The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Qual é o drama?

Cap 66

Desde o começo desta “crise” pós-eleitoral já apanhei dois artigos históricos a descrever as razões pelas quais o PCP se tinha afastado do “arco de governação”, um de Paulo Pedroso e outro no Observador, que descobri através de uma referência num post de Pedro Lains. Através deles percebe-se qual é o começo da coisa. E até se percebe porque se foi mantendo. Mas tirando isso não são muito pertinentes. Foram coisas que se passaram lá para 1980 e poucos.

Eu na mesma altura comecei a comprar revistas de super-heróis Marvel. A primeira que apanhei foi uma do Capitão América onde se especulava o que teria acontecido se o herói não tivesse sido descongelado a meio da década de 1960 pelos vingadores. Na sua ausência, a América tinha-se tornado num pesadelo totalitário onde a maioria dos heróis se tinham tornado guerrilheiros. Uau. Muito intenso. É claro que eu nem fazia ideia quando comprei a revista que o Capitão América tinha sido congelado no fim da Segunda Grande Guerra. Ansiei por ler a história trágica onde isso tinha acontecido. Aliás, o maior apelo daquelas revistinhas coloridas era o que vinha de trás, o que tinha acontecido a todos aqueles super-heróis antes de os descobrirmos. No fim de cada revista vinha um dicionário destacável que nos dava uma biografia sumária e tantalizante, ilustrada pela cabeça de um herói ou vilão: o Barão Zemo, o Adaptóide, a Viúva Negra!

Anos depois li a primeira história onde aparecia o congelamento do Capitão América e era uma banhada ingénua e mal escrita. Na verdade, o congelamento tinha sido uma coisa para inventada à pressão para justificar o facto do personagem ter sido arquivado por vendas baixas desde o final da Segunda Grande Guerra. Também se apagavam assim as vergonhosas aventuras onde o tinham posto a perseguir Comunistas e negros durante os anos de McCarthy – mais tarde inventaram que este era um outro Capitão América que tinha enlouquecido. Os dois tiveram uma luta memorável.

Tudo isto para dizer o óbvio: os grandes mitos têm origens prosaicas, que muitas vezes já só têm um interesse histórico. A origem da saída do PCP do “arco de governação” diz pouquíssimo a muita da esquerda contemporânea.  O apagamento em curso desse período não teve só efeitos negativos (que é como quem diz, não serviu só os interesses do Governo) também foi desfazendo algumas grilhetas auto-impostas.

Não comecei a votar à esquerda pelo folclore mas por questões muito pragmáticas que tinham que ver com questões laborais relacionadas com o design. Se me dizem que reivindicar um pagamento justo ou votar contra a austeridade vai inevitavelmente trazer os Gulags, eu até me rio. Talvez já tenha havido uma época em que três mulherzinhas a protestar à frente de uma fábrica de texteis fechada podia ser interpretado sem grande contraditório como um primeiro passo para uma invasão soviética, mas hoje em dia é preciso explicar as coisas um bocadinho melhor.

O mesmo se pode dizer da possibilidade do PCP entrar no “arco de governação”. Qual é o drama? O Pedro Lains lembra outros países Europeus onde isso aconteceu com muito pouco drama, a França e a Itália. Já foi há algum tempo e estão bem melhor do que nós. Não se transformaram em Sovietes.

Filed under: Crítica

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