The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Audiências 

Quando vi o filme do Miguel Gomes no Dolce Vita Porto, sexta à noite, estavam umas oito pessoas na sala, que entraram na sala mesmo em cima da hora. Enquanto esperava na sala vazia, lembrei-me das filas para ver o Pátio das Cantigas – que, admito, é pouco provável que veja se não o apanhar na Televisão; assumo que será uma Comédia do Estado Novo 2.0. actualizada para uma época onde já é de mau tom falar sequer de Estado.

Pensei naquela sala vazia muitas vezes enquanto e depois de ver o filme. Era o objecto perfeito para uma minoria da qual sei que faço parte. Não me vejo representado pela televisão, pelos jornais, pelos prémios literários, pela maioria do cinema. Não consigo pôr o suficiente em palavras o quanto gosto, portanto, deste cinema – de Gomes, de Pedro Costa e Joaquim Pinto. 

Que minoria é essa? Assumo que são os vestígios de uma classe média, mais uma forma de hábito, uma maneira de estar do que efectivamente uma classe económica e social. É uma coisa delapidada e mal representada, empobrecida, que vê a família a partir e que ela própria parte. Que tem cada vez acesso a menos coisas. Fora de Lisboa e Porto, pergunto-me quantas pessoas poderão ver este filme? Nas terras onde foi filmado, alguém o pôde ver?

Nem sequer falo da classe média no seu todo, mas de uma pequena fatia que gosta de coisas como o cinema português. Lembro-me há uns anos de um programa no Canal Q onde o João Botelho se irritou epicamente com um sketch imbecil e preconceituoso sobre os supostos chavões do cinema português – humor de segunda por gente que devia ter juízo. Gostar de Miguel Gomes ou de Joaquim Pinto, rever-se nos seus filmes, é ser uma minoria dentro de uma minoria. Boa parte desta nova sociedade de empreendedorismo,inovação, etc. está-se nas tintas para coisas destas. É a nova burguesia que vai desabrochando no meio desta treta: são artistas, designers, escritores – gente como o Afonso Reis Cabral, que acha que a crise já não está na moda. Viajam, escrevem, preocupam-se, mexem-se, vestem-se, mas é tudo decorativo, formal, podia ser feito aqui como podia ser feito em outro sítio qualquer – é uma cultura como uma cadeira de esplanada da Ikea, como um livro impresso em vinil para ser colado nas paredes de uma antiga biblioteca transformada em café.

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Mário Moura em Occidente, 1889
Augusto José em Occidente, 1889
Francisco Choupina em No Terraço
Marco em Onde
Candeias em Boletins

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: