The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O intelectual de direita revisitado

Há dez anos, quando aprendia a ter um blog, tive a sorte de encontrar o livro Representações do Intelectual, de Edward W. Said. Li-o de uma assentada, numa tarde em Lisboa a descansar das idas e voltas tradicionalmente vácuas Experimenta 2005. Said defendia o intelectual como crítico público, sempre atento e disposto a denunciar injustiças, mesmo arriscando a sua reputação.

Na altura, a própria ideia de intelectual público era contra-corrente. Gabavam-se os peritos, quem falava apenas do que sabia, o que se traduzia em insiders, políticos em pousio, economistas representantes do que na altura ainda não se chamava neoliberalismo. Assumir-se como intelectual público não estava na moda. Multiplicavam-se os artigos a anunciar ou a morte do conceito.

Entretanto, veio a crise. Os “peritos”, falhadas as suas ideias enquanto hipóteses científicas, redescobriram a política e a discussão pública. Já reconhecem o caracter ideológico do que defendiam, mas apenas para assegurar que já não são ideias inevitáveis pelo seu valor científico mas pelo seu valor político: já não se defende o neoliberalismo como processo que assegura um certo resultado dentro do campo económico e social mas como um requisito a cumprir para agradar aos poderes dominantes.

Foi uma mudança de vulto, que se traduziu apenas em artigos que garantiam que os intelectuais de direita tinham saído do armário – por medo de falarem em público num campo dominado pela esquerda, uma asserção justamente denunciada como falsa. Na verdade, o que aconteceu foi uma “politização” estratégica do discurso de direita, uma retirada de um poleiro apolítico, onde o seu discurso representava a um tempo um senso comum e uma sabedoria técnica. A direita deixava de invocar a certeza “científica” do neoliberalismo para dizer que era apenas uma doutrina política entre outras, uma opinião entre outras. O efeito é o de relativizar os seus próprios erros, tentando relativizar no processo ideias alternativas ou opostas.

Obviamente, não se deve esquecer que essas ideias nos foram apresentadas como inevitabilidades técnicas e científicas, e que, enquanto tal, falharam. Dizer que são apenas opinião ou apenas política, não as iliba desse falhanço. Há liberdade de opinião, claro. Pode defender-se o que se quiser. Mas isso não garante um estatuto de verdade ao que é defendido. Desconfio que o dilúvio de mentiras óbvias que o Governo e os seus apoiantes têm debitado não é apenas utilitário – não serve apenas para vencer eleições – mas deriva também de terem deixado de acreditar no que defendiam até há pouco tempo.

O resultado desta “descida” ao plano da política tem sido assim uma degradação acelerada desse mesmo plano.

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Mário Moura em Occidente, 1889
Augusto José em Occidente, 1889
Francisco Choupina em No Terraço
Marco em Onde
Candeias em Boletins

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: