The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cock and Bull, Shaggy Dog

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Ainda ando obcecado pelas 1001 Noites de Miguel Gomes. Tenho-me lembrado bastante de outras estruturas narrativas parecidas desde o Tristram Shandy, de Sterne, até ao Manuscrito  Encontrado em Saragoça, de Potocki. Histórias dentro de histórias dentro de histórias, que não se contentam com um género, que saltam entre as palavras e as imagens. Em Sterne encontra-se uma discussão divertida deste género de histórias, que não terminam e que enrolam o leitor: cock and bull stories, ou shaggy dog stories. Ora nas 1001 Noites há a história de galo, uma história com bois e vacas, e uma história à volta de um cão peludo.

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Qual é o drama?

Cap 66

Desde o começo desta “crise” pós-eleitoral já apanhei dois artigos históricos a descrever as razões pelas quais o PCP se tinha afastado do “arco de governação”, um de Paulo Pedroso e outro no Observador, que descobri através de uma referência num post de Pedro Lains. Através deles percebe-se qual é o começo da coisa. E até se percebe porque se foi mantendo. Mas tirando isso não são muito pertinentes. Foram coisas que se passaram lá para 1980 e poucos.

Eu na mesma altura comecei a comprar revistas de super-heróis Marvel. A primeira que apanhei foi uma do Capitão América onde se especulava o que teria acontecido se o herói não tivesse sido descongelado a meio da década de 1960 pelos vingadores. Na sua ausência, a América tinha-se tornado num pesadelo totalitário onde a maioria dos heróis se tinham tornado guerrilheiros. Uau. Muito intenso. É claro que eu nem fazia ideia quando comprei a revista que o Capitão América tinha sido congelado no fim da Segunda Grande Guerra. Ansiei por ler a história trágica onde isso tinha acontecido. Aliás, o maior apelo daquelas revistinhas coloridas era o que vinha de trás, o que tinha acontecido a todos aqueles super-heróis antes de os descobrirmos. No fim de cada revista vinha um dicionário destacável que nos dava uma biografia sumária e tantalizante, ilustrada pela cabeça de um herói ou vilão: o Barão Zemo, o Adaptóide, a Viúva Negra!

Anos depois li a primeira história onde aparecia o congelamento do Capitão América e era uma banhada ingénua e mal escrita. Na verdade, o congelamento tinha sido uma coisa para inventada à pressão para justificar o facto do personagem ter sido arquivado por vendas baixas desde o final da Segunda Grande Guerra. Também se apagavam assim as vergonhosas aventuras onde o tinham posto a perseguir Comunistas e negros durante os anos de McCarthy – mais tarde inventaram que este era um outro Capitão América que tinha enlouquecido. Os dois tiveram uma luta memorável.

Tudo isto para dizer o óbvio: os grandes mitos têm origens prosaicas, que muitas vezes já só têm um interesse histórico. A origem da saída do PCP do “arco de governação” diz pouquíssimo a muita da esquerda contemporânea.  O apagamento em curso desse período não teve só efeitos negativos (que é como quem diz, não serviu só os interesses do Governo) também foi desfazendo algumas grilhetas auto-impostas.

Não comecei a votar à esquerda pelo folclore mas por questões muito pragmáticas que tinham que ver com questões laborais relacionadas com o design. Se me dizem que reivindicar um pagamento justo ou votar contra a austeridade vai inevitavelmente trazer os Gulags, eu até me rio. Talvez já tenha havido uma época em que três mulherzinhas a protestar à frente de uma fábrica de texteis fechada podia ser interpretado sem grande contraditório como um primeiro passo para uma invasão soviética, mas hoje em dia é preciso explicar as coisas um bocadinho melhor.

O mesmo se pode dizer da possibilidade do PCP entrar no “arco de governação”. Qual é o drama? O Pedro Lains lembra outros países Europeus onde isso aconteceu com muito pouco drama, a França e a Itália. Já foi há algum tempo e estão bem melhor do que nós. Não se transformaram em Sovietes.

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Colectivos

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Ainda estou abananado com as 1001 noites. Fui ver o último dos três filmes a pensar em trabalho, a precisar de me concentrar para não me distrair. Agora, um dia depois, estou a escrever outra vez sobre o filme, porque não consigo pensar em trabalho depois de o ver.

