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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Política está e sempre esteve no Papel de Parede – de William Morris à Biblioteca do Marquês

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E se o Jerónimo de Sousa fosse designer? Se a sua profissão fosse fazer mobília, ilustração, livros, padrões para papéis de parede? É mais do que provável que os comentadores do costume vissem nisso uma contradição. Diriam “esquerda caviar”, a caricatura habitual atirada a gente rica que trai a sua própria classe. Não interessa muito que boa parte dos designers seja pobre ou precária; é uma profissão conotada com riqueza e, pior ainda, superficialidade. Contudo, quando se formou a Segunda Internacional a 14 de Julho de 1889 em Paris, um dos signatários, representante do Socialismo em Inglaterra foi precisamente o designer William Morris, famoso pelos seus papéis de parede intrincados.

Sempre se acusou Morris de boas intenções e de incoerência: alguém que lutava pela igualdade mas fazia objectos artesanais que só gente muito rica podia comprar. Mas, como é habitual, quando se tiram estas conclusões apressadas, olha-se para etiqueta de preço e não se olha para o design em si. É preciso entender como se posicionava esse design na sua época. Se as ideias de Morris eram políticas é bastante provável que o seu design também o fosse. Hoje em dia, as características do que se considera ser um design político de esquerda – fotografia a preto e branco, montagens fotográficas, cores primárias em grandes superfícies, etc. – apareceram muito depois de Morris, já com o cinema, as vanguardas, e tudo o resto. Ou seja, não se sabe muito bem o que seria um design político no tempo de Morris.

Morris fundava as suas convicções políticas e estéticas em John Ruskin, que defendia um regresso aos processos comunitários da arquitectura medieval. Dizia Ruskin que a divisão do trabalho nas linhas de montagem da Revolução Industrial não dividia as tarefas mas fragmentava a própria alma humana, ao reduzir o trabalho ao fragmento de um gesto. Pelo contrário, na construção de uma catedral gótica, os trabalhadores participavam com a totalidade da sua vida. Era essa ideia de uma alma completa suportada por um trabalho completo que animava Morris.

Se olharmos para um livro, o primeiro objecto produzido por uma indústria mecânica, podemos ver as marcas de uma divisão de trabalho em todo o lado: cada caracter está separado dos outros; imagem e texto estão habitualmente separados sobre a página ou até em partes distintas do livro. Industrializar a escrita resultou numa modularização e especialização da produção – alguém faz os caracteres, alguém os compõe, alguém faz as imagens, etc. O resultado é a fragmentação de um processo que já foi contínuo.

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Nos livros de Morris, luta-se contra esta fragmentação produzindo uma página onde cada elemento está integrado num todo: margens, texto e ilustração fundem-se em intrincados padrões. A ideia dos padrões (ou designs) de Morris era precisamente essa. Seria esse o seu maior legado aos designers seguintes mesmo quando estes o renegavam (ou Morris os renegava a eles). A Arte Nova, por exemplo, usava temas vegetalistas quase abstractos para fazer o que Morris queria fazer: unir tudo a tudo numa linha contínua. A única grande inovação veio quando se percebeu que o espaço negativo podia fazer o mesmo que a decoração: com o uso de grelhas invisíveis podia-se dar unidade a tudo sem recorrer a folhinhas ou ervinhas.

Quando se fez a Exposição Universal de 1851 em Londres, os comentadores ingleses deploravam a falta de qualidade do design do seu país. Hbaitualmente quando se lê isso num livro de história não se percebe muito bem o que queriam dizer com isso. Só nos chegam chavões coados pelos nossos próprios preconceitos. Queixavam-se sobretudo de um estilo de decoração em trompe l’oeil, onde um papel de parede ou um tapete simulavam uma cena de caça ou o tecto de uma igreja barroca. Contra isso propunham uma estética de padrões bidimensionais que honravam a própria natureza das superfícies que ilustravam.

Tudo isto para voltar ao tema de ontem, o papel de parede, que ultimamente é usado sob a forma de impressões em vinil para decoração a torto e a direito. Trata-se de um uso político, como devia ser óbvio: acaba-se com uma biblioteca pública (ou um antigo negócio qualquer) e em vez de se assegurar condições para o manter, em vez de efectuar uma regulação efectiva, cumpre-se os mínimos colando um papel de parede a evocar as antigas funções. O mesmo se pode dizer de todos os cafés, hósteis e tuk tuks, decorados com poesia e azulejos.

Filed under: Crítica

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