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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Will Rogers, John Ford e Benard da Costa: Arte, Política e Religião

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Em Férias, tenho-me dedicado à Grande Depressão, na literatura, nos filmes, na crítica. Ouço versões de música sindicalista. Ando à roda de Steinbeck, Ford ou os dois juntos. Acabo por ser puxado em direcção a Will Rogers, de quem pouco se fala hoje em dia. Era talvez o Jon Stewart da sua época, meio Cherokee, índio de Circo, colunista e viajante profissional. Se foi esquecido e relativizado foi pelas suas opções públicas políticas, por apoiar Roosevelt, entre outras coisas. Benard da Costa cede-lhe rancorosamente três páginas no catálogo que dedicou a John Ford, no dicionário intitulado “Gente de Ford”, mais para explicar porque não gosta dele do que para o glorificar. Mete-o lá porque Ford gostava de Rogers, embora o director da Cinemateca não perceba bem porquê. Nem esconde o seu desprezo pelo comediante desde a primeira linha. Insiste que só era conhecido por razões que não tinham nada que ver com o cinema. Compara-o a Dale Carnegie. Chama-lhe pateta:

“Will Rogers é, na história de Hollywood, um caso único. Porque se dela é inseparável, o cinema foi só um dos «media», a certa altura privilegiado, para servir uma popularidade imensa que nada tem que ver com esta arte dita sétima. O fenómeno Rogers só podia acontecer na América. Quem se lembra de Dale Carnegie e daqueles livros (com tiragens de milhões) chamados Como Fazer Amigos, Como Influenciar Pessoas, A Arte de Ser Chefe ou coisas parecidas, cheios de lugares comuns e das mais generalizadas patetices, pode ter uma aproximação ao «showman» Rogers, que, nos anos 10, 20 e 30, percorreu os States a dizer banalidades congéneres e a arrastar multidões atrás dele, a ponto de se tornar num trunfo capital, não só no mundo do espectáculo, como no mundo da política (em 32, o seu apoio a Roosevelt parece ter sido capital para a eleição do Presidente). Chegaram a chamar escritor e filósofo ao homem que, em 26, declarava ao «Picture-goer»: «Sim senhor, sou escritor, e sou escritor há muito tempo. Não escrevo do bom, mas escrevo muito («I don’t write good, but I wrote a lot»).”

A antipatia é política, embora Benard da Costa a confunda (como seria de esperar) com uma questão de Gosto, com a crença na pureza religiosa da arte e sobretudo do cinema. Para ele, o pateta Rogers, colocado ao mesmo nível que uma criança e um cão, acaba por só fazer sentido dentro do populismo Rooseveltiano. Só se admite a política dentro da arte como uma interferência; nunca como algo central no cinema e na arte da época:

os seus filmes têm sido pouco repostos, de modo a tornar-se difícil saber quem tem razão: se os seus detractores, que falam dos «três monstros» dos «thirties»: um pateta (Rogers), uma criança (Shirley) e um cão (Rin-Tin-Tin); se os que vêem na sua obra dessa década, e sobretudo nos filmes de Ford, o prenúncio genial dos Capra e Fords futuros, emblema máximo desses anos. Mas mesmo um detractor como Thomson lhe chama «the most reflective and influential of American Film Stars», o «nobre selvagem» que encarnou como ninguém o populismo rooseveltiano, ao tempo em que uns acusavam o presidente do «New Deal» de esquerdismo e outros de fascismo. Rogers talvez não tenha sido a América, no sentido da citação inicial, mas foi certamente uma das imagens mais espontâneas dela.

A mesma incompreensão da arte política aparece quando no mesmo dicionário fala de Fonda:

Em dois filmes — e em dois filmes de Ford — Young Mr. Lincoln e The Grapes of Wrath, Fonda foi o olhar da América, ou duma certa América: a América rooseveltiana que, nos tempos de Hitler, Mussolini, Estaline e da mais terrível das guerras, propunha ao vasto mundo os valores liberais do credo de Gettysburgh. 40 anos depois, é fácil distanciarmo-nos do «populismo religioso» que impregna esses filmes ou situá-los nos limites da ideologia que os enforma. Mas essa distância só é possível «à distância», ou seja quando não estamos diante deles. Porque, quando vemos o luto do «young Lincoln» ou a saga de Tom Joad, reencontramos as raízes perdidas de indomáveis convicções. Por isso, Ford tinha razão quando disse que As Vinhas da Ira eram uma «timely story». «Timely story» do «people that live» da oração de Darwell. Mas «timely story» do herói em que todas essas coisas se personificaram: Henry Fonda.

Benard só consegue recuperar o cinema de um tempo muito particular e de um povo convertendo-o para a teologia que conhece, a da arte e da vida pública enquanto religião, e a do herói enquanto Santo. É o que faz com Fonda e é o que faz com Rogers. Se Fonda é o sindicalista que escolhe o martírio, Rogers é o charlatão que vende a banha da cobra usando os mesmos gestos e tiques do pregador itinerante, redimido a custo pelo toque de Ford:

O «Pocahonte Remedy» que vende no Steamboat Round the Bend é não só a mezinha sagrada, corno a remissão dos pecados, o equivalente do «Repent, ya sinners» que o Novo Moisés brada nesse filme. E, pelo menos com Ford, Rogers é a imagem duma desarmante confiança na natural bondade do homem.

Filed under: Crítica

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