Um pormenor que aprecio é que este é um filme sem heróis óbvios, que salvam o dia sozinhos. Todos os galãs, os que se relacionam com as mulheres através do sexo e mais nada, são rapidamente e na cara classificados como burros. A narração lembra-nos constantemente que o solitário Simão “Sem Tripas” é um facínora. Xerazade, a coisa mais próxima de uma heroína, conta as suas histórias mas quem as escreve é um colectivo de mulheres. E até dizer que este é um filme de Miguel Gomes é um tique, tendo em conta que, se virem a ficha técnica, tudo parte de um Comité Central.

tinha defendido que uma das chaves para o cinema se ter oposto tão bem à crise reside na sua natureza colectiva mas maleável. É precisa muita gente para fazer um filme mas o modo como se organizam não precisa de ser hierárquico. Agora, pensamos tudo em termos de realizadores ou quando muito de argumentistas ou até de actores, mas é possível imaginar modos muito distintos de fazer filmes.

Chris Marker nos anos 1960 fazia parte de uma equipa que filmava uma greve numa fabrica. No final, quando mostraram o filme aos operários, eles agradeceram o esforço mas apontaram que o filme não os representava bem. Tinham deixado de fora coisas que consideravam importantes. Assim, Marker e os colegas deram-lhes condições para filmarem os seus próprios documentários.

Na altura, andavam entusiasmados com o trabalho de Medvedkine, um cineasta soviético que percorria a Rússia nos anos 1920 num comboio estúdio, fazendo e usando filmes como instrumento pedagógico e documental da revolução. Essa mobilidade lembrou-me o esquema usada nas 1001 Noites, de uma grupo de jornalistas que investigava historias que pudessem ser filmadas de um momento para o outro pelo resto da equipa, depois de tratadas pelos argumentistas.

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Crítica Independente

De vez em quando alguém me pergunta se não preferia escrever para outro sítio que não para aqui, querendo dizer um jornal ou uma revista. Já o fiz pontualmente. Gostei. Mas gosto de escrever à solta, sobre o que me preocupa, irrita ou entusiasma. Ter um blog permite-me ser um crítico independente – o que deveria ser um pleonasmo.

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Um Filme de Sons Que Se Lê

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Saí agora do último 1001 Noites, “O Encantado”. Só me dei conta quase no fim que tinha lido um filme quase todo. De legenda em legenda, desde as amarelas que contavam histórias, às brancas que traduziam o que um actor estrangeiro dizia, é um filme cheio de sons que se lê. No meio dos sons e das palavras percebe-se de quando em quando portugueses que falam. Calculo que um francês ou um inglês vissem um outro filme. E um alemão (penso que não havia ninguém a falar essa língua) teria que ler a totalidade do filme, ou talvez dobrassem, o que neste caso (como noutros) seria um pouco absurdo.

E chega-se ao fim, e tal como nos outros dois filmes, há um indice, também ele uma legenda. É um filme-livro. Lembrou-me um pouco o Moby Dick, porque também aparecia (não neste) uma baleia, mas pela quantidade de dispositivos narrativos: desde cenas teatrais até verbetes de enciclopédia. Havia um capítulo onde as diferentes baleias eram classificadas como se fossem livros, as baleias in folio (as maiores), in quarto, in octavo, etc. – um livro onde tudo se parecia com uma baleia e tudo se parecia com um livro.

É um filme que merece bem o seu nome: “O Encantado”.

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Orgulho

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Ontem fui ver a segunda parte das 1001 noites. Não digo muito mais do que já tinha dito em relação à primeira. Tudo se confirma: saio destes filmes com uma sensação que me é estranha, que até tenho dificuldade a escrever: sinto orgulho. Vejo aqueles personagens, aquelas histórias, aqueles sítios, e tenho orgulho de ser do sítio que inspirou aquilo.

Faço parte de uma geração treinada para não sentir coisas dessas, sobretudo por um país. O orgulho de pertencer é do tempo da velha senhora. Não é habitual sentir-se. Não se está sequer preparado para isso. Apanha-nos de surpresa.

E é esse orgulho que confirma que estes filmes, mais do que um épico, formam o mais raro dos bicharocos narrativos: uma epopeia. E mais surpreendente é perceber que era mesmo isso que se estava a precisar, agora, em crise, de uma teia de fábulas a propósito de quase nada, de coisas mínimas, marginais, da espuma dos dias, de notícias de jornal, casos de tribunal, bitaites da política.

