E fica uma ideia completamente territorial das instituições, pequenos feudos rezingões incapazes de colaboração entre si. Isto num país que uma furgoneta cheia de obras de arte pode percorrer de uma ponta à outra em meio-dia. Suponho que todas as vezes que estive sentado em conferências a ouvir gabar museus organizados em rede mais valia ter estado a ver filmes de ficção científica. Eu adorava que o património público fosse administrado por uma destas redes. Acredito que haja todo o tipo de contra-argumentos contra isso pelas pessoas sérias que conhecem bem o meio. Vendo o modo como esta polémica tem sido gerida, acho que preferia ouvir uma segunda opinião.

Filed under: Crítica

3 Responses

  1. m0rph3u diz:

    Fui acompanhando as várias notícias e comentários até ter curiosidade suficiente (e coragem) de ler o que ficou redigido em Decreto Lei.
    Percebi então que em 1989 havia uma ideia mais clara do que se queria fazer com a Colecção SEC e até como as entidades museológicas deveriam ficar organizadas (ver http://www.serralves.pt/fotos/editor2/dl240-a.89.pdf).
    Para mim é bastante clara a visão do que é a Fundação de Serralves e os seus propósitos – ser um MoMA português. Uma instituição mais ambiciosa do que seria um Museu Nacional, que agrega tanto o Estado como entidades privadas e que de certa forma não fica limitada às burocracias e vontades das mudanças governativas.
    O Estado jamais conseguiria por si mesmo criar um Museu Nacional com as características de Serralves, tal como nunca o fez. Serralves foi a primeira PPP cultural e o que é certo é que tem tido resultados.
    O que está mal, na minha opinião, foi ter-se deixado que o Museu do Chiado fosse denominado Museu de Arte Contemporânea, quando na realidade não tinha (nem tem) condições físicas, nem orçamentais, para ser o que se desejaria de um Museu de Arte Contemporânea.
    Seria muito mais desejável que se assumisse sim, como um muito bom Museu de Arte Moderna colmatando uma falha museológica que não cobre objectivamente este período da História de Arte.
    Já o referi num comentário, mas repito, que entendo o lado glamoroso da Arte Contemporânea – nomeadamente na criação de público (que normalmente são os próprios artistas, curadores e outras pessoas ligadas à Arte), mas um Museu tem de ser mais que viver da “espuma dos dias” e cumprir uma função.
    Dei como exemplo o MNAA, que tendo uma colecção “pré-moderna”, não tem baixado os braços e tem conseguido boa afluência de públicos criando ou ” comprando” exposições, mas sobretudo o que fica é um “Museu vivo” e bastante activo.
    Apesar de ser de Lisboa, não me incomodo nada que o Museu de Arte Contemporânea seja no Porto, até porque (e foi uma das premissas que originou Serralves), a Gulbenkian, na altura; mais o Museu Berardo, actualmente também expõem Arte Contemporânea.
    O Miguel Von Hafe Pérez até faz referência a outro detalhe, não menos importante, que é o facto da Colecção da ex-Fundação Ellipse se encontrar fechada perto de Lisboa e de ninguém abordar o assunto.
    Sabemos que em Serralves, as obras SEC, mais ou menos expostas, têm condições de conservação, mas sobre está outra Colecção, pouco ou nada se sabe.
    Vamos vendo algumas delas resgatadas por Pedro Lapa e inseridas no Berardo (por vezes incorrectamente integradas na chamada Exposição Colecção Berardo, mas isto é outro pormenor).
    Entendo a visão que David Santos quis para o Chiado, mas de facto o problema só existe na falta de organização e correcta denominação dos Museus Nacionais.
    E concordo com a visão da furgonetas.
    Se o Estado é um dos principais “accionistas” de Serralves e um dos maiores depositadores de obras no que inapropriadamente denomina de sua Colecção (aqui estou de acordo com os críticos, pois obras em depósito não são da Fundação; tal como o dinheiro num banco, também não é do banco, mas sim dos depositadores), então devia ser o principal promotor dessa possível “rede” de museus, promovendo interacção entre eles e providenciando condições, para que as obras pudessem ser estudadas e correctamente tratadas.
    Mas imagino que criar políticas governativas para melhor organizar o sector (criando eficiência), seja mais aborrecido que cortar umas fitas por aí…
    No final de tudo, apenas fica uma grande trapalhada, que em vez de ajudar a regular a situação piorou-a.

  2. João diz:

    Caro Mário Moura,
    além de tudo o que enumera e que o leva a concluir que preferia ouvir uma segunda opinião, ainda seria desejável que aparecesse alguém com uma terceira ideia sobre o que, não neste momento mas a médio/longo prazo, deveria ser feito à dita coleção.
    Uma coleção destas, num país com enormes lacunas culturais que se verificam obviamente dentro dos museus que a disputam, mas que se observa mais profundamente no “resto” do território, que normalmente não é bafejado com a “sorte” de poder ver um Henrique Pousão, um Vespeira ou Fernando Lemos ou uma Helena Almeida, devia estar mesmo era sob a tutela do estado como acontece com instituições estatais de chafaricas subdesenvolvidas como o Reino Unido, que tem uma coisa que se chama British Council. O British Council tem uma coleção, excelente diga-se, cujo inventário está disponível aqui: http://visualarts.britishcouncil.org/collection e que tem como objetivo máximo a promoção da cultura artística feita em território nacional dentro e fora de portas. Para isso intitulam-se (e bem) um “Museu sem Paredes” e essa postura demonstra não só que o objetivo da coleção é realmente o da utilização desse capital (ups) pelo maior número possível de agentes que (de forma coordenada/em rede/chame-lhe o que quiser) possa fazer essa coleção chegar ao maior número de pessoas, seja em Birmingham, em Aberdeen, em Nova Déli ou em Lisboa. Enquanto patrocinador desta coleção do dito SEC, sinto-me lesado enquanto esta andar por gabinetes de políticos (ou eventualmente pelas suas casas), mas também me sinto lesado se estas estiverem entregues de forma absoluta a museus que não só não a vão mostrar (por falta de espaços/recursos/interesses/etc) como ainda a vão afastar de todas as estruturas museológicas periféricas que temos no país, algumas com excelentes condições técnicas de exposição, mas que não poderão usufruir desta para programar.
    É estranho como figuras de relevo dentro do panorama museológico/curatorial/whatever deste país possam estar a alimentar uma contenda bifurcada e em grande medida legitimada por poderes centrais de Lisboa e Porto quando deviam ser os primeiros a socratizar-nos sobre a necessidade da criação de uma instituição sem paredes que a fizesse chegar a todos os que a pagaram!

  3. xiquito diz:

    Depois deste – coleção para baixo, coleção para cima – o problema mantém-se. Finda a exposição no MNAC-Chiado a arte contemporânea portuguesa vai voltar à clandestinidade. Independentemente das tricas PPP vs. Sector publico o que sobra é uma coleção guardada ( e muito bem guardada, pelo que se diz) em reservas. Quanto aos portugueses, e outros que queiram ter uma noção da produção artística portuguesa nos ultimos 50 anos terão que correr meia duzia de instituições onde estas obras se encontram “devidamente integradas em coleções internacionais”. Um panorama pobre e para inglês ver que não é mais do que uma amostra do que existe.
    Por ultimo, criticamos as instituições públicas pela sua baixa produtividade e inoperância mas quando aparecem ferramentas que permitam inverter o marasmo, etregamo-las aos privados.

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