The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Orgulho

041

Ontem fui ver a segunda parte das 1001 noites. Não digo muito mais do que já tinha dito em relação à primeira. Tudo se confirma: saio destes filmes com uma sensação que me é estranha, que até tenho dificuldade a escrever: sinto orgulho. Vejo aqueles personagens, aquelas histórias, aqueles sítios, e tenho orgulho de ser do sítio que inspirou aquilo.

Faço parte de uma geração treinada para não sentir coisas dessas, sobretudo por um país. O orgulho de pertencer é do tempo da velha senhora. Não é habitual sentir-se. Não se está sequer preparado para isso. Apanha-nos de surpresa.

E é esse orgulho que confirma que estes filmes, mais do que um épico, formam o mais raro dos bicharocos narrativos: uma epopeia. E mais surpreendente é perceber que era mesmo isso que se estava a precisar, agora, em crise, de uma teia de fábulas a propósito de quase nada, de coisas mínimas, marginais, da espuma dos dias, de notícias de jornal, casos de tribunal, bitaites da política.

Não consigo, como muitos amigos meus, dizer se gostei mais ou menos deste do que do primeiro. Emocionei-me mais rapidamente no outro. Mas este deixou-me uma emoção mais lenta, mais cerebral, igualmente forte. Gostei de tudo, mas apreciei os detalhes: o fumo que passava pelos apartamentos nos Donos de Dixie. O discurso legal com que a juíza tentava em vão resumir uma cadeia torrencial de crimes. Os rituais silenciosos do fugitivo à justiça Simão “Sem Tripas”.

Enquanto assistia, lembrei-me do primeiro filme que vi do género, daquilo que uma amiga me descreveu como sendo a Estética de Telheiras: Rapace, de João Nicolau, com o qual delirei, mesmo sem perceber muito bem porquê. Uma estética irónica, cerebral e tímida. Na altura, ocorreu-me que sempre tinha pensado que, seguindo as lógicas de filiação que ordenam a arte portuguesa, no cinema seriam os “filhos” de Pedro Costa a vingar. Com Rapace e mais tarde com Miguel Gomes percebi com surpresa que tinham sido os “filhos” de João César Monteiro. Mais surpreendido fiquei quando vi que desta cepa sarcástica mas tímida tinha saído uma epopeia. Uma epopeia a sério. Quem havia de dizer.

Filed under: Crítica

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