Não consigo, como muitos amigos meus, dizer se gostei mais ou menos deste do que do primeiro. Emocionei-me mais rapidamente no outro. Mas este deixou-me uma emoção mais lenta, mais cerebral, igualmente forte. Gostei de tudo, mas apreciei os detalhes: o fumo que passava pelos apartamentos nos Donos de Dixie. O discurso legal com que a juíza tentava em vão resumir uma cadeia torrencial de crimes. Os rituais silenciosos do fugitivo à justiça Simão “Sem Tripas”.

Enquanto assistia, lembrei-me do primeiro filme que vi do género, daquilo que uma amiga me descreveu como sendo a Estética de Telheiras: Rapace, de João Nicolau, com o qual delirei, mesmo sem perceber muito bem porquê. Uma estética irónica, cerebral e tímida. Na altura, ocorreu-me que sempre tinha pensado que, seguindo as lógicas de filiação que ordenam a arte portuguesa, no cinema seriam os “filhos” de Pedro Costa a vingar. Com Rapace e mais tarde com Miguel Gomes percebi com surpresa que tinham sido os “filhos” de João César Monteiro. Mais surpreendido fiquei quando vi que desta cepa sarcástica mas tímida tinha saído uma epopeia. Uma epopeia a sério. Quem havia de dizer.

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Feroz Indignação

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Já não tenho paciência para a boa disposição como um estado desejável por defeito. Se o nosso país está em pantanas; se a injustiça se tornou num negócio (aliás, como o resto), ser obrigado a assistir a isto com boa disposição ainda consegue somar a injúria à calamidade. Prefiro estar mal disposto. Sinto alívio a sê-lo.

Edward W Said (um exilado) dizia que o intelectual vive num exílio nem que seja metafórico, numa pátria que se tornou estranha, mas que tende a ser “feliz com a ideia de infelicidade”, que a “rezinguice desagradável pode ser, não apenas um novo estilo de pensar, mas uma nova casa temporária.” Dá o exemplo de Jonathan Swift, exilado na Irlanda ao fim da vida, uma figura “quase lendária de ressabiamento e ira” que escreveu no seu próprio epitáfio “saeva indignatio” ou feroz indignação.

Parece um lema apropriado mais ainda quando lemos o resto:

“Aqui jaz o corpo de
Jonathan Swift, […]
Onde a feroz indignação
Não poderá mais
lacerar-lhe o coração.
Vai, viajante,
E imita, se puderes,
Este que se consumiu ao máximo
Em defesa da Liberdade.”

(republicado do facebook)

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Audiências 

Quando vi o filme do Miguel Gomes no Dolce Vita Porto, sexta à noite, estavam umas oito pessoas na sala, que entraram na sala mesmo em cima da hora. Enquanto esperava na sala vazia, lembrei-me das filas para ver o Pátio das Cantigas – que, admito, é pouco provável que veja se não o apanhar na Televisão; assumo que será uma Comédia do Estado Novo 2.0. actualizada para uma época onde já é de mau tom falar sequer de Estado.

Pensei naquela sala vazia muitas vezes enquanto e depois de ver o filme. Era o objecto perfeito para uma minoria da qual sei que faço parte. Não me vejo representado pela televisão, pelos jornais, pelos prémios literários, pela maioria do cinema. Não consigo pôr o suficiente em palavras o quanto gosto, portanto, deste cinema – de Gomes, de Pedro Costa e Joaquim Pinto. 

Que minoria é essa? Assumo que são os vestígios de uma classe média, mais uma forma de hábito, uma maneira de estar do que efectivamente uma classe económica e social. É uma coisa delapidada e mal representada, empobrecida, que vê a família a partir e que ela própria parte. Que tem cada vez acesso a menos coisas. Fora de Lisboa e Porto, pergunto-me quantas pessoas poderão ver este filme? Nas terras onde foi filmado, alguém o pôde ver?

Nem sequer falo da classe média no seu todo, mas de uma pequena fatia que gosta de coisas como o cinema português. Lembro-me há uns anos de um programa no Canal Q onde o João Botelho se irritou epicamente com um sketch imbecil e preconceituoso sobre os supostos chavões do cinema português – humor de segunda por gente que devia ter juízo. Gostar de Miguel Gomes ou de Joaquim Pinto, rever-se nos seus filmes, é ser uma minoria dentro de uma minoria. Boa parte desta nova sociedade de empreendedorismo,inovação, etc. está-se nas tintas para coisas destas. É a nova burguesia que vai desabrochando no meio desta treta: são artistas, designers, escritores – gente como o Afonso Reis Cabral, que acha que a crise já não está na moda. Viajam, escrevem, preocupam-se, mexem-se, vestem-se, mas é tudo decorativo, formal, podia ser feito aqui como podia ser feito em outro sítio qualquer – é uma cultura como uma cadeira de esplanada da Ikea, como um livro impresso em vinil para ser colado nas paredes de uma antiga biblioteca transformada em café.

