The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ghost Fleet

Comecei Ghost Fleet para me distrair. Ao fim do dia, depois dos relatórios, das reuniões, da leitura de teses, agarrava finalmente no iPad e punha-me a ler. Tinha-o visto em duas ou três listas de livros para ler neste Verão, num blog de arquitectura especulativa e noutro de ficção científica. Diziam que descrevia uma guerra mundial com drones e hackers e que era assustador. É.

A primeira centena de páginas que narra um ataque surpresa da China aos Estados Unidos combinando hacking, destruição de satélites através de laser, bombardeamentos de larga escala, invasões terrestres com apoio de drones, são de cortar o fôlego. O GPS deixa de funcionar, tal como a maioria do equipamento electrónico. Arrepiam em particular a cena onde Pearl Harbor é de novo bombardeado e um avião americano supostamente invisível ao radar é perseguido por um missil anti-aéreo chinês. No capacete do piloto, vários chips genéricos, usados em todo o tipo de produtos, são acordados pelas emissões rádio do míssil, transformando-se em pequenas antenas que assinalam a posição do avião. Tinham sido fabricados na China – a cadeia de subcontratações terminava numa falsa empresa de fabrico de componentes que na verdade era apenas a fachada para um importador que cortava nos custos.

No resto do livro, os americanos reagem à invasão, elaborando um contra-ataque usando equipamento considerado obsoleto – a Ghost Fleet do título é uma frota de navios postos de reserva caso a principal seja destruída. A narrativa torna-se menos impessoal, perdendo um pouco da sua força. Desdobra-se em figuras mais ou menos bidimensionais sem grande construção, bonecos. Servem claramente para ver como a América responde a uma crise e como tal acabam por (mais uma vez) mostrar como a América ficcional o faria: há o único oficial sobrevivente do primeiro ataque que vai chefiar um navio experimental onde também trabalha o seu pai, com quem tem os problemas que se esperaria; há a antiga combatente no Médio Oriente, que se vê a chefiar uma insurgência na sua própria terra, usando as estratégias que foi treinada para combater; há a sino-descendente que enfrenta a xenofobia dos seus colegas para demonstrar que é leal ao seu país; há o empreendedor de silicon valley que se junta aos anónimos para contratacar; há o multibilionário inglês que se dedica à pirataria literal; há (esta é a parte mais cómica) uma femme fatale serial killer que vai matando um a um os invasores – se a América é a terra do serial killer, só é natural que se veja como responde uma à situação.

Mas, apesar do kitsch chauvinista, a acção continua a ser enervante. Morrem personagens sem grande cerimónia. Aquilo agarra até à última página. Há drones que atacam em enxame. Há navios automáticos que caçam submarinos usando padrões  de caça inspirados em tubarões. Mísseis que orbitam o seu alvo fora do alcance das suas defesas até serem suficientes para um ataque simultâneo em massa. Medo.

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Filed under: Crítica

1001 Noites

Fui ver as Mil e Uma Noites (o primeiro filme da trilogia de Miguel Gomes) ontem e com um pouco de medo que não fosse assim tão bom como se dizia. Podia ser só inchaço mediático. Mas não. É melhor do que o Tabu e até do que Aquele Querido Mês de Agosto – do qual já tinha gostado muito. Saí de lá comovido e animado.

Há aquela música mais conhecida dos Smiths que põe toda a gente a cantar o refrão “Hang the DJ! Hang the DJ! Hang the DJ!” e toda a gente se esquece da razão de ser daquela ameaça de morte ao pobre do DJ, que foge pelas ruas de Londres, Birmingham e Leeds, Carlisle, Dublin, Dundee, Humberside, tal como Miguel Gomes pelas ruas e matas de Viana do Castelo: “Because the music that they constantly play/ It Says Nothing To Me About My Life.” Gomes foge porque é difícil fazer filmes sobre a realidade em bruto, agarrar naquela coisa sobre a qual ainda não há livros, música, arte ou filmes e transformá-la em histórias. Só quando é apanhado e em risco de vida, enterrado até ao pescoço em areia, é que se resolve a salvar a vida contando histórias – todo o filme é sobre salvar a vida contando histórias, que se desdobram em historias e em mais histórias, todas de vida ou morte.

O que mais gostei do filme é que já só por mau hábito, por preguiça, se pode dizer ainda que anda entre o documentário e a ficção – um chavão com que se tem classificado mal muito do melhor cinema português, em particular o de Gomes. Acho que já não há documentário nenhum, apenas histórias onde às vezes os personagens e os factos são reais. Talvez ainda fosse assim com o Querido Mês de Agosto, mas um dos efeitos da crise foi uma erosão do lado documental do cinema português. Tudo ficou mais lírico, mais estranho. Contam-se histórias para salvar a vida – e também por respeito. Quando o sindicalista com problemas do coração entrevista candidatos ao Banho dos Magníficos, ele trata os desempregados que lhe vêm contar as suas histórias como se fossem exploradores quinhentistas. Todos aqueles relatos de perda, de pobreza, de revolta, revelam-se subitamente como épicos sem perderem nada da sua tristeza ou tragédia – é um momento que nunca poderia existir num simples documentário.

É essa recusa de reduzir o que se filma a um mero documento, interpondo-lhe uma ficção, uma voz, que tem marcado o melhor cinema português depois da crise. Antes, faziam-se coisas que por vezes caíam no turismo social, no erro de procurar autenticidade nas aldeias ou nos bairros sociais; agora, vai-se lá procurar ficções que não poderiam existir em mais sítio nenhum. Contra as mentiras oficiais de sucesso, empreendedorismo, inovação, austeridade, pieguice, disfarçadas de realidade com números, orçamentos e estatísticas, atiram-se estas ficções que as desmontam melhor que uma simples denúncia. É recusar que contem histórias por nós, onde nos reduzem constantemente a nada. Com tanto telejornal e reality show, o documentátio foi-se tornando numa maneira expedita de processar a realidade tornando-a em mercadoria. O antídoto é contar histórias, criar mitologias, fazer um épico daquilo que nos insistem não ser nada.

É isso que vejo também no Cavalo Dinheiro de Costa e no magnífico E Agora? Lembra-me de Joaquim Pinto – este último um caso extremo, onde há uma recusa completa de reduzir o que se filma (o próprio realizador/personagem) a um objecto documental: alguém que se percebe ser da classe média, urbana, ligada à cultura, mas que vive também uma existência extrema, de doença, de exclusão, onde a crise se parece focar como o sol através de uma lupa sobre uma formiga. Tudo no novo cinema português se torna ficção, sem se tornar mentiroso por isso.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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