The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

António Guerreiro na Fbaup

No final da aula do António Guerreiro na Fbaup, houve um breve debate que me irritou bastante sobre se um murro dado a Paul Mccarthy por causa do seu Butt Plug gigante ou se o grafitti sobre a obra de Kapoor não seriam uma reacção crítica – Guerreiro tinha dito que o declinio da crítica correspondia a uma apatia generalizada em relação à arte. Cito de memória.

Enfim, caiu-se no erro comum e romântico de avaliar a pertinência da obra pela violência da reacção a ela. Guerreiro citou alguém que comentava a prisão ou assassinato de um poeta na Rússia dizendo qualquer coisa como “a poesia é tão importante neste país que até se dão ao trabalho de matar os poetas” – é, e devia ser, uma piada porque dá a entender que a arte só faz sentido em condiçoes extremas e acaba por ser definida por aquilo que a quer destruir.

Bem depressa se chega daí àquela idiotice que a arte precisa de ser literalmente violenta para ser “autêntica” – o que só acontece em séries sobre serial killers que matam e esfolam para “criar”.

Mas é sintomático que num contexto como o nosso (português, europeu, etc) onde é particularmente difícil fazer arte política que tenha um mínimo de eficácia, que não se limite a fazer efígies inertes da política, a resgatar formatos políticos do passado num contexto formalista, etc, é sintomático que se sonhe com a violència quando nem a mera política é autorizada.

O que quero dizer com isso? Na altura, quando se sugeriu que os grafittis pintados na base da escultura de Kapoor eram uma reação crítica que quebrava a apatia em relação à arte, perguntei-me o que fazia daquela escultura algo diferente dos rés-do-chão e pedestais de monumentos de toda a França, cobertos de gatafunhos igualmente odiosos? Aquilo ser uma obra de arte?

É claro que quando o artista decide fazer política, política real, integrando os grafitti na obra vem um gajo de extrema direita com uma ordem do tribunal para os apagar. Os grafitti eram uma tentativa de desfigurar e de rasurar a obra. Eram uma tentativa de censura e de humilhação (tal como o murro a Mccarthy). Kapoor tentou trazer aquilo de volta para a política e para o debate forçando-os a tomarem parte num diálogo. Como seria de esperar, não conseguiu.

Não se trata só de a arte ser apática, mas de não lhe deixarem outra tarefa que não essa.

(republicado do meu facebook)

Filed under: Crítica

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