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Ética vai de carrinho

Há uns anos estava na moda o consumo ético. Diziam-nos para examinar as etiquetas dos produtos a tentar perceber se eram feitos em sweatshops ou envolviam testes com animais. Não sei quando foi, mas a moda deve ter acabado. Eu devo ser antiquado porque não faço isso só quando vou comprar comida ou peúgas; também o faço sempre que possível quando uso um serviço.

Se me preocupo com a ética de onde me vem a comida e a roupa, também me preocupam as implicações de onde me vem a educação, a saúde e os transportes. Isto porque a propósito da Uber vs Taxistas se diz que a Uber é um serviço melhor, o que significa apenas que é mais barato, os motoristas são mais educados. Ora, lendo regularmente o que se escreve sobre a Uber em outros países, percebe-se que é barato porque ignora ou contorna a regulamentação de serviços semelhantes e atira com todas as responsabilidades para cima dos motoristas, que podem ser erradicados do serviço se tiverem estrelinhas a menos. Daí a boa educação. 

A Uber só foi um bom negócio para esses motoristas enquanto tinha o monopólio do contorno da lei. Quando apareceram mais empresas a fazer o mesmo, aí os preços baixaram ao ponto dos motoristas começarem a perder dinheiro. Dirão os partidários da Uber que o cliente fica a ganhar. Como cliente, não quero ficar a ganhar a qualquer custo. Não quero participar da exploração da pessoa que me presta um serviço.

E, em relação aos taxistas, já apanhei taxistas educados, atenciosos, que falavam sobre design, e transportavam na mala latinhas de comida para gatos que deixavam para os animais abandonados comerem. Tento não ser preconceituoso.

Em conclusão, adorava ter mais e melhores transportes públicos. Isso é que era bom.

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Never Mind The Bróculos

Ontem fui jantar a uma hamburgueria vegan/punk no Porto. Vendiam hamburgueres e discos numa travessa pedonal sujeirona acima do Carlos Alberto. Os hamburguers não eram maus (recomendo o menu 666 – alho francês à brás).

Fiquei a olhar para a clientela, desde famílias de turistas com filhotes até à habitual punkette/rockette/pós-hipsterete. Felizmente, nada daquilo parecia ou sequer pretendia ser autêntico. Gosto dos meus hamburguers vegan/punk sem uma dose à parte de angústia ritual sobre se os sex pistols (ou qualquer outra banda) se venderam.

A Autenticidade está para o Punk (e para a cena turística) como a Graça está para a religião (o Dan Graham dá umas pistas sobre as relações entre as duas coisas; o Benjamin viu logo a relação entre romarias turísticas e religiosas). Uma como a outra, nunca se tiveram, nem acho que tenham existido fora as discussões posteriores sobre a suaexistência ou decadência.

O punk é como um quadro do magrite onde na parte de cima está um blusão de cabedal, um vinil de uma banda qualquer, uma crista, “1977” e em baixo está escrito com letras recortadas à Never Mind the Bollocks “Isto Não Se Vendeu”.

(republicado do meu facebook)

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O “Centro”

Costa não perdeu porque tentou captar os votos da esquerda. Na verdade, nem sequer tentou. Ter um programa económico não chega. Era preciso ter um programa político. E era preciso ter bastante cuidado. Disse uma série de coisas durante a campanha que me puseram os pêlos todos no ar. Aquela idiotice de pôr os refugiados a limpar matas. Como é possível dizer uma coisas dessas e esperar que alguém de esquerda vote nele?

Os do PS ainda acreditam que estão no centro, que são sensatos, que podem conciliar tudo e todos, que a política se discute à porta fechada antes de pôr a coisa perante os outros. Mas o “centro”, esse lugar utópico onde estão o senso comum e os compromissos, não existe. É o sítio onde está toda a direita portuguesa que se acredita moderada até quando recusa um refugiado porque pode “ser um terrorista”, que pensa que está a ser cautelosa quando sacrifica uns tantos hospitais, reformados e escola às manias austeritárias dos Alemães, que acredita piamente que é aceitável ir destruindo o país a troco de dinheiro da Europa.

