The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Subversão vs. Marginalidade

Prefiro a subversão à marginalização, sobretudo quando é autoimposta. Irritam-me os que acreditam que a subversão é uma consequência da marginalização e não o oposto, que a marginalização é uma consequência indesejada da subversão.

Apoio os que subvertem para entrar onde não os querem; desconfio dos que acham que, pondo-se à margem, saindo, pensam que subvertem.

Um exemplo, Diógenes o Cínico no qual tenho pensado bastante. Como é habitual nestas coisas, era filho de país ricos. Por convicção desistiu de tudo e vivia como um cão, num barril numa encruzilhada. Segundo se diz, ganhou reputação a ser brutalmente honesto com quem o procurava.

Diz-se que deu origem a um dos meus lemas favoritos Solvitur Ambulando, a coisa resolve-se andando, que (já agora) é o lema do clube dos pilotos da RAF que se evadiram de campos de prisioneiros (há, como seria de esperar, um clube dos pilotos da RAF que se evadiram de campos de prisioneiros). Pois bem, Diógenes discutia com alguém que acreditava na impossibilidade do movimento como era moda na Grécia de então. Insistia que o movimento era impossível. Diógenes disse “Ah é?” e pôs-se a mexer, vencendo a discussão.

Quando Alexandre o Grande o visitou, encontrou-o a esgravatar numa pilha de ossos humanos (não havia grande higiene na época). Enquanto atirava tíbias e perónios para todo o lado, resmungava que andava ali a tentar distinguir os ossos dos pais de Alexandre dos de um mendigo. Não estava a conseguir.

Alexandre ficou bastante impressionado com a lição de moral que outros levariam como um insulto inconsequente – que interessa se os ossos são todos iguais; o que interessa é que o General e o mendigo (se por acaso se encontraram realmente) não mudaram de condição.

Há uma grande tradição conformista de se procurar este género de pessoas que se põem à margem e tentar generalizar alguma sabedoria ou santidade desse estado. Lembrei-me disso quando outro dia li que o João Miguel Tavares queria fazer uma biografia do João César Monteiro e por isso ia falando com o recém falecido Vítor Silva Tavares. A minha primeira tentação foi pensar “Como é possível? Este nabo a fazer uma biografia sobre João César Monteiro?” Mas no fim de contas, não me espanta, a direita e os liberalóides gostam de excêntricos desbocados, Luiz Pacheco, João César Monteiro, Vítor Silva Tavares, admiram neles a pobreza, a marginalidade, que consideram como de costume mais autêntica. Pensam que esse é o início e fim da sua subversão, falhando o que mais interessa nesses três: o que interessa é que se recusavam a ir embora, publicavam, falavam, faziam.

(republicado do meu facebook)

Filed under: Crítica

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