É nesse centro que estão os que escolhem votar PSD/CDS. Vêem isso como uma decisão difícil, não ignoram que o Governo mente, é corrupto, que as políticas não são as que “verdadeiro liberal” ou até um “verdadeiro democrata” seguiria, que sacrificam pessoas e bens, mas por ser difícil ainda ficam mais convictos da racionalidade e da imparcialidade da sua escolha.

Não há centro. Há um sítio onde não se acredita na política como uma coisa que se discute em voz alta fora de casa, onde se assume, por falta de experiência e porque se vive trancado na televisão ou no mural do facebook, que toda a gente pensa do mesmo modo.

O mesmo se passava com a esquerda até esta crise ir avançada. Com os refugiados percebia-se de repente que até se tinha amigos xenófobos. Nesse caso, o “centro” abriu a boca, porque percebeu que se não o fizesse, as coisas aconteciam mesmo, a Alemanha (a grande rede de salvação do “Centro”) parecia que se tinha esquecido e preparava-se para receber os refugiados.  A esquerda foi percebendo que era a única que acreditava na política, em discutir em público, mas que lá fora no escuro estava uma grande massa de “senso e comum” e de “centro”, que só fala em público através de voto e isso basta.

Costa e o PS, que pateticamente acredita que com Seguro tinha sido diferente, ainda acham que há lugar para eles no “centro”. Ou acordam ou vão perceber que as próximas eleições ainda vão ser piores para eles.

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Automatizem os bancos

Já agora, continuando a desmontar o argumento que defende que a automatização vai baixar os salários e eliminar os empregos. O emprego mais lucrativo do mundo é quase totalmente automatizado. Estou a falar do sector finaceiro onde boa parte das decisões são neste momento feitas por software bastante autónomo, onde o que conta é a quantidade inumana de transações e a sua rapidez igualmente transcendente (veja-se o livro Flash Boys, de Michael Lewis, por exemplo). Seria de esperar que esta automatização da especulação acabasse por a desvalorizar ou trivializar. E não, não me venham dizer que a alta finança é essencial. Não só provocou uma crise mundial por pura incompetência estrutural como é, nas palavras de Mark Blyth, o autor de Austerity, History of a dangerous idea,:

“part of the information system of the economy: linking borrowers and lenders while sitting in the middle collecting a fee. It’s not an industry in the traditional sense, and it certainly should not have been producing 40 percent of corporate profits in the United States on the eve of the crisis”

Aliás, Blyth defende que o sector financeiro acabará por desaparecer mais tarde ou mais cedo porque a) é na melhor das hipóteses inútil b) não é sustentável (em termos humanos, ambientais, etc.) Porque continua o sector financeiro a existir, então? Por pressões políticas, claro. É aí que residem as decisões e não numa espécie de fatalismo tecnológico que dita que a história parou e que portanto os empregos vão todos desaparecer menos os de uma meia dúzia de especuladores hereditários.

Assim quando se diz que uma classe média não é sustentável porque o preferível é ter empreendedores, lembrem-se de quem fica a ganhar. Nos cursos de empreendedorismo dos centros de emprego, por exemplo, ensina-se os desempregados essencialmente a endividarem-se, porque disso que se trata quando se fala de financiamento: alimentar o sector financeiro. Lembrem-se também do paleio sobre os empregos de antes da crise que não eram sustentáveis, porque “não eram reais” – pagos por uma economia “distorcida” pelo “peso do estado”, “sustentados pelo endividamente público”. Lembrem-se que o emprego de quem fomenta essa convera é simplesmente mudar quantidades de informação de sítio, sem acrescentar qualquer tipo de mudança substantiva ao mundo.

(republicado do meu facebook)

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António Guerreiro na Fbaup

No final da aula do António Guerreiro na Fbaup, houve um breve debate que me irritou bastante sobre se um murro dado a Paul Mccarthy por causa do seu Butt Plug gigante ou se o grafitti sobre a obra de Kapoor não seriam uma reacção crítica – Guerreiro tinha dito que o declinio da crítica correspondia a uma apatia generalizada em relação à arte. Cito de memória.

Enfim, caiu-se no erro comum e romântico de avaliar a pertinência da obra pela violência da reacção a ela. Guerreiro citou alguém que comentava a prisão ou assassinato de um poeta na Rússia dizendo qualquer coisa como “a poesia é tão importante neste país que até se dão ao trabalho de matar os poetas” – é, e devia ser, uma piada porque dá a entender que a arte só faz sentido em condiçoes extremas e acaba por ser definida por aquilo que a quer destruir.

Bem depressa se chega daí àquela idiotice que a arte precisa de ser literalmente violenta para ser “autêntica” – o que só acontece em séries sobre serial killers que matam e esfolam para “criar”.

Mas é sintomático que num contexto como o nosso (português, europeu, etc) onde é particularmente difícil fazer arte política que tenha um mínimo de eficácia, que não se limite a fazer efígies inertes da política, a resgatar formatos políticos do passado num contexto formalista, etc, é sintomático que se sonhe com a violència quando nem a mera política é autorizada.

O que quero dizer com isso? Na altura, quando se sugeriu que os grafittis pintados na base da escultura de Kapoor eram uma reação crítica que quebrava a apatia em relação à arte, perguntei-me o que fazia daquela escultura algo diferente dos rés-do-chão e pedestais de monumentos de toda a França, cobertos de gatafunhos igualmente odiosos? Aquilo ser uma obra de arte?

É claro que quando o artista decide fazer política, política real, integrando os grafitti na obra vem um gajo de extrema direita com uma ordem do tribunal para os apagar. Os grafitti eram uma tentativa de desfigurar e de rasurar a obra. Eram uma tentativa de censura e de humilhação (tal como o murro a Mccarthy). Kapoor tentou trazer aquilo de volta para a política e para o debate forçando-os a tomarem parte num diálogo. Como seria de esperar, não conseguiu.

Não se trata só de a arte ser apática, mas de não lhe deixarem outra tarefa que não essa.

(republicado do meu facebook)

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Subversão vs. Marginalidade

Prefiro a subversão à marginalização, sobretudo quando é autoimposta. Irritam-me os que acreditam que a subversão é uma consequência da marginalização e não o oposto, que a marginalização é uma consequência indesejada da subversão.

Apoio os que subvertem para entrar onde não os querem; desconfio dos que acham que, pondo-se à margem, saindo, pensam que subvertem.

Um exemplo, Diógenes o Cínico no qual tenho pensado bastante. Como é habitual nestas coisas, era filho de país ricos. Por convicção desistiu de tudo e vivia como um cão, num barril numa encruzilhada. Segundo se diz, ganhou reputação a ser brutalmente honesto com quem o procurava.

Diz-se que deu origem a um dos meus lemas favoritos Solvitur Ambulando, a coisa resolve-se andando, que (já agora) é o lema do clube dos pilotos da RAF que se evadiram de campos de prisioneiros (há, como seria de esperar, um clube dos pilotos da RAF que se evadiram de campos de prisioneiros). Pois bem, Diógenes discutia com alguém que acreditava na impossibilidade do movimento como era moda na Grécia de então. Insistia que o movimento era impossível. Diógenes disse “Ah é?” e pôs-se a mexer, vencendo a discussão.

Quando Alexandre o Grande o visitou, encontrou-o a esgravatar numa pilha de ossos humanos (não havia grande higiene na época). Enquanto atirava tíbias e perónios para todo o lado, resmungava que andava ali a tentar distinguir os ossos dos pais de Alexandre dos de um mendigo. Não estava a conseguir.

Alexandre ficou bastante impressionado com a lição de moral que outros levariam como um insulto inconsequente – que interessa se os ossos são todos iguais; o que interessa é que o General e o mendigo (se por acaso se encontraram realmente) não mudaram de condição.

Há uma grande tradição conformista de se procurar este género de pessoas que se põem à margem e tentar generalizar alguma sabedoria ou santidade desse estado. Lembrei-me disso quando outro dia li que o João Miguel Tavares queria fazer uma biografia do João César Monteiro e por isso ia falando com o recém falecido Vítor Silva Tavares. A minha primeira tentação foi pensar “Como é possível? Este nabo a fazer uma biografia sobre João César Monteiro?” Mas no fim de contas, não me espanta, a direita e os liberalóides gostam de excêntricos desbocados, Luiz Pacheco, João César Monteiro, Vítor Silva Tavares, admiram neles a pobreza, a marginalidade, que consideram como de costume mais autêntica. Pensam que esse é o início e fim da sua subversão, falhando o que mais interessa nesses três: o que interessa é que se recusavam a ir embora, publicavam, falavam, faziam.

(republicado do meu facebook